Os dois lados da moeda

Por: Ana Paula Schenfel e Gabriela Massaro

BOIA FRIA

Há menos de seis meses para 2017, entra em reta final o prazo estabelecido pelo Protocolo Agroambiental para a eliminação total da queimada da palha da cana de açúcar em terrenos com declividade acima de 12%. Com isso, é de se esperar que muitos trabalhadores que fazem o corte manual da cana percam a fonte de renda e gere grande desemprego visto que, segundo o coordenador agrícola Edinei Cardoso Morais, com a queima da palha da cana o trabalhador corta em média de 12 toneladas por dia; e com a cana crua, ou seja, sem a queima, essa média reduz para 8 toneladas. Reflexo disso está no relatório Etanol Verde da safra 2015/2016 que apontam que 91,3% da colheita da cana de açúcar já é realizado sem o emprego do fogo, ou seja, por máquinas.

Com maior produtividade e custo benefício, há algum tempo tem sido usadas as máquinas colhedoras de cana de açúcar. Segundo a pesquisadora e socióloga Maria Aparecida Moraes Silva, a mecanização da colheita da cana começou após uma revolta dos trabalhadores rurais entre os anos de 84 e 89 devido ao aumento de 5 para 7 no número de ‘ruas’ de cana para o corte, ou seja, cada cortador passaria a cortar 7 ruas de cana, sem nenhum aumento salarial por isso. A situação ocasionou greves e protestos por alguns anos, o que ocasionou desconforto nas usinas e proprietários de fornecedoras de cana que passaram a adotar máquinas para a colheita.

De acordo com Maria, em 2002, com a popularização dos carros flex, houve um aumento na demanda de etanol. As usinas e fornecedores de cana, para suprir essa demanda, passaram a utilizar ainda mais máquinas. Em 2003 foi implantada nos campos a primeira máquina colhedora de tecnologia 100% nacional. As máquinas custam cerca de R$ 100 mil, trabalham 24 horas por dia e podem colher de 500 a 700 toneladas por turno (7 horas).

Devido a esses fatores que contrapõem cortadores manuais e colhedoras, alguns debates e dissertações foram produzidos para tratar da questão social e ambiental dessa problematização.

Os cortadores ‘bóias-frias’

Na região de Tiete, segundo o presidente do Sindicato Rural Patronal de Tiete Antonio Aurélio Persona, aproximadamente 5 mil trabalhadores são contratados por safra para a colheita manual; muitos desses sem nenhuma ou pouca alfabetização. Perguntado sobre o que faria se perdesse o emprego em hipótese de total mecanização, o ‘boia-fria’ Francisco Santos Araújo, de Lagoa do Mato, interior do Ceará, disse nem imaginar em que poderia trabalhar para sustentar a família.

De acordo com o presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Alimentação e Afins de Limeira e Região (Stial) Artur Bueno Junior, muitos dos trabalhadores que já foram dispensados pelas usinas e fornecedoras de cana retornaram para o norte e nordeste do Brasil e/ou migraram para a área de construção civil. Junior afirma que o sindicato ofereceu diversos cursos de qualificação profissional como forma de prevenir um grande desemprego desses trabalhadores. Além desses, aproximadamente 150 outros programas de requalificação dos trabalhadores da lavoura canavieira já existem.

 Os ‘patrões’

Persona afirma que todos os anos os proprietários de usinas e fornecedores de cana têm dificuldades em encontrar mão de obra na região para a colheita manual da cana; desta forma no mês de janeiro muitos recrutadores vão para cidades da região norte e nordeste do país fazer contratações por safra. Os 5 mil trabalhadores contratados por safra são os que migram temporariamente do norte e nordeste para o trabalho.

Além da dificuldade com a mão de obra há também o custo benefício e a questão ambiental. Já existe uma lei e o protocolo para que sejam extintas toda e qualquer queimada da palha da cana para fins de preservar o meio ambiente. Outra clausula do Protocolo afirma que seriam feitas pesquisas para reutilizar a palha da cana que não seria mais queimada.

O fim do corte manual

Diante de toda essa problematização existem dúvidas, principalmente pelos trabalhadores da lavoura canavieira, sobre a extinção do trabalho. Segundo a pesquisadora o trabalho não vai acabar; terá uma diminuição do trabalho, assim como já têm acontecido, porém muitos trabalhadores poderão participar da morfologia dessa tarefa e passaram a tratoristas, operadores de máquina etc.

De acordo com os entrevistados, é uma mudança necessária levando em conta custos para as usinas e fornecedoras de cana, a questão do meio ambiente e a mudança nos trabalhos. Mas ainda assim é uma mudança que, segundo o especialista em Gestão de Produção Sucroenergética Pedro Canesin Neto, poderia ter sido minimizado se desde a validação da Lei Estadual nº 11.241, em 2002 que proíbe as queimadas, medidas palpáveis de capitação e/ou requalificação dos cortadores de cana tivessem sido implantadas nas usinas de açúcar e álcool.

São dois lados que podem sair perdendo. As usinas têm de atender a Lei e ao protocolo, ao mesmo tempo em que os trabalhadores rurais, sem qualificação, ficam desempregados. É um problema que, muito provavelmente, não seja do setor sucroenergetico, mas sim de gestão do país.

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