Apesar de serem maioria, falta representatividade para negros

Por Rafaela Galvão

10441024_765298156861528_3448884754215296477_n20 de novembro: data significativa para 54% da população brasileira. De acordo com dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), esse é o percentual de pessoas que se declaram negras no Brasil. E foi para fazer refletir sobre o passado de mais da metade dos brasileiros que o Dia da Consciência Negra foi criado, com intuito de valorizar e resgatar a resistência desse povo. A data homenageia Zumbi dos Palmares. O quilombola, sinônimo de luta e libertação para os afro-brasileiros, viveu no século XVII e morreu em 20 de novembro de 1695.

Apesar de serem maioria, os negros ainda não se sentem representados nos livros didáticos, na economia, na mídia e nem na sociedade. Para Eliete Aparecida de Godoy, pedagoga, doutora em Educação e professora da PUC-Campinas, “falta conhecimento e isso vem do percurso escolar, pois é reproduzido o mesmo discurso sobre o negro”. Esse é um dos motivos pelos quais parte das pessoas não se sensibiliza a respeito do Dia da Consciência Negra, desmerecendo sua importância histórica. Prova disso é que, das mais de 5 mil cidades brasileiras, apenas 1.047 decretam feriado na data.

Economia nas mãos de quem?

A jornalista Nadja Pereira enxergou a necessidade de dar voz ao mercado consumidor negro. Pensando nisso, Nadja criou a consultoria Zeroponto54 , responsável por planejar e desenvolver pesquisas voltadas a minorias. Embora, em números, não sejam tão menores assim. De acordo com as pesquisas realizadas por ela, o mercado cresceu e o motivo é que “somos negros em maioria no país hoje – algo que vem sendo largamente divulgado”. No entanto, a pesquisadora alerta para a falta de conexão desse mercado com seu público-alvo porque, apesar de haver números, “falta algo essencial no processo: o diálogo. É preciso aproximar as marcas à classe C”. Nadja explica que as grandes empresas ainda têm dificuldade em se portar diante deste grande mercado, que está se consolidando e que quer ser visto em comerciais, além de ter produtos aplicáveis à sua realidade.

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A professora Eliete Godoy acredita que negros precisam de representatividade (Foto: Rafaela Galvão)

Representatividade na educação

Para a professora Dra. Eliete de Godoy, a perspectiva da consciência negra constitui-se na escola, espaço social não desvinculado do contexto social. Por este motivo, a educadora acredita que a escola tende a ser excludente não só para negros, como para todos os que fogem ao padrão do que ela chama de “naturalização social” (reforço dos padrões sociais), no que diz respeito aos aspectos econômicos, raciais e físicos, como é o caso de pessoas portadoras de deficiência. “A escola nunca foi uma escola para todos e ainda tem muita dificuldade em lidar com o diferente”, completa ela. Assim, como parte do contexto social, essas dificuldades projetam-se na sociedade e perpetuam-se por gerações.

Um problema frequente na educação é a falta de reflexão sobre como as crianças estão na escola. Se há interação e respeito, por exemplo, dada sua importância na formação de cidadãos conscientes e aptos a viver em sociedade.

No entanto, nos últimos 20 anos, a criação de leis como a 10.639 e a 11.645, que sugerem a inclusão da cultura africana e afro-brasileira no conteúdo escolar, deram visibilidade às mudanças necessárias dentro da escola. “Não ver essas culturas, que são parte da nossa identidade nacional, faz com que elas sejam interpretadas com uma perspectiva negativa. Passa-se a mensagem de que a cultura deles (dos negros) é menor”, explica a professora Eliete.

Ela completa afirmando que o material didático não contempla os conteúdos da forma adequada. Apesar de estar prevista em lei a obrigatoriedade do professor de ensiná-los, a contextualização não é feita da forma ideal: “Se coloca o negro dentro do livro didático como se ele tivesse nascido escravo. São informações fragmentadas que, muitas vezes, não fazem mais sentido. Os estereótipos são reforçados.”, relata. A educadora acredita que este é um processo político, social e educacional que tende a acontecer lenta e gradualmente. Este é um passo importante para fazer com que os indivíduos sintam-se pertencentes à sociedade e sintam-se valorizados culturalmente.

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Patrícia não lembrava como era seu cabelo natural até pouco tempo atrás (Foto: Rafaela Galvão)

A maioria quer voz

Patrícia Carvalho é estudante da licenciatura em Letras e está incluída na parcela de negros que sente falta de “reconhecer-se” em escolas e universidades. Patrícia afirma nunca ter se sentido, de fato, representada na sala de aula pela falta de alunos e professores negros, principalmente na graduação universitária. Para ela, o motivo é a falta de oportunidade.

Assim como a professora Dra. Eliete de Godoy, a terceiro-anista de Letras também atenta para o fato de que a literatura africana e afro-brasileira, matriz da literatura brasileira, é pouco explorada, apesar de ser um outro mecanismo de desconstrução para levar ao entendimento, não só da importância do Dia da Consciência Negra, como também ir ao encontro da representatividade. A data envolve o processo de discussão e posicionamento da sociedade.

Patrícia optou por empoderar-se. Embora esteja afastada das atividades, a estudante participa do Núcleo de Consciência Negra Teresa de Benguela, criado em 2015. O Núcleo tem cerca de vinte integrantes e realiza reuniões mensais. “Foi uma descoberta fantástica. Ele apareceu em um momento em que estava repensando o meu papel de mulher negra”.

E o empoderamento também vem da autoaceitação física. A estudante lembra que, por muitos anos, não usou seu cabelo natural. A doutora em Educação, Eliete de Godoy, explica que “construímos nossa identidade na relação com o outro. Se você se relaciona com alguém que passa uma mensagem que a sua forma de ser é feia, ou não é tão bonito quanto, construímos aquilo que pode-se chamar de identidade negativa: não gostar de si mesmo”. É aí que surge a necessidade de ser diferente daquilo que se é para ser aceito. No entanto, isso vem mudando há algum tempo e Patrícia é exemplo disso. Ela relata que ainda recebe olhares quando usa turbantes, por exemplo, por ser diferente, mas é algo que não lhe incomoda mais.

Mobilização social e política e a militância

O contexto acadêmico está passando por uma transição. E, para que essa transição ocorra, o ativismo é fundamental. Eliete de Godoy, Doutora em Educação, acredita que “os ganhos só vêm por meio de mobilizações, que causam transformações lentas”.

O estudante de Filosofia Fabricio Moraes é um dos idealizadores do Núcleo de Consciência Negra Teresa de Benguela. Junto com outros jovens, ele percebeu a importância do debate sobre questões raciais dentro da universidade. Heloisa Rosa, também integrante do Núcleo, explica que a ideia de criá-lo veio com a necessidade de proteção.

Para a especialista Eliete de Godoy, “é a indignação que impulsiona a busca pela mudança. A partir disso as pessoas vão se mobilizar”. Exatamente o que esses jovens começaram a fazer.

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Arte: Rafaela Galvão

Editado por Mathias Sallit

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