Aposentada escreve poesias dentro do ônibus em Campinas

Histórias de quem vive do transporte coletivo são fontes de inspiração para quem escreve e já renderam um livro

Por Gisleine Monique

Quem a vê escrever em um pedaço de papel qualquer, num simples envelope e até mesmo em um resultado de exame pode pensar qualquer coisa, menos imaginar que aquilo trata de uma poesia que nasce num cenário pouco comum: o interior do ônibus.

Pelas ruas esburacadas, Graças exibe o exemplar que diz ser a cara do Brasil

É assim, que Graças Gomes, 63 anos, escreve suas poesias no trânsito de Campinas, entre rimas e frases curtas representando situações do cotidiano, o que ela chama de “gritos” por serem escritos na forma de protesto. “O Brasil e o mundo estão aos gritos, são gritos por socorro”, conta ela.

A idéia surgiu em 2003 quando Graças fazia o trajeto da linha 313 – via CDHU dos Amarais e, escutava a conversa de dois rapazes. Foi então que ouviu pela primeira vez a pronúncia da palavra ‘soberania’, o que fez com que ela anotasse em um papel e composse algumas rimas logo em seguida.

A partir de então, Graças tem escrito todos os dias, o que a torna conhecida entre cobradores e passageiros. Com o ônibus lotado ela é capaz de dar um jeitinho de não perder a inspiração que surge inesperadamente. Se for o caso, recorre até mesmo ao aparelho celular. “Na maioria das vezes uso a mesma estratégia, pego o ônibus vazio e costumo sentar no preferencial”, explicou ela

Assim, esse cenário que a poetisa chama de ‘teatro da vida’, rendeu em novembro do ano passado, mês que celebra o dia da consciência negra, o lançamento do seu primeiro livro, cujo nome não poderia ser diferente, “Gritos”. Publicado pela editora Illuminata, foram mais de cem gritos descritos em 150 páginas e vendidos a 20 reais.

Sonhos

Copeira aposentada, enfrenta desde 2005 problemas de artrose nas mãos e tem dificuldades para escrever, às vezes os rabiscos são tantos que até mesmo ela é incapaz de entender, se não fosse com a ajuda de uma lupa. “Escrevo na horizontal, vertical, só sei mesmo que o texto termina na vertical direita”, disse Graças.

A autora sonha com a publicação de um segundo livro, que gostaria de lançar dentro dos ônibus da cidade de Campinas, porém sem o apoio dos órgãos municipais e das empresas de transporte, não consegue a divulgação nem mesmo do primeiro.

Editado por Jéssica Kruck.

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