Educação: Docentes mostram as consequências da educação superior tratada como mercadoria

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Por Ana Paula Perez

No Brasil, o processo crescente de um setor empresarial constituído no âmbito da educação se tornou algo emergente para o campo de estudos de pesquisadores da área. Para o docente pesquisador Dr. Adolfo Ignácio Calderón, a maior preocupação se encontra na decadência que a qualidade da educação superior vem sofrendo nos últimos anos.

O docente explica que na educação superior, 63,3% das matrículas estão dentro das instituições privadas, sendo 36,7% no setor público. Para ele, é importante considerar que o setor privado é um setor heterogêneo, ou seja, um setor que consiste em instituições com os mais diversos perfis e que ainda é rodeado pelo preconceito. Ainda que os números nos mostrem instituições privadas de excelente qualidade, como as Pontifícias Universidades Católicas ou a Fundação Getúlio Vargas, as pessoas estão propícias a imaginar um ensino superior de má qualidade.

“A educação de qualidade é um serviço que tem um custo, ou seja, há sempre alguém que financia a educação, nesse caso, me parece que o problema não é a educação ser tratada como mercadoria, a questão maior diz respeito a qualidade dos serviços educativos. ”

Evolução da distribuição das instituições públicas e privadas no Brasil – 1995-2006. Fonte MEC (Créditos Ana Paula Perez)
Evolução da distribuição das instituições públicas e privadas no Brasil – 1995-2006. Fonte MEC (Créditos Ana Paula Perez)

O surgimento das universidades em questão não é algo recente, mas apenas com a publicação inserida na constituição de 1988 é que se explicitou a viabilidade da existência dessas instituições com fins lucrativos. Segundo Adolfo, no Brasil, existem inúmeras instituições de fins lucrativos vinculadas com grandes empresas de grupos econômicos. O problema em questão consiste em como esses grupos trabalham dentro da legalidade de um estado frágil quando o assunto é processo de monitoramento de qualidade.

A pesquisadora Matilde Fantinatti explica que o crescente número de instituições oferecendo vagas presenciais ou a distância é capaz de resultar em outras atividades comerciais. No ensino básico, por exemplo, cresceu a venda de materiais pedagógicos e “pacotes educacionais”, incluindo até o aluguel de determinadas franquias educacionais. Por isso a importância de um campo de pesquisa voltado a este fenômeno.

Matilde diz que nós estamos vivendo em uma era onde a educação é tratada como Fast-Food, onde escolhemos nossas universidades através de Rankings acadêmicos de procedência duvidosa sem ao menos saber as metodologias usadas para apurar a qualidade de ensino das mesmas.

“Creio que o que está em jogo por trás dessas reformas na educação é a chamada performatividade, e com isso, como a educação vem sido moldada dentro desse pilar. Até mesmo os governos estão prestando mais atenção na crescente performatividade e no desempenho dessas instituições. Deste modo, temos de um lado a pressão governamental e de outro, a pressão do mercado para melhorar a performatividade.”

Crítica Social

Para a socióloga Evelyn Salles dos Santos, o problema está no impacto do neoliberalismo dentro da mídia nos dias atuais. Ela critica a intensidade que esse impacto vem mudando o sentido do que é educação, aprender e ensinar. “Tudo isso vem sendo alterado neste processo. A educação se tornou muito mais uma mercadoria do que um direito social: Produzida e gerenciada de acordo com índices relacionados às vantagens de determinados grupos sociais. ”

Aluna da Pontifícia Universidade Católica de Campinas em seu momento de estudos (Crédito: Ana Paula Perez)
Aluna da Pontifícia Universidade Católica de Campinas no Campus 1 da Universidade (Crédito: Ana Paula Perez)

Em nosso país não existem muitas universidades com recursos para se manter como uma instituição de ensino: “os anos passam e o Estado Brasileiro não faz absolutamente nada. Diante dessa fragilidade do estado, o ensino superior acaba se tornando numa verdadeira ‘terra de ninguém’ e isso nos apresenta como um grande desafio à sociedade de exercer mecanismos de controle de pressão social. ” É o que enfatiza o pesquisador Adolfo Calderón.

 

Editado por: Isabela Ariolli

1 comentário

  1. Por ter se tornado mais uma mercadoria do que um direito social, como ressaltou a psicóloga Evelyn Salles dos Santos, temos uma decadência na qualidade do ensino oferecido na maioria das instituições públicas e privadas devido esse tipo de tratamento que a educação tem recebido no país. Isso sem considerar as inúmeras paralisações por diversos motivos, que acarretam prejuízos na agenda universitária atrapalhando até mesmo o rendimento dos alunos. São inúmeros os resultados negativos devido à má administração da educação do nosso país.

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