Aliás: a trajetória de um dos cadernos do jornal O Estado de S. Paulo

Por Mariana Fernandes

Digitais conversou com Laura Greenhalgh e Mônica Manir, editoras que já atuaram no dominical e, Ubiratan Brasil, o atual editor, para conhecer a história do caderno de um dos maiores jornais do país, que há 12 anos sobrevive, mas, atualmente sofre as consequências de uma crise que ultrapassa as fronteiras do jornalismo.

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Capa da edição de 16/10/16
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Laura Greenhalgh – Primeira Editora do Aliás – Crédito: Arq. Futuro

Digitais: Como aconteceu a sua ida para o caderno Aliás?

Laura Greenhalgh: Na verdade, eu já estava no Estadão. E em 2004, acabei criando o Aliás.

Digitais: A proposta veio da empresa ou dos funcionários? Qual o objetivo da criação do caderno?

Laura Greenhalgh: Em 2003, eu fiz um projeto de uma revista semanal pro Estadão, uma revista dominical chamada Urbana. Por uma questão de programação financeira da empresa, eles decidiram, naquele momento, não fazer o investimento necessário para lançar uma revista dominical. E então nós guardamos o projeto da Urbana. Nesse momento, o diretor de redação, Sandro Vaia, me chamou e me falou “Laura, você não quer pensar em um projeto que seja de custo menor, mas que a gente possa fazer alguma coisa interessante nas edições de fim de semana?”. Não seria a revista, seria um suplemento de week in review, com a extensão dos melhores momentos da semana, um condensado. O The New York Times teve o week in review, e o Washington Post também. É uma fórmula americana de se fazer um condensado. Naquele tempo, estava entrando no Estadão um jornalista chamado Flávio Pinheiro, ele foi meu editor-chefe, e eu deveria desenvolver o projeto desse week in review com o Flávio. Então, começamos a pensar no Aliás, e eu conservei dois jornalistas que estavam fazendo o projeto da revista comigo: a Mônica Manir, com quem eu tinha trabalhado na revista Crescer, da Globo, e que tinha uma certa experiência em jornalismo na área de serviço, e também um jornalista chamado Fred Melo Paiva, que eu sabia que se daria muito bem na área de reportagem.

Digitais: Que concepção você tinha para um caderno daquela natureza?

Laura Greenhalgh: O que que nós gostaríamos de fazer no Aliás, Flávio e eu, era não só trazer as principais notícias da semana resumidas, mas uma reflexão sobre os melhores temas jornalísticos da semana. A gente queria dar um passo a diante, não ficar resumindo o que havia passado, queríamos olhar para frente com reflexões. E com isso, gera-se uma massa de informação mais elaborada, mais pesada, um material mais analítico e reflexivo. O que a gente tinha sempre como premissa é que queríamos contar uma história bem contada, escapar do jornalismo noticioso, relatorial, meramente factual, e um pouco, ir além.

Digitais: Qual a origem do nome Aliás?

Laura Greenhalgh: O Aliás foi uma maneira de mostrarmos para o leitorado que havia sempre uma outra visão, um outro ângulo, um outro aporte para fazer uma determinada discussão sobre um determinado tema. Que dá para agregar. Era muito uma ideia de agregar, como a gente usa a palavra aliás. O Aliás vai trazer um pouco mais de um determinado tema, de um determinado personagem.

Digitais: Como você descreveria a receita editorial do caderno?

Laura Greenhalgh: Uma coisa que sempre tínhamos no caderno: entrevista. Tinham também os artigos analíticos e a última página, que era a feature, um brinde de final de caderno, que era sempre uma boa história para se contar, de um ângulo inesperado. Às vezes, ela tende um pouco para o lado da crônica, outras vezes é uma reportagem que pende mais para o lado do Novo Jornalismo Americano, da Lillian Ross, do Gay Talese. E, de propósito, a gente não definiu uma forma fixa para a última página, exatamente para que tivéssemos uma diversidade de formatos. A revista Realidade e o Jornal da Tarde foram veículos de reportagens muito bons no Brasil, que inovaram muito em termos de reportagem e de linguagem. Então, na verdade, a gente queria pegar todas essas influências da reportagem e deixar muito livre a última página do Aliás.

