Sobrevivendo na selva de pedra

No Dia do Índio, conheça a menor aldeia do país, localizada na cidade de São Paulo.

Por Laura Baiè.

“Dia do Índio? É só mais uma data em que o homem branco finge que se preocupa com a gente. Eu prefiro nem comemorar. Nesse dia, ou protestamos pelos nossos direitos, ou ficamos na aldeia. Dá na mesma. Somos ignorados”, exclama Sônia Barbosa, uma das lideranças indígenas da Tekoa Pyau.  Moradora da aldeia desde 2003, migrou do litoral para a capital em busca de encontrar sua terra. Os longos cabelos negros e os olhos arregalados não deixam enganar sua etnia e reforçam a coragem que adquiriu de berço, há quarenta anos, desde que começou a lutar pelo seu espaço.

A Tekoa Pyau, localizada na Zona Oeste da cidade de São Paulo, a 30 minutos da Avenida Paulista, juntamente com outras duas aldeias- a Tekoa Itakupe e a Tekoa Ytu– compõe a Terra Indígena do Jaraguá, considerada a menor do país, com 1,7 hectares regularizados para mais de 700 pessoas.

Ela faz parte das vinte e nove terras indígenas do estado de São Paulo que já contam com algum tipo de reconhecimento por parte do Governo.  A população que vive nessas terras está estimada, pela Funai, em mais de quatro mil índios, divididos entre o povo Guarani Mbya, Tupi-Guarani, os Kaingang, os Terena, Krenak, Fulni-ô e Atikum. O Jaraguá, especialmente, é habitado pelos Guarani Mbyá.

Infográfico Indios

(Créditos: Laura Baiè)

Na menor aldeia do país, as “ocas” dão lugar a barracões abafados de madeira, construídos quase que de forma intuitiva. Recursos básicos como água, luz e saneamento básico dão as caras de forma tímida. As crianças correm com os pés- e corpos- nus, tocando o chão alaranjado e misturam-se com os animais que ali vivem – são mais de 530 cachorros e 240 gatos; a maioria foi abandonada e agora dividem o –pouco- espaço e comida com os moradores.

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São mais de 400 crianças que vivem na Tekoa Pyau (Foto: Laura Baiè)

Na aldeia, há uma pequena unidade de saúde que permanece sempre de portas abertas. Ainda sim, os Guaranis recorrem muito ao pajé e a medicina tradicional, mas às vezes é necessário usar dos remédios industriais, que estão em falta.

Os pequenos- aproximadamente 400 crianças – estudam nas escolas de tradições indígenas localizadas na aldeia. Os locais são os grandes responsáveis pelo giro econômico das famílias, que também sobrevivem por meio dos trabