Uma família para chamar de minha

Por Fernando Corilow e Igor Calil

A psicopedagoga Rita Vieira já estava casada há onze anos com o marido, Luis Alberto, e ainda não havia conseguido engravidar, desejo que cultivava há alguns anos. Vários tratamentos e pesquisas foram feitos, mas nunca foi diagnosticado nenhum problema – nem com Rita, nem com Luis. O casal já havia conversado sobre a adoção, mas não tinha tomado uma decisão definitiva. Foi em 1994 que Rita recebeu uma ligação que mudaria sua história: uma escola especial em que ela já tinha trabalhado e que fazia trabalhos de prevenção de deficiências, na pequena cidade de Palmeira, no interior do Paraná, havia recebido um bebê de quatro meses, prematuro e que sofria de subnutrição. A mãe, que estava grávida novamente e não tinha condições de cuidar da pequena, decidiu entregar a filha para adoção.

A escola recebeu do promotor da cidade 48 horas para achar alguma família que acolhesse a menina – caso contrário, ela seria abrigada em outro município. Rita conversou com o marido, consultou uma amiga advogada e decidiu pela adoção. Ela foi à escola pegar a menina no aniversário de 33 anos, e então recebeu a guarda provisória de sua primeira filha, Ana Letícia.

Tudo foi muito novo e desafiante à família. Como a decisão foi repentina, Rita não havia preparado nada para a chegada de um bebê, mas ela e o marido conseguiram adaptar-se à nova realidade. Ana Letícia foi crescendo e, quando tinha perto de quatro anos, começou a pedir um irmão. Já familiarizados com o processo da adoção, o casal fez o cadastro para adotar o segundo filho. Ao final da entrevista com a psicóloga da Comarca, veio a pergunta de Luis Alberto: “Tem muita gente na fila pra adoção?” A resposta foi negativa. O motivo é que eles faziam parte do pequeno grupo que aceitava qualquer criança: de qualquer raça, de qualquer idade e com qualquer tipo de doença ou deficiência.

Dois meses depois, Rita recebeu mais uma das ligações que transformam vidas: ela poderia ir buscar sua filha, uma menina de três meses com Síndrome de Down. Rita conta como foi a conversa ao telefone: “A mulher nos dizia ao telefone: ‘Ela tem Síndrome de Down’. Eu respondia: ‘Está bem; eu posso ir buscá-la hoje?’ ‘Mas ela tem Síndrome de Down!’ ‘Você já me disse isso. Eu posso ir buscá-la hoje?’’. Sim, ela poderia. Rita, a filha e o marido, no mesmo dia, foram buscar a nova integrante da família: Ana Luiza.

Rita e o marido Luis Alberto com as duas filhas adotivas: Ana Letícia, à esquerda, e Ana Luiza, no centro
Rita e o marido Luis Alberto com as duas filhas adotivas: Ana Letícia, à esquerda, e Ana Luiza, no centro (Foto: arquivo pessoal)

Escolha

A “pequena fila” encontrada por Rita no processo de adoção de Ana Luiza evidencia uma das grandes dificuldades no cenário da adoção, que se manteve com o passar dos anos: as famílias costumam ser bastante seletivas na escolha dos possíveis filhos. E o Cadastro Nacional de Adoção (CNA) revela que muitas crianças a serem adotadas possuem algum problema de saúde: cerca de 22%. Das 5.623 crianças cadastradas, por exemplo, 679 possuem alguma deficiência física ou mental.

A preferência por raças específicas também é algo comum. Dos pouco mais de 33 mil pretendentes para adoção, 26% só aceitam crianças brancas. Já a soma da preferência pelas outras raças (parda, negra, amarela e indígena) contabilizadas pelo CNA não chega a 10%. Para a psicóloga da 2ª Vara da Infância e Juventude da Comarca de Natal/RN, Ana Andréa Maux, isso é, de fato, um entrave para a adoção no país.“Somos um país bem miscigenado, mas a gente fantasia que todo mundo é branco. Então, na hora que a pessoa deseja adotar, ela fantasia que é branca e deseja uma criança branca, mas, na realidade, a maioria de nós, brasileiros, somos pardos. Isso é uma questão cultural”, critica.

Idade

O trabalho de Rita como psicopedagoga e suas experiências com a adoção fez com que ela fosse convidada pela prefeitura de Castro, no Paraná, a montar um grupo de adoção em 2001, no qual ela e o marido são líderes até hoje. O Grupo de Apoio à Adoção Anjos do Amor promove encontros e cursos para esclarecimento de dúvidas sobre o processo adotivo e incentiva  o acolhimento de crianças e adolescentes por outras famílias – não apenas dos que possuem alguma deficiência.

Rita explica que parte do trabalho é incentivar a adoção de crianças mais velhas: “Falamos das qualidades, das características das crianças nas várias fases do desenvolvimento. Então muitos pais, que chegam com a ideia do bebê, mudam no meio ou no final do curso para uma criança com idade maior.”