Digitais: Como eram decididas as pautas?

Laura Greenhalgh: Nós não tínhamos gaveta, isso é uma coisa inacreditável, pelo menos até a época em que eu fiquei no Aliás, não existia gaveta. E a gente tinha com isso a imensa responsabilidade de gerar um material da melhor qualidade no espaço de uma semana. Na segunda-feira a gente tinha uma reunião de pauta, o dia inteiro, em que nós íamos com zero ideias na cabeça, zero. Aí a gente começava a conversar: “O que você leu no fim de semana, para onde você acha que a semana aponta?”. Aí, dessa reunião, às vezes, saíamos com duas ideias, as coisas não estavam claras para nós. Aí voltávamos na terça-feira, fazíamos uma reunião de pauta, e o caderno era, digamos assim, 70% pautado. Na quarta-feira, a gente ainda estava fechando a pauta do Aliás, os últimos artigos. Na quinta era trabalho intensivo, e na sexta também, porque era o fechamento do caderno. Eu acho que esse método é quase uma ode ao jornalismo de qualidade, ao jornalismo vital, porque a gente não tinha nada, a gente começava a semana assim, com zero de pautas. A gente queria fazer o Aliás com o tônus da semana, com a pulsação da semana, então, às vezes, tínhamos que sair correndo para viajar, era muito pouco tempo. Eu acho que essa foi a melhor fase do Aliás, quando nos deixaram produzir dessa maneira.

Digitais: Qual era o público do Aliás?

Laura Greenhalgh: Bom, nós criamos esse público, porque o Estadão em 2004 era ainda um jornal muito conservador na sua forma, não estou nem falando de seu posicionamento político. Quando nós saímos com o Aliás, nosso público era o público do Estadão. Era um público com mais afinidade com um jornal conservador, então, o Aliás saiu de um público nenhum, ou seja, de repente, um público de um jornal conservador tem lá um suplemento super moderno, superousado, e que rompia certas formulazinhas editoriais. As entrevistas do Estadão eram muito chatas até aquele momento, em todas as editorias e, eu acho que foi um pouco a nossa capacidade de conversar, de ir a fundo nos assuntos, que o Aliás acabou “criando” uma escola de entrevistas lá no Estadão, com efeito em todas as editorias. Os repórteres antes do Aliás entrevistavam as pessoas de uma maneira burocrática, cerimoniosa, e a gente acabou forçando um pouco essa entrevista mais descontraída. Então eu acho que acabamos formando o nosso público. Era um público muito expressivo. Eu me lembro que houve anos seguidos em que a fundação Getúlio Vargas usava os nossos textos para o seu vestibular, nós fomos reproduzidos em muitos veículos, inclusive, fora do país. Tivemos uma repercussão muito boa. Então, criamos esse público e trouxemos um público novo para o Estadão. Houve pesquisas qualitativas lá dentro do Estadão em que já se falava que o Aliás era um fator de renovação do leitorado. Demos um trabalho para a concorrência. Isso era muito recorrente e eu acho até que a gente puxou, naquele momento, um pouco de leitor da Folha, porque a Folha tinha o caderno Mais naquele momento e eles decidiram fechar o Mais e fazer a Ilustríssima, que no começo veio com a intenção de realmente fazer frente ao Aliás e, não deu certo. A Ilustríssima acabou ficando muitos anos sem um perfil, porque ela não era nem o Mais e nem o Aliás.

Digitais: Apesar de bem feito, com bons articulistas, raramente havia propaganda no caderno. A que você atribui este fenômeno?

