Sem educação não há avanço para a cidadania

Por Ricardo Costa

Final de 2016 e com ele termina também o prazo para o cumprimento da Emenda Constitucional 59, que prevê uma Educação Básica obrigatória e gratuita para jovens de 4 a 17 anos até o fim do ano. Até mesmo garante o auxílio a quem não teve acesso na idade própria. Além disso, programas suplementares de material didáticoescolar, transporte, alimentação e assistência à saúde são colocados como deveres do Estado em todas as etapas de ensino. O direito à educação já é previsto em lei pela Constituição Brasileira, porém o número de 3 milhões de crianças e adolescentes que estão fora das escolas, segundo o Censo Escolar 2015 realizado pelo Ministério da Educação, mostra que nem todos estão exercendo os próprios direitos.

O aumento em 32,4% da rede privada nos sete anos iniciais do ensino traz uma série de questionamentos sobre o dever do Estado dar uma educação pública e ela ser de qualidade. É justamente para suprir um buraco que a Educação Básica pública deixou no período que compreende o Ensino Infantil ao Ensino Médio que, segundo a pesquisadora e diretora da Faculdade de Educação da PUC-Campinas, Dora Megid, os cursinhos populares existem para ajudar aqueles jovens que querem entrar no Ensino Superior. Quando isso acontece, o aluno se vê na situação de escolher gastar um dinheiro que não tem ou recorrer a projetos como os cursinhos feitos por voluntários. “Quando temos um cursinho popular é um problema, quer dizer que a base não foi dada corretamente para aquele aluno. Claro, para aquele que está fazendo esse cursinho é a melhor coisa que ele pode alcançar, tem que acontecer mesmo e quanto mais a gente puder auxiliar essas iniciativas melhor”, diz a pesquisadora. Para ela, isso acontece devido a uma falta de estrutura nos três pilares básicos da educação: políticas públicas, vontade dos professores e a família. “Sem educação não tem avanço. Quando falamos que a educação constrói a cidadania é a verdade. Enquanto enxergarmos a educação como gasto o Brasil não vai para frente, educação é investimento e é importante na construção da cidadania”, afirma a pesquisadora.

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Créditos: Ricardo Costa

 

Ajudando a construir a cidadania

Os vestibulares estão chegando, o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) é no início de novembro e os estudantes já estão se preparando há um ano para esse momento. Mesmo com a queda de novos alunos em 2,6% nas universidades públicas e de 6,9% nas universidades privadas divulgada pelo Censo da Educação Superior 2015, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), vários jovens recorrem aos cursinhos, muitas vezes aos que são particulares, mas aqueles que não tiveram um ensino de qualidade ao longo do Ensino Básico e não podem arcar com altos valores podem recorrer a uma opção, os cursinhos populares.

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O estudante se baseia em outros livros para desenvolver a apostila  (Foto: Ricardo Costa)

Esse é o caso de Bruno Paizim, estudante de Física na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), que ao se ver no terceiro ano do Ensino Médio, desmotivado, encontrou uma opção no Cursinho da Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), oferecido gratuitamente. “Eu estudei a vida inteira em escola pública. Lá, eu e os que estudavam comigo só viam professores desmotivados, a gente também não via ninguém que tinha subido na vida. Desmotiva não ter ascensão social e a escola jogada. Foi horrível, eu não entendia nada de matemática, não sabia nada de física, comecei do zero literalmente, o que me ajudou foi o cursinho”, relembra o jovem. Hoje, na graduação e com vontade de ser o professor de escola pública que nunca teve, já deu aulas em alguns cursinhos populares e tem projetos de fazer uma apostila que descomplique matérias como matemática e física, que tanto assustam os jovens. “No meu Ensino Médio eu lia a teoria e ia fazer a prática e não dava certo, achava muito estranho. Então eu pensei em fazer uma apostila para dar uma base para os alunos fazerem os exercícios. O intuito é pegar operações que a maioria das pessoas do cursinho não sabia, que eu não sabia e explicar passo a passo”, diz Bruno.

 

Além da sala de aula

Já Maris Malfate, estudante de Letras na UNICAMP, no início do ano começou a dar aulas no cursinho popular PROCEU Conhecimento. A jovem ganhou destaque na internet após se indignar por 15 dos 90 alunos que a professora dá aula não conseguirem a isenção na taxa de inscrição do vestibular da universidade, e então resolveu vender doces para arrecadar o dinheiro. “Foi algo que fez com que eles não precisassem desistir do sonho deles de prestar o vestibular. Eles estão estudando o ano todo para isso, e caso não conseguissem pagar a inscrição, não poderiam realizar a prova, o que os faria perder um ano de esforço”, afirma a jovem.

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Maris arrecadou dinheiro para pagar a inscrição do vestibular de 15 alunos (Foto: Arquivo Pessoal)

Sua rotina é corrida. Entre o tempo de ir para as aulas da faculdade no período da manhã e corrigir redações por fora para ganhar uma renda extra durante à tarde, duas noites por semana arruma um tempo para planejar aulas, pesquisar e preparar-se para ensinar alguns alunos durante a noite no cursinho popular. “É bastante corrido de segunda e terça que são os dias que eu dou aulas aqui. Tenho as aulas da faculdade todos os dias das 8h às 18h, é corrido, eu não tenho carro e tenho que pegar ônibus, hoje mesmo eu perdi o ônibus e cheguei atrasada aqui”, diz Maris.

Jaqueline Silva é operadora de caixa em um supermercado e quer prestar Nutrição. Ela foi uma das alunas beneficiadas pelo feito de Maris. “As aulas aqui estão ajudando bastante, como eu trabalho no período do dia completo, então eu só ia ter a noite para estudar. Em casa tem tudo para tirar seu foco, aqui é o pontapé que você precisa para ir para frente, essas aulas são meu salva-vidas. A Maris me ajudar foi algo inesperado, querendo ou não, no mundo de hoje você não espera que ninguém queira ajudar ninguém, ela não tinha obrigação de fazer isso”, comenta a jovem.

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Maris dá aulas durante a noite para os alunos (Foto: Ricardo Costa)

São três horas de aulas todos os dias, com professores que como Maris, são graduando ou formados há pouco tempo. “É um tipo de treino, estágio, por mais que eu queira dar aula eu tenho medo, mas aqui agora eu estou à vontade com eles. Resolvi começar aqui pelo projeto e pela causa, é o que eu acredito, é uma maneira para as pessoas que querem começar. Você vê o progresso deles, fazem relação com o conteúdo anterior, é gratificante ver que está dando certo”, acrescenta a professora. O desafio, segundo o coordenador Daniel dos Anjos, é manter o cursinho. “É realmente um desafio, coisas que estamos aprendendo a fazer com estratégias inteligentes  e  planejamento. Estamos sempre pensando no fator manutenção e recurso que é importante, então estamos sempre realizando eventos pra arrecadar recursos financeiros, o que tem surtido muito efeito”, declara Daniel.

 

Mesmos ideais

A recém-formada em Ciências Econômicas, Gabriela Mota, durante a faculdade teve a mesma ideia de Daniel, coordenar um cursinho popular. No início, o que era apenas um desejo de uma estudante com Prouni integral de fazer algo que fosse além de ajudar em uma campanha periódica, virou um resultado permanente por meio da cidadania. Assim surgiu o cursinho Prometheus. “Não estava realizando nenhuma atividade que contribuía para o mundo melhor e refletindo sobre meu papel como cidadã, isso me motivou a através da educação lutar por um mundo socialmente e economicamente mais justo. Criei um grupo no Facebook convidando amigos próximos para se juntar a dar aula em uma escola pública da região de Campinas. Neste meio tempo mais pessoas se juntaram ao grupo, amigos de amigos. E no fim de 2013 já tínhamos uma equipe de coordenação e administradores do projeto”, afirma Gabriela.

A estrutura é bem diferente de um cursinho particular convencional. No lugar de receberem mensalidades com valores altos, eles funcionam por meio de rifas e doações de voluntários. As aulas acontecem aos sábados em período integral, e até mesmo oferecem café da manhã, almoço e lanche da tarde aos alunos. “Os cursinhos populares operam com pouquíssimos recursos e muitas vezes os professores voluntários não tem formação na disciplina que lecionam as aulas, isso tudo contribui muito para dificultar o desenvolvimento dos cursinhos populares em relação a cursos particulares. Mas acredito que a crença em uma educação popular que chegue a todos as camadas da sociedade é algo que dá força aos cursos populares e fazem eles seguirem cada vez mais forte em nossa sociedade”, fala a jovem.

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Créditos: Ricardo Costa

 

Editado por Thiago Tedeschi

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