Por trás da mídia: jogadores de futebol ganham menos que garçons

Por Karina Rocha

A CBF – Confederação Brasileira de Futebol, divulgou pela primeira vez, no início deste ano, o Raio-X do futebol, um levantamento que ajudou a entender as atividades do setor e a realidade do futebol brasileiro. Os dados dessa pesquisa foram divididos em três partes: registros, transferências e salários. Para quem acredita que todos os jogadores ganham como Gabriel Jesus, do Palmeiras, Diego Ribas, do Flamengo ou Robinho, do Atlético Mineiro, se engana, 82,4% dos jogadores ganham salários de 1.000 reais mensais.

Referente ao ano de 2015, a pesquisa aponta, como mostra a matéria do Digitais sobre a realidade do esporte no Brasil, que dos 28.203 atletas profissionais registrados no Brasil, 82,4 %, ou seja, 23.238 atletas recebem salários de até 1.000 mensais, ou seja, menos que garçons, zeladores e assistentes de almoxarifado, como mostra a tabela salarial 2016.  Além desses, apenas 13,7% ganham salários de 1.001 até 5.000 reais e 1,4% de 5.001 até 10.000 reais.

Brasil: o país do futebol 

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Alexandre Silva já jogou em times nacionais como Paulista, Atlético Paranaese, Figueirense e Avaí e time internacionais, como Yverdon, na Suica e Blooming, na Bolívia. (Créditos: Alexandre Silva)

Se a realidade mostra que 96,1% dos atletas ganham salários entre 1.000 e 5.000 reais, porque vemos o futebol como uma profissão muito bem paga? Segundo o ex-atleta e técnico do sub-17 do Grêmio Osasco Audax, Alexandre da Silva, essa é uma questão cultural. “Os olhos dos torcedores e da mídia estão voltados para os times de elite e não para os times menores.” Além disso, ele conta que o futebol no Brasil depende muito de investimento, direcionado principalmente para os grandes times. “A falta de investimento acarreta na contratação de jogadores inferiores, já que o clube não tem condições de bancar altos salários. Consequentemente, ele também não tem condições de alcançar altos campeonatos e receber mais investimentos”, conta o técnico.

Atualmente, os principais campeonatos nacionais são as séries A e B do Campeonato Brasileiro de Futebol. Da série A, participam apenas 20 times, dentre eles, os com maior fama e faturamento, como Corinthians, São Paulo, Palmeiras e Santos. Somando o número de times dessas séries, temos 40 equipes, dentre os 776 clubes profissionais registrados pela CBF, que possuem calendários diferentes. Muitos desses clubes, chegam a jogar cerca de três meses durante ano e depois disso, lutam para manter o sonho, buscando novos contratos e até trabalhos temporários.

O caminho para o sucesso é estreito

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Com as dificuldades , Juninho se divide entre a bola e os estudos para alcançar uma oportunidade no futebol. (Créditos: Karina Rocha)

Alexandre de Oliveira Junior, mais conhecido como Juninho, tem vivido esse cenário de perto. O jogador de futebol, de 20 anos é filho de Alexandre Silva e tem o sonho  de seguir os mesmos passos do pai, mas a difícil realidade tem levado o jovem a traçar novos planos. Ele está estudando para entrar em uma faculdade no exterior, onde poderá jogar e também alcançar uma formação profissional.“Estou estudando para garantir o meu futuro, mas não deixei meu sonho para trás. Eu sei que é difícil, mas acredito que uma porta pode se abrir.”

Além da dificuldade em encontrar clubes para jogar, os baixos salários dos times pequenos também se torna um obstáculo.  Para Juninho, se você não consegue se sustentar jogando em clubes menores, é necessário escolher entre viver no pouco, jogando bola, ou largar tudo para trabalhar em outra área. Mas essa não é uma escolha simples, pois entre decidir continuar ou mudar os planos, existe o desejo de se realizar um sonho.

Em busca do sonho

Mesmo com os obstáculos, para o técnico Alexandre Silva, fica mais difícil abrir mão de um sonho quando ele existe desde a infância. “Isso é o que faz com que um jogador aceite baixos salários e as dificuldades da profissão.” Essa é a razão para Juninho nunca ter desistido do futebol. “Eu sei que eu tenho o sonho de jogar, assim como milhares de outros moleques. Mas porque não conseguimos? Porque não tem oportunidade para todo mundo! Nós temos que entender que a vida é assim. O sol nasce para todos, uns conseguem, outros não, é normal da vida, não é só no futebol”.

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O goleiro, de apenas 19 anos, já treina com o time titular do Palmeira e defende a equipe pelo sub-20. (Créditos: Daniel Fuzato)

Um exemplo disso é o jogador Daniel Fuzato, de 19 anos, atual goleiro do sub-20 do Palmeiras. O jovem entrou no clube com 12 anos e desde então, tem traçado uma carreira de sucesso. O caminho não foi fácil. Ele conta que no começo, tinha que viajar três vezes por semana para São Paulo. “Eu saia da escola, minha mãe trazia uma marmita para comer no caminho e eu ia direto de Santa Bárbara D’Oeste para Americana, onde encontrava com alguns garotos para viajarmos para São Paulo! Saímos às 13h da tarde e chegávamos às 20h da noite. “Essa rotina durou aproximadamente um ano, quando o jovem passou por um novo desafio. ” Com 13 anos eu já morava sozinho em São Paulo, sem os meus pais. Esse foi um período de muito aprendizado, no qual tive que enfrentar muita coisa sozinho”, conta o goleiro.

Apesar de jogar no sub-20 e  já treinar com o time titular do Palmeiras, o goleiro afirma. “Temos que superar muitas coisas diariamente, como as saudades de casa, encarar a realidade da vida muito cedo e aprender a se virar sem os pais. São muitas responsabilidades e a maior delas é de carregar um sonho, que pertence à nos, mas também a nossa família, que acaba se apegando a isso e sonhando junto com você.”

Os olhos da mídia

Atualmente, o futebol brasileiro é representando por jogadores com contratos milionários, que estão atuando nos principais times nacionais e internacionais. Para Juninho, um dos grandes motivos para isso acontecer é a mídia brasileira. “A TV não mostra um jogo do Madureira, do Rio de Janeiro! Ela vai transmitir um jogo da série A, do Barcelona ou do Real Madrid. O que a gente está acostumado a ver na TV é 1% do futebol, os outros 99% nós não conhecemos. Quando só temos um exemplo do que é futebol, a gente acha que é só aquilo, mas não é”.

Para o goleiro, o futebol brasileiro apresenta uma triste realidade.  “São poucos os privilegiados que ganham um salário mensal que dá para manter a família. Quem não vive do futebol acha que é tudo muito fácil, mas é um meio difícil. Eu acho que as pessoas tiram essas conclusões porque a mídia mostra só do bom e do melhor, então elas acham que todos no futebol são milionários e que não passam por dificuldades.”

Apesar disto, o técnico do Audax acredita que a CBF tem buscado uma forma de atender a estes pequenos clubes. “Ela não quer deixar de lucrar, mas apesar disso, tem tentado da forma dela, arrumar um calendário para deixar os clubes e os atletas em atividade. Entretanto, o país é muito grande e os custos são altos.” Para ele, uma das possíveis soluções é a diminuição dos times, nos campeonatos estaduais, além de dar mais oportunidade aos menores, trazendo um calendário mais adequado, para que eles possam receber o ano todo, ainda que um valor baixo. “Pelo menos você os mantém trabalhando.”

 

Editado por Ana Guimarães e Vanessa Plácido.

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