A influência e comercialização da notícia

Por Susane Sanches

A discussão entre a influência da mídia na sociedade é antiga, já que é um grande meio de propagação de notícias e principalmente, de ideias.

Somos constantemente bombardeados por informações, sejam nos jornais, revistas, televisão, rádio ou em nossos próprios smartphones.

Todo esse conteúdo é veiculado por um meio de comunicação que, como qualquer outra empresa, tem um dono ou um conjunto deles, que prezam por seus interesses particulares.
Muitas destas empresas de comunicação dependem do capital de outros investidores, havendo uma falsa pluralidade de vozes – já que normalmente estes investidores também são homens brancos e de alto poder aquisitivo, com inúmeros contatos políticos.

Esse grupelho de pessoas com pensamentos congruentes pode influenciar toda a sociedade a partir da editorialização que adotam para as notícias, o que é perigosíssimo, pois, dessa forma, se extingue toda e qualquer oportunidade de debate e formulação de senso crítico, já que todos enxergariam os fatos apenas parcialmente, o que é tão assustador quanto o mito da caverna, de Platão.

Até que ponto estamos alienados? Será que somos pautados ou pautamos a mídia?
As teorias da agenda setting, que explicam a correspondência entre a intensidade de cobertura de um fato pela mídia e a relevância desse fato para o público, debatem a obrigação da pauta, se seria ela da sociedade ou da mídia.

Para o jornalista Guilherme Mendes, trainee do jornal O Estado de S. Paulo, as forças variam de lado dependendo da situação: “se tomarmos como exemplo as manifestações de 2013, é possível observar como a sociedade pautou “na amarra” os eventos cobertos pela mídia. Já nas manifestações de 2015, aparentemente, a mídia fez o papel inverso e praticamente fez com que todos tivessem de engolir passeatas que contemplavam alguns setores”, completa.
Já a jornalista Marina Prado acredita que o comportamento da sociedade é influenciado a partir do posicionamento adotado pela mídia na divulgação dos acontecimentos: “os indivíduos têm uma percepção da realidade e tomam ações de acordo com interesses expostos nos veículos consumidos por eles”.

Quando citamos o processo de editorialização utilizado nas notícias, é engraçado reparar que mais da maioria das mídias que, em algum momento, já deixaram um posicionamento bem claro, seja ele político ou de qualquer outra natureza, ainda são classificados como isentos, mesmo após declararem opinião claramente.

É necessário nos atentarmos para o fato de que, ainda que sutil, a editorialização está presente em tudo que consumimos em matéria de pautas jornalísticas, então, qual providência poderíamos tomar para alcançar a neutralidade? Para Guilherme a resposta é simples: “para não se contaminar por um lado, é necessário um remédio amargo, que é dar o mesmo volume ao lado opositor. Digamos que você queira o impeachment da presidente estes dias – então ler algum grande jornal ou revista também favorável ao impeachment vai muito mais acariciar o seu ego do que desenvolver um senso crítico. Saber dosar e equilibrar os lados de cada discussão é tão importante quanto escolher as fontes dessa discussão”.

Já Marina acredita ser utopia a não influência da mídia no indivíduo, porém acredita que a internet seja um grande veículo para iniciar essa descontrução: “vejo os portais on-line alternativos e blogs como uma boa forma dos cidadãos construírem uma visão própria e mais crítica perante os acontecimentos da sociedade”.

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(Foto: Susane Sanches)

É possível, nesse processo de editorialização, mascarar da mídia manifestações, opiniões e anseios populares que não estejam de acordo com os interesses do veículo e, dessa forma, enfraquece-lo. Muitos veículos fazem isso. Podemos comparar as duas históricas manifestações de março de 2016 na Avenida Paulista, a primeira no dia 13, com 400 mil pessoas, pró impeachment; e a segunda no dia 18, com 100 pessoas contra o impeachment.

Duas grandes massas políticas, dois grandes debates. Porém só um deles ganhou as capas de jornais. Os canais de TV interromperam sua programação para noticiar apenas um deles. A intenção clara era enfraquecê-los – e em vista do grande público isso foi conseguido com êxito, o que é claramente condenável perante princípios jornalísticos.

A partir dessa ideia, a regulamentação da mídia surge como uma possível solução  para o fim de materiais tendenciosos, já que não somente um único grupo reuniria os maiores meios de comunicação e seria então possível difundir ideias complementares e contrárias, a fim de oferecer ao receptor diversos lados de uma mesma notícia para ele mesmo desenvolver um senso crítico. Com a ideia ainda em discussão, quando somos contra a regulamentação, entendemos que uma mídia livre de qualquer amarra é essencial para uma sociedade democrática. Quando somos a favor, temos de entender que os maiores formadores de opinião do país têm outros interesses além de dar uma notícia, e que apenas a regulamentação seria capaz de pôr um freio nos excessos cometidos por eles. Se houvesse regulamentação, a Veja teria muito de explicar sobre a quase invasão ao quarto do então Ministro José Dirceu para a implantação de uma escuta; ou a Istoé teria muito de explicar a matéria chamando a presidente de “louca” e “descontrolada”, sendo que ninguém deu uma afirmação sequer à matéria.

Talvez um modelo misto de regulamentação, tal como existe na Inglaterra, seja uma boa saída para nós. Lá, a sociedade participa, junto de políticos e membros da imprensa, da análise de certos desvios de conduta. O que não pode existir é a certeza da impunidade aos meios de comunicação – um jornal tem de noticiar, não se esconder atrás do véu da liberdade de imprensa para dizer qualquer coisa.

Para Marina, a regulamentação da mídia ainda é um tabu a ser discutido: “ grande parte da população se mostra contrária à mudança pois as oligarquias midiáticas tratam o tema como ato de censura, mas não podemos negar que a regulação aumentaria a democratização no setor, permitindo que cada um possa construir um senso crítico próprio e mais elaborado”, conclui.

Editado por Stephanie Franco

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