Família para a eternidade: os catálogos genealógicos mórmons

Por Mathias Sallit

Os membros da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, popularmente conhecidos como Mórmons, possuem uma crença diferente que visa valorizar as famílias de todos os seres humanos que pisaram na Terra desde sua criação: catalogar documentos que registram a passagem das pessoas no planeta.

Por meio da organização chamada Family Search, registros civis são recuperados, restaurados e armazenados pelos mórmons, que disponibilizam pesquisas genealógicas nos “Centros de História da Família” (CHF), geralmente localizados em templos da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. O Family Search também está disponível online e conta com incontáveis nomes registrados pela organização.

O objetivo principal de catalogar esses documentos é passar o legado dos ancestrais familiares aos sucessores, que darão sequência à genealogia. A crença aponta que as famílias estão unidas para sempre, seja pela vida que já passou ou a que está por vir.

“Eu trouxe um legado dos meus pais, dos meus avós, dos meus bisavós, tetravós, e vou deixar esse legado pros meus filhos, netos, bisnetos. A história da família não é só uma composição geográfica que a gente tem, mas é uma história composta com fotos, relatos e contos, e o Family Search dá a ferramenta para incluir todos esses pontos na genealogia. Assim, hoje eu tenho oportunidade de contar a história do meu pai para meus netos. Tudo é eternizado”, explica Gisele Rodrigues Vaz, secretária da presidência do Templo de Campinas. “Isso proporciona a todos que querem fazer a história da família, a genealogia, uma rede de conhecimento muito grande, para entender como funciona a história, para entender porque precisamos eternizar esses documentos”.

É preciso documentação para que o processo seja feito. Os documentos possibilitam a catalogação das pessoas para que realizem a pesquisa. Eles vêm de cartórios, cemitérios, arquivos públicos e até relatos escritos, como livros e periódicos. As escrituras, então, são digitalizadas, indexadas e cartões são feitos com todas as informações encontradas sobre a pessoa documentada.

Depois de indexados, os arquivos originais são enviados para as montanhas rochosas de Salt Lake City, sede da Igreja. Lá, existe um “Cofre de Registros”, especialmente preparado para receber o acervo, longe de qualquer risco de desastres naturais como terremotos, onde se encontram todas as imagens digitalizadas pelo processo (veja, em inglês, no vídeo abaixo). Enfim, são disponibilizados para a pesquisa familiar no site familysearch.org.

“É um processo demorado, tem que lidar com idiomas diferentes, escrita diferente, sem letra de forma. Os voluntários avaliam muito rigorosamente cada um dos documentos, que depois são colocados numa ficha. Se tem foto, ela é impressa pequena e nessa ficha colocam todas as informações recebidas no documento. Aí vai a parte da catalogação. Depois enviado para o Family Search, que disponibiliza no site” detalha Gisele, que faz questão de lembrar que todo o processo é realizado por “missionários da história da família”, voluntários da Igreja.

“Uma pessoa que se voluntaria recebe um lote num prazo de cerca de três meses para indexar e catalogar tudo. Ela consegue fazer cerca de 2, 3, 4 mil documentos num lote. Equipe completamente de voluntários, existem em Salt Lake City os especialistas, que vão lidar com os documentos. São pessoas mais especializadas para lidar com isso pra não correr riscos. O restante, indexação, catálogo, são todos voluntários.”

Para realizar a busca mais precisa da genealogia, é necessário ir a uma unidade do CHF. A pesquisa é feita a partir de uma data aproximada, um sobrenome e um país ou cidade, todas as informações referentes ao ancestral que se deseja encontrar. Os arquivos são armazenados em microfilmes. No Centro, são procurados os microfilmes correspondentes ao local e a data anunciados e então disponibilizados ao solicitante para usar uma máquina especial que gira o microfilme para procurar um documento relacionado ao antepassado.

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Aproximadamente 70% da documentação brasileira já foi indexada pelo Family Search, assim como boa parte da população de países europeus. Mas existem questões que impedem a realização do processo em alguns cartórios, como o judeu. Por motivos burocráticos, cartórios semitas não facilitam o acesso aos documentos neles registrados. Outra dificuldade encontrada pela Igreja é com povos que não possuíam o costume de documentar as pessoas, como os indígenas e até os escravos. A falta da papelada implica a catalogação. A melhor solução para esse problema é a própria história, contada, ouvida ou relatada em livros ou escrituras. A secretária esclarece que os relatos encontrados são digitados, registrados e disponibilizados da mesma maneira que os outros certificados.

Documentos recebidos em mau estado são mais uma complicação para a catalogação. Para resolver, é feita uma limpeza e restauração dos originais deteriorados, que são recuperados e seguem o processo de digitalização, indexação e catálogo.

Gisele afirma que esse programa de genealogia instiga a curiosidade e atrai as pessoas para a Igreja. “Muita gente vem pra cá por isso. Depois que conhece todo o processo e a dedicação, acabam até se batizando na igreja. Pois a preocupação com a família e com os que já partiram é muito grande na Igreja. Porque vai chegar um dia que os corações dos filhos serão convertidos aos pais e vice-versa. Esse tipo de conversão é isso, ter um vínculo mais profundo com os ancestrais, e trazer um vínculo mais profundo com os descendentes”.

Batismo póstumo

Os Templos da Igreja de Jesus Cristo dos Últimos Dias possuem um batistério com uma fonte batismal para realizar as ordenanças em favor dos antepassados falecidos. O acesso ao interior dos Templos é restrito a membros da Igreja que sigam os padrões exigidos. A fonte é sempre localizada sobre o dorso de uma dúzia de bois, que simbolizam as 12 tribos de Israel. Nela, parentes de mortos podem fazer uma procuração para batizar seus ancestrais. Na pia batismal, a pessoa é batizada em favor desse parente, a quem cabe, então, aceitar ou não esse batismo na esfera universal onde se encontra.

“Se eu recebi essa alegria de receber o evangelho na minha vida e quero que ele seja partilhado com meus antepassados que não tiveram essa oportunidade e não estão mais aqui, venho com os dados, com o cartão familiar com o nome da pessoa, aí fazemos o registro de batismo. O presente é o procurador do batizado. Aí cabe a ele, na esfera que está, decidir receber ou não”, disse Gisele.

Editado por Juliana Cavalcante

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