Laura Greenhalgh: Olha, nós trabalhávamos com uma cota fixa de papel, então, o papel que era destinado para o Aliás era calculado no início do ano, em janeiro. Chegava no fim do ano, ainda fazíamos uma economia de papel porque deixávamos de circular ou no Natal ou no Réveillon. Era um caderno de uma produção muito barata. A relação custo-benefício do Aliás era absurdamente positiva. Bom, eu acho que no começo, as equipes comerciais do Estadão, que eram equipes muito também ligadas ao modelo do jornal, mais tradicional, não sabiam nem vender anúncio do Aliás. Eu várias vezes expliquei o que era o Aliás para a diretoria de publicidade lá no Estadão. Uma vez eu ouvi assim: “Já imaginou a gente ter um anúncio de banco e, de repente, eles tão falando mal do sistema bancário?”. Então, eu acho que eles não sabiam vender o Aliás bem, e pra nós era muito cômoda essa situação, porque tínhamos oito páginas limpas. Era maravilhoso, a gente não reclamava em nada, o leitor não reclamava em nada a falta de anúncios. O Aliás se manteve porque a relação custo-benefício não havia melhor no jornal, isso eu posso garantir. Era um caderno que fazia muito, com muito pouco.

Digitais: O Aliás surgiu com oito páginas, atingiu 12 em algumas oportunidades, mas reduziu-se a quatro páginas nos dias atuais. A que se devem estas mudanças?

Laura Greenhalgh: Eu não acho que o encolhimento do Aliás, hoje, se deva somente a questão financeira. Venceu uma visão conservadora. Porque tudo o que essa equipe passou nos últimos anos, era um controle que me lembrava uma censura prévia da pauta do caderno. E aí, houve uma tendência que eu acho que não é só do Estadão, mas geral, de encolhimento dos suplementos. Agora, de fato, existe uma crise. A internet chega pra colocar uma crise muito grande nessa parte comercial. Então eu acho que começou com uma coisa de “esse caderno é um pouco fora da nossa curva aqui do Estadão, então vamos baixar a bola do caderno”. E depois, de fato, se instalou uma conjuntura adversa. Mas, eu te digo, a ver o Aliás que é feito hoje, é preferível fechar. Porque não é legal, as pessoas que o fazem não estão satisfeitas, o leitor que o lê também não está muito. Mas aí são decisões de ordem empresarial que eu não tenho nem condição de opinar, porque eu não tenho essa informação.

Digitais: Você acha que um caderno com esta concepção enfrenta algum tipo de resistência?

Laura Greenhalgh: Quando o Aliás chega, causa um estranhamento até dentro do Estadão. Nunca tivemos uma vida muito fácil lá no Estadão, porque a gente ousou romper alguns padrões de linguagem, algumas maneiras de abordar os temas, fazíamos questão de manter um certo pluralismo, e isso no Estadão era muito complicado, porque eles tinham uma série de restrições a pessoas: “Ah, vocês vão ouvir alguém? É amigo da casa?” Então, eu sempre quis reagir a isso, eu não queria saber se era amigo ou inimigo da casa, eu queria saber se era uma pessoa que tinha efetivamente uma coisa pra dizer. Eu fiquei tomando conta desse caderno muito de perto, até 2013. Mesmo em 2013, em que eu já tinha promovido a Mônica a editora do Aliás, eu sempre fiquei muito em cima do caderno, sempre me envolvi muito com ele, com a produção, com a escolha dos temas, dos nomes, porque eu sabia, eu sempre tive que enfrentar muita resistência interna no Estadão, por conta dessa nossa vontade de fazer um caderno plural e não um caderno com aquelas figurinhas, com aquelas cartas marcadas de sempre. Às vezes, era difícil a gente manter. Eu consegui até o momento que eu estive lá, tentei defender a nossa receita editorial, uma receita que foi sendo aprimorada ao longo do tempo.

Digitais: Como se deu a sua saída do caderno?

Laura Greenhalgh: Sempre houve uma incompreensão do que o Aliás representou para o Estado, do que o Aliás representou na imprensa brasileira e o que eu acho é que eles esperaram que eu saísse do Aliás, eles tiraram o Aliás da minha supervisão, porque eu sempre o defendi com muita garra. Eu sou assim, eu acho que o bom jornalismo a gente tem que defender com muita vontade, e eles me tiraram de lá para ser repórter especial, aquelas mudanças que a gente sempre fica com a pulga atrás da orelha, e, a partir daí, o que eu vi foi uma equipe cada vez mais constrangida pela direção do Estadão, então: “esse tema pode falar, esse tema não pode falar, esse tema a casa não gosta”, voltou aquela coisa: a casa. E é terrível porque os jornalistas acabam ficando muito mais conservadores do que de fato é a linha editorial do jornal, é uma reação não é inteligente.

Digitais: Qual você considera que seja o papel de um editor?

Laura Greenhalgh: Na verdade, o que se espera é que um diretor de redação, uma diretora chefe de um jornal, é que ela brigue, que essas pessoas briguem pela expansão das fronteiras do jornalismo e não pelo encolhimento delas.

Digitais: Que futuro você avalia para a publicação?

Laura Greenhalgh: Eu acho que hoje o Aliás, infelizmente, é uma sombra, uma pálida sombra do que ele já foi. Nós fomos um caderno que bateu nas portas de gente muito importante para conversar, a gente não tinha dinheiro para viajar, mas a gente tinha telefone, a gente tinha e-mail, então nunca foi problema. Fomos um caderno que falou com os grandes pensadores, gente do mundo do cinema, escritores. Eu acho que só não fecham o caderno porque vai ter que ser passado um recibo público do que foi feito com um caderno que era lido por todo mundo, era um caderno que renovou muito, que oxigenou a imprensa no país. Então, ainda não fecharam o caderno, mas vão fechar, em algum momento ele vai desaparecer, e esse momento eu acho que é breve.

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Mônica Manir – Segunda editora do Aliás – Crédito: Galeria Estadão

Digitais: Qual foi o período em que você atuou como editora do Aliás?

Mônica Manir: Eu participo do Aliás desde a sua concepção, junto com a Laura Greenhalgh, o Flávio Pinheiro e o Fred Melo Paiva. Mas, como editora, eu atuei de 2009 até março deste ano. Hoje, ainda estou no Estadão, agora, como repórter especial.

Digitais: Como você descreveria o Aliás nesse período?

Mônica Manir: O Aliás poderia ser descrito como um espaço de reflexão do jornal, que possui análises mais aprofundadas sobre os principais assuntos da semana. O caderno traz textos mais extensos, que ficam intensamente em contato com a subjetividade do leitor.

 Digitais: Quais eram as pautas buscadas para o caderno naquele período?

Mônica Manir: O caderno buscava as matérias mais importantes que saíram durante a semana, e, às vezes, outras versões de matérias que não receberam destaque. As imagens da semana também eram muito valorizadas. As fotografias eram sempre publicadas, na seção “Imagem da Semana” e, ultimamente, as capas passaram a ter grandes ilustrações.

Digitais: Você considera que o público do Aliás se manteve o mesmo do período inicial?

Mônica Manir: Sim, considero que o público seja o mesmo.

Digitais: A que pode ser atribuída a falta de anúncios no caderno?

Mônica Manir: A Kalunga anunciou no Aliás por alguns anos. Mas depois, parou. Nós não achávamos interessante que fosse misturado um espaço do jornal destinado à reflexão junto com anúncios.

Digitais: Qual você considera que seja o papel do editor de um caderno como o Aliás?

Mônica Manir: O editor de um caderno como o Aliás precisa estar sintonizado com diferentes formas de pensar fatos da semana. E, como o caderno é semanal, tem de sentir se a reflexão resiste até o fim da semana. Se no meio da semana outro fato ganhar destaque, tem que virar a capa, por exemplo, ou incluir o fato quente num artigo ou imagem. Isso segundo a proposta inicial do caderno, que era a de não se desgrudar da semana. Como todo editor, tem de selecionar boas fontes e bons textos e, no material feito pelos repórteres da casa, colaborar com a pauta, a apuração e o fechamento.

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BLOG
Ubiratan Brasil – Editor atual do Aliás – Crédito: Felipe Rau/AE

Digitais: Desde quando você atua como editor do Aliás?

Ubiratan Brasil: Desde março deste ano, o caderno já estava comigo.

Digitais: Como você descreveria a linha editorial do Aliás atualmente?