À medida que a idade da criança aumenta, a chance de ser adotada diminui expressivamente. (Infográfico: Fernando Corilow e Igor Calil)

 

Os dados do CNA mostram que grande parte das crianças disponíveis à adoção estão na faixa dos 11 a 15 anos e a preferência dos pretendentes é, de fato, pelas crianças menores. Ana Andréa esclarece que parte desse problema acontece porque muitas vezes as crianças já chegam à Justiça com uma idade mais avançada, por conta de um longo processo na tentativa de manter a criança na família biológica. Para essas crianças, a dificuldade na adoção é grande, já que, de fato, “a maioria das pessoas ainda prefere crianças menores”, explica a psicóloga.

Grupos de apoio

A impossibilidade de serem pais biológicos era certa na vida do casal Márcia e Sílvio José Soligo. Membros da Associação dos Pais Adotivos (APA),em Campinas, eles souberam, em 1992, do nascimento de uma menina no sul do Brasil. Era Gabriela, que viria a ser a primeira filha de “coração” deles.

No dia 18 de dezembro daquele ano, às 16h30, nascia a catarinense que três dias depois se tornaria paulista. Ao saberem que a mãe não cuidaria da bebê e o pai era um viajante alemão, Marcia e Silvio foram até a cidade de Curitibanos, em Santa Catarina, buscar a pequena.

Amparados pelo grupo da  APA, iniciaram o processo de guarda definitiva de Gabriela. Não sabiam, entretanto, que encontrariam dificuldades. “Como a Gabi nasceu em outro estado e o processo correu todo por aqui, o juiz achou vários empecilhos, porque ele alegava que talvez não fosse uma adoção legal”, conta Márcia.

Para além do auxílio jurídico que alguns grupos podem oferecer, o apoio também se concentra na conscientização das famílias adotivas. Na prática, o que um grupo de apoio faz é quebrar os possíveis preconceitos de famílias que buscam um determinado perfil de criança. É encontrar um filho para os pais, e pais para um filho.

Os grupos também oferecem um acompanhamento pós-adoção, essencial no processo de adaptação da criança na nova família. Com a

Família Soligo em visita à Madrid, na Espanha. (arquivo pessoal)
Família Soligo em visita à Madrid, na Espanha. (Foto: arquivo pessoal)

Gabriela, por ter sido adotada muito nova, essa etapa não aconteceu. Márcia e Sílvio sempre foram seus pais. Inclusive, quando soube que não tinha nascido na família, ela não deu a menor importância. “Minha mãe disse que eu tinha nascido da barriga de outra moça, mas que eu ainda era filha dela, só que filha de coração e não filha da barriga. Ela disse que contou isso pra mim no elevador e que eu saí de lá como se nada tivesse acontecido”, conta Gabriela.

Cinco anos e meio depois da chegada de Gabriela, a família Soligo aumentou a pedido da menina. Como já sabia da forma em que o casal se tornou seus pais, ela disparou: “ai mãe, então pede que eu quero um irmão”. Depois de acompanhar todo o processo de documentação e seleção de fotos, Gabi conta que foi até o aeroporto de Cumbica, em Guarulhos, encontrar os pais e viu que “tinha um pacotinho nos braços deles”. Era Lucas.

Após realizar o sonho das famílias, os grupos não perdem o vínculo com aqueles que já se tornaram pais e mães. Agora, do outro lado da história, as pessoas que receberam as crianças de coração aberto ajudam, aconselham e se dispõem a encontrar mais pais e mães para as milhares de vidas brasileiras que esperam por um aconchego familiar.

“Amadurecimento”

Apesar dos desafios, o cenário da adoção no país vem passando por mudanças positivas. Ana Andréa relata que, nos últimos anos, há um amadurecimento de quem pretende adotar. Com relação ao tempo dos processos na justiça, a psicóloga esclarece que ainda há certos obstáculos, já que a resolução da situação de uma criança depende de várias etapas, que vão desde a tentativa de manutenção da criança na família biológica até a decisão pela adoção. “É um entrave que eu observo que ainda precisa melhorar”, explica.

Um dos trabalhos bastante desenvolvidos atualmente é o da adoção de grupos de irmãos, uma tentativa da justiça de mantê-los juntos em uma nova família. O grupo de Rita, por exemplo, também busca este incentivo com a família. Apesar dos dados do CNA mostrarem que quase 80% dos pretendentes querem adotar apenas uma criança (ver infográfico), Ana Andréa observa que as pessoas atualmente acolhem mais os grupos de irmãos, “o que é uma coisa bem positiva”, afirma a psicóloga.

Apesar de grande parte das crianças disponíveis para adoção terem irmãos, a grande preferência dos pretendentes é por apenas um filho (Infográfico: Igor Calil)
Apesar de grande parte das crianças disponíveis para adoção terem irmãos, a grande preferência dos pretendentes é por apenas um filho (Infográfico: Igor Calil)

Ela explica que, para uma criança, é fundamental estar inserida em uma família: “A criança precisa ter alguém que exerça a função que dá o limite, que dá a ordem, e também alguém que tenha uma função do carinho, do acolhimento, do cuidado.” Para Rita, que hoje vê as duas filhas como “bênçãos de Deus”, a adoção é, acima de tudo, uma troca: “Assim como existem muitos pais, mães, adultos, querendo filhos, existem muitos filhos nos abrigos querendo pais. Então é uma troca. É uma interação na base do amor.”

Editado por Karina Danielle

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