Revista feminina cria campanha para debater o aborto

Por Juliana Gimenes

Através de sua recente campanha #precisamosfalarsobreaborto, lançada em novembro, a revista feminina TPM vem recrutando artistas, jornalistas e até figuras políticas em prol da desconstrução de um tabu: o aborto.

Assim como a descriminalização da maconha e a criminalização da homofobia, assuntos amplamente discutidos durante as eleições, questões polêmicas continuam a ser abordadas por alguns movimentos. Em um cenário onde o aborto é a segunda maior causa de morte materna, a revista concluiu que é preciso falar sobre, e utilizou seu potencial midiático para criar seu manifesto.

Logo do manifesto criado pela Revista TPM (Crédito: Divulgação)

 

No Brasil, o aborto é considerado crime contra a vida pelo Código Penal Brasileiro, em vigor desde 1984, prevendo detenção de um a quatro anos, em caso de aborto com o consentimento da mulher, e de três a dez anos para quem o fizer sem consentimento. A prática só não é crime quando representa risco de vida à gestante e quando decorre de estupro.

O Ministério da Saúde e a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres da Presidência da República defendem que o aborto deve ser tratado como caso de saúde pública. O Conselho Federal de Medicina defende que toda mulher deve ter autonomia, até a 12ª semana, para decidir se quer ou não interromper a gestação. Apesar dos avanços na discussão, o cenário ainda é preocupante.

Como o tema ainda está subordinado à clandestinidade, os números relacionados à prática são especulativos. Estima-se que ocorrem entre 729 mil e 1,25 milhão de abortos ao ano no Brasil. Cerca de um terço das mulheres que passaram por procedimentos ilegais de aborto procuram assistência hospitalar no SUS devido a complicações decorrentes de falta de higiene ou abortos feitos de forma incorreta, segundo dados de pesquisa desenvolvida pela Universidade de Brasília em parceria com o Instituto de Bioética e financiada pelo Fundo Nacional de Saúde.

Para a psicóloga e especialista em saúde mental da mulher, Poliana Rossi, em um contexto que muitas mulheres se sentem desamparadas, a iniciativa da TPM só tem agregar. “Claro que toda vez que trazemos um assunto desses à tona muitas coisas ruins acompanham, como por exemplo o preconceito e a ignorância. Mas a o manifesto vem no sentido oposto, para informar e debater”, esclarece.

Já a feminista Suzara Machado não se sente tão otimista com a campanha. “Não sei se essa é a abordagem correta para o tema. O que vejo na luta cotidiana de todas nós, mulheres, é que dentro dos lares, das escolas, das universidades, isso ainda não amplamente é discutido. E temos que construir de baixo para cima. Da sociedade para a mídia, não o contrário”, explica. Apesar disso, se sente esperançosa em relação aos movimentos sociais. “Estamos construindo. Mais mulheres tem procurado as organizações feministas para debater o assunto e levando isso para suas famílias e amigos. Nós vamos chegar lá.”

(Crédito: Juliana Gimenes)
(Crédito: Juliana Gimenes)

 

Editado por Tiago Soares

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