Ubiratan Brasil: Olha, ele continua com a sua essência, que é se basear nas notícias principais da semana, as que foram mais comentadas ou que deram mais repercussão e, ali, apresentar uma visão mais esclarecida daquilo, mais bem elaborada. Seja em uma reportagem, uma entrevista. O factual é utilizado, mas ele é um ponto de partida para um aprofundamento. Essa é a receita do Aliás. Mas o que a gente está querendo fazer, quando digo a gente, somos eu e Victor Brandalise, que praticamente fazemos o caderno juntos, é não ficar fixo só na semana. A gente achou que a semana é um bom prato, mas devem existir matérias especiais. Às vezes, textos que não são nada a ver com aquela semana e que portanto poderiam sair naquela semana, na próxima, na anterior, enfim, tentar fazer um equilíbrio entre os assuntos da semana e também apostas em histórias nossas, geralmente histórias surpreendentes ou com conteúdo humano muito forte. Tentar equilibrar isso. Não abandonar a semana mas também não ficar somente preso a ela.

Digitais: Como são decididas as pautas?

Ubiratan Brasil: Às vezes, calha da semana ser muito forte e ter coisas aqui dentro do Brasil, coisas em São Paulo, ou assuntos importantes também lá fora, nos Estados Unidos, como a eleição ou como os refugiados, lá na Europa. Então, tem semanas que são carregadas de assuntos e aquela edição do Aliás é totalmente pautada pela semana. Aí a gente segura um pouco. É flexível, a nossa ideia é contrabalançar, sempre fazer, pelo menos, a contracapa, a última página, uma história com fôlego. Aí sim, ali, a gente investe em reportagens especiais, em matérias especiais. E a capa, por enquanto, está sempre sendo pautada por assuntos da semana. Varia um pouco, mas a ideia é essa, dar esse equilíbrio.

Digitais: Vocês possuem pautas de gaveta? Ou a rotina do caderno ainda é corrida, como no período da Laura Greenhalgh?

Ubiratan Brasil: Não, é diferente. Na época da Laura, e uma parte do período da Mônica, o caderno era maior. O caderno tinha no mínimo seis páginas e chegava a ter oito. Hoje, ele sempre tem quatro páginas. Sempre, não passa disso. É um número fixo. Na última fase da Mônica, eles alternavam, quando começou a redução, a Mônica ainda pegava uma semana com quatro e uma semana com seis páginas, um revezamento. Comigo não. Eu já cheguei e já me determinaram que seriam sempre quatro páginas. Aí nesse caso, há semanas que a gente tem um material justo. Não vou dizer para você que não temos gaveta, temos. Mas ela não é tão constante. Às vezes, acontece de a gente estar lá com o caderno mais ou menos formatado, aí chega uma proposta de artigo, ou uma matéria que alguém ofereceu, que é muito interessante, que interessa àquela semana, e aí, como eu tenho essas matérias que eu te falei que não são sempre pautadas para a semana, às vezes, eu consigo segurar, e aí fica para a outra semana. Tenho gaveta, mas não é abarrotada.

Digitais: O público do caderno ainda é o mesmo?

Ubiratan Brasil: Eu acho que no geral sim, são pessoas que não se contentam simplesmente com o fato, com a notícia. Ela quer saber e, quanto mais rápido melhor. Eu acho que o público em geral é o mesmo, curioso, é um público que não se contenta apenas em ser informado, mas ele quer ser formado também. Não tenho nenhuma pretensão em querer formar ninguém. A gente ajuda as pessoas a procurarem seus caminhos. Então, é um público praticamente idêntico ou parecido, que não se contenta com a informação pura e simples, que só lê as manchetes e se dá por satisfeito. Ele quer saber a consequência daquilo, a origem, ou a contextualização daquele assunto.

Digitais: Observamos que são raríssimas, ao longo da história do caderno, a inserção de propagandas. A que se deve este particular?

Ubiratan Brasil: Não, não, nunca tem. Desde a criação do caderno era uma determinação editorial que não tivesse nenhum tipo de publicidade. Você nunca vai encontrar publicidade nele, pelo menos até agora, a não ser que mude a determinação aqui dentro. Desde o primeiro número, até agora, comigo a frente dele, eu pego as quatro páginas limpas, uma determinação editorial. Era uma determinação, uma aposta do jornal no caderno, por isso mesmo, ele é equivalente ao Ilustríssima, da Folha, que também, se você observar, não tem nenhuma publicidade. E aí, não é porque não há interesse para publicidade nesse caderno, eu acho que até há, mas é determinado pela chefia da redação que não haja nenhuma publicidade. Então, não temos esse problema. Por isso, não acontece de, de repente, eu ter meia página a menos ou meia página a mais, que é o caso do Caderno 2, que eu edito também. Lá, todos os dias é uma novidade. Eu faço o caderno com oito, às vezes com dez, às vezes com 12, chego a fazer com 14, sempre por conta de publicidade. Agora, aqui no Aliás, não, eu sei que são quatro páginas limpas, sempre.

Digitais: Como você avalia cadernos desta natureza no momento contemporâneo, de informações circulando com liberdade e sem custos na internet?

Ubiratan Brasil: Eu acho que aí, mostra muito a importância do caderno. Como ele não é um caderno informativo, você não vai ter, salvo as matérias especiais, que são apostas nossas, ali, vai se tratar de assunto que foi, de alguma maneira, divulgado em algum lugar, seja na internet, seja no papel, no Brasil ou no exterior, enfim. Então, ele não tem, primeiramente, a função de ser informativo. Ele não vai dar nenhuma notícia nova, não vai dar furo. Mas a função dele é o que seria ideal pra todas as publicações impressas, ele analisa e oferece uma visão muito mais aprofundada de um fato que foi divulgado, às vezes, simplesmente como um fato. Aquela coisa do lead, como a gente fala no jornalismo, bem raso, simples, e pronto. O que ele vem, é complementar e ajudar o leitor a ter uma visão mais aprofundada daquilo e até ajudá-lo a criar um juízo sobre esse assunto. Seja concordando conosco ou não, mas a ideia é que a pessoa fique apta a isso. Então, para a internet, aparentemente, ele é contraditório, são textos longos, mas a gente sabe que tem muito público aí, e é bom que tenha. É ajudar as pessoas a terem um argumento a mais sobre aquele assunto. Então, o certo, eu acho que o papel em geral, não só num suplemento como o Aliás, que é semanal, mas do jornalismo, em geral, eu acho que é seguir um pouco mais essa linha analítica. O Aliás já está cumprindo um papel que complementa e ajuda as pessoas que falam pela internet a ter uma notícia muito mais bem analisada do assunto, e não só o fato simplesmente.

Digitais: O Aliás surgiu em 2004 com oito páginas, algumas edições especiais ultrapassaram esse número. Hoje, 12 anos depois, ele possui quatro páginas. A que isso pode ser atribuída esta retração?

Ubiratan Brasil: Isso é um problema da contingência econômica do momento. Isso não somente somos nós, O Estado de S. Paulo, mas a imprensa escrita com um todo passa por um momento de reacomodação, de descoberta de novos caminhos. A versão impressa, ela simplesmente não fornece mais o lucro necessário para a manutenção de uma boa saúde da empresa. É a principal responsável ainda, mas não é a única, porque as pessoas estão deixando de ler jornal no papel e vão para a internet. Simplesmente por isso. Os anunciantes também estão deixando de anunciar no papel e vão anunciar na televisão, especialmente na Globo. Houve uma queda de receita generalizada e revistas estão incluídas nisso também. Você tem que tomar medidas de precaução. Na versão impressa, se paga o papel, que muitas vezes é importado, do Canadá. Então se tem que pagar papel, tem que pagar as tintas, custo de gráfica, depois o jornal sendo distribuído, o volume do caminhão. Dez exemplares de um jornal hoje, ocupam menos espaço do que dez anos atrás. Então é tudo uma contingência industrial, na verdade. Foi simplesmente uma opção editorial para enfrentar esses tempos de crise que atingem o país há uns dois anos, pelo menos. Todas contingências obrigam os jornais, a imprensa escrita, impressa, na verdade, a terem esse tipo de atitude por precaução.

