Febre do ‘sereísmo’ é motivo de reflexão para sociólogos

Por Ana Paula Perez

Se você é usuário ativo das redes sociais, com certeza já se deparou com essa tendência em algum momento em que navegava pela internet. Seja no Facebook, Twitter, Instagram ou Snapchat, a onda do sereísmo já conquistou os jovens pelo mundo virtual. Celebridades como Britney Spears, Taylor Swift e até mesmo a brasileira Ivete Sangalo aderiram a este ‘estilo de vida’. Com um nome auto explicativo, dando forma às referências visuais das sereias da Disney, que são conhecidas há muito tempo pela beleza abundante, o sereísmo ganhou espaço tanto nas passarelas, quanto no campo de estudos científicos, sendo motivo de crítica para  sociólogos, por afirmar a ideia de que isso seja apenas mais uma aversão aos valores da figura feminina na mídia e em produtos do século XXI.

 

Doce de casamento em formato de concha. (Créditos: Ana Paula Perez)
Doce de casamento em formato de concha. (Créditos: Ana Paula Perez)

Para a socióloga Evelyn Salles dos Santos, a moda aparentemente inofensiva de se parecer com uma princesa é mais preocupante do que se imagina. Para ela, o machismo é tão reforçado diariamente em nossa sociedade, que as pessoas se tornaram incapazes de enxergar  como “pequenas modas” podem ser perigosas.

“O sereísmo reforça a ideia de que a mulher nasceu para ser uma princesa,  a figura feminina que está sempre em busca de um príncipe encantado, aquela que está  dentro do padrão de beleza imposto pela sociedade, e isso é errado. Sereias são mulheres-peixe que seduzem homens com sua beleza, é sempre a beleza, nunca os conquista pela sua inteligência, seu intelecto ou pelo seu espírito aventureiro.” — Completa Evelyn.

Não se sabe ao certo a origem do mito das sereias, isso porque as lendas sobre seres aquáticos existem em diversas culturas, entretanto a que mais inspira os contos atuais é a sereia européia “Iara”. Sua história gira em torno da dificuldade que tem em lidar com questões sociais como sexo e a imagem distorcida da mulher. Fazendo um paralelo com a sociedade contemporânea e o discurso de “quanto mais bela e exótica, mais tentadora e maior a fonte do pecado”, trazido da idade média.

A socióloga cita a psicanálise para expandir seu argumento, enfatizando a ideia de Freud quando dedicou-se a temas como o fetichismo e como ele se relaciona bem com esses mitos. Evelyn diz que o problema não está onde se vê, mas sim onde nunca conseguimos enxergar: Na cauda da sereia, reforçando até a ideia de castração sexual feminina.

As conchas e estrelas do mar estão cada dia mais fazendo parte do look das meninas, na maioria das vezes adolescentes.  Para a estudante de sociologia Márcia Gonzaga, o acessório comumente associado às sereias é o espelho, símbolo do amor próprio e auto admiração. Para ela, quando pensamos em mar, automaticamente imaginamos um lugar carregado por emoção, por forças da natureza e pelo ciclo de transformações.

“Eu acho uma tendência saudável, afirma a ideia de amor próprio num mundo onde apenas quatro em cada 100 mulheres se acham bonitas.”

 

Direto do Oceano 

Déborah Galeriani, adepta ao sereísmo conta que ao ver algum acessório do fundo do mar é capaz de desencadear lembranças nostálgicas de infância, como seus sonhos de criança e suas viagens em família. “Sonhar é preciso, a vida se torna sem graça quando não sonhamos” — Completa Déborah.

Aumento de pesquisas relacionadas ao sereísmo em 2016. Fonte: Google Trends (Créditos: Ana Paula Perez)
Aumento de pesquisas no Google relacionadas ao sereísmo em 2016. Fonte: Google Trends (Créditos: Ana Paula Perez)

Economia

A tendência do sereísmo também chegou com tudo mundo empresarial, levando pequenos empreendedores a criarem acessórios que remetem a tudo que venha do fundo do mar: Caudas, brincos, pulseiras e colares com pingentes de conchas, com um valor que varia entre R$ 300 à 1.000.

Franciely dos Santos, proprietária da loja virtual ‘Alma Leve’, diz que a procura por acessórios similares aos das sereias aumentou bastante no último ano. Segundo ela, o interesse parte de meninas mais novas, entre 13 e 17 anos.

 “Já cheguei a ter 200 curtidas em uma foto no tema, o pessoal ama, mas quando eu falo o preço as pessoas desanimam. As meninas me procuram querendo informações de coroas, colares e etc, muitas querem fazer encomendas e acham que isso é simples. O material é caro, assim como a mão de obra.”

 

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