Digitais: Qual você considera que seja o papel do editor de um caderno como o Aliás?

Ubiratan Brasil: O caderno não é grande, embora ele pudesse ter o tamanho que tivesse, mas pensando no papel, a gente tem que ficar com o feeling dos assuntos que têm fôlego, dignos de no domingo a pessoa estar ainda interessada em ler a respeito daquilo, uma contextualização daquilo, esse é o primeiro passo. E, às vezes, até tentar antecipar algo, vou usar o exemplo americano, sabendo que vai haver um debate novamente entre Hillary e Trump no meio da semana, a gente procura, se possível, na semana anterior, levantar elementos que deveriam ser discutidos naquele debate, que importa não só aos americanos, mas ao mundo todo. É ter uma atenção pelo que está acontecendo e ao que merece uma explicação melhor, mais aprofundada, que vai ter uma leitura grande, e a assuntos que podem estar por acontecer, são previstos, e que a gente pode fomentar um pouco essa conversa, ajudando o leitor que vir a ler a matéria no domingo a entender melhor o debate da terça-feira.

Digitais: Em sua concepção, como está o Aliás hoje? Pode-se dizer que existe a possibilidade dele acabar?

Ubiratan Brasil: Existe, porque tudo é possível. Não há nenhuma sinalização. Hoje em dia não se sinaliza nada. Mas sim, ele pode virar duas páginas, é que duas páginas não viraria um caderno, teria que ser incluído no caderno 2, por exemplo, ocuparia duas páginas de domingo, é uma chance. Ele poderia acabar simplesmente, é possível. Ou não, ele pode continuar como quatro e, uma coisa não tão esperada, mas se a situação toda melhorar muito e voltar uma bonança como tinha antigamente, ele pode voltar a ter seis páginas. Ou, pode abrir espaço para a publicidade e aí sim, ele aumenta pra seis páginas. As possibilidades são muitas, mas, por ora, nada está sinalizado. Está mantido com quatro páginas e semanal. Como já estamos acabando o ano, pode ser que sejam feitos estudos para o próximo ano. Aí, logo devem me chamar e eu vou ser provavelmente consultado, e será tomada uma decisão. Mas nesse minuto em que a gente está falando eu te digo: pode acabar, claro que pode. Como pode voltar a ter seis. Tem os dois lados, mas, por ora, não tem nada sinalizado.

Digitais: Que futuro você avalia para o caderno?

Ubiratan Brasil: Eu quero crer que ele tenha um espaço garantido, que ele tenha uma permanência garantida. No momento em que se sabe que o futuro do impresso, por ora, é algo mais analítico do que informativo, não adianta você na manhã de hoje, somente noticiar o que aconteceu na manhã de ontem. A internet já deu, a televisão já deu, a rádio já repercutiu, então, ao longo do dia, aquela notícia já foi digerida de mil maneiras. Se hoje de manhã você não oferece algo além da simples notícia, é claro que você não vai sobreviver. Você está pagando por uma coisa que você já sabe. Tem que ter uma novidade. Aí as novidades podem ser tanto as reportagens especiais, furos, apostas próprias do jornal, que ninguém foi atrás, ou, apresentar a notícia com uma perspectiva mais de futuro: você não fala do que aconteceu, mas, de que consequência vai ter aquilo e, isso implica, muitas vezes, na contextualização, algo mais analítico ou, tendo a informação publicada junto com uma análise, como contexto, onde se usa aquilo. Eu acho que nesse caso o Aliás se encaixa perfeitamente. Ele faz semanalmente o que os jornais deveriam, lógico que em textos menores, fazer diariamente.

1 comentário

  1. Acho lamentável a situação do Aliás. Sou professor e já utilizei o Aliás por diversas vezes em sala ou como “trampolim” para pesquisas com os alunos. Tenho saudades do tempo em que a página inicial trazia uma foto e um resumo do conteúdo “denso” que você encontraria nas próximas duas páginas. Passei a assinar o Estadão só por causa do Aliás. Agora, o que eu vejo é um “caderno” tímido diluído em meio ao jornal. Por favor, Aliás, volte às suas origens áureas!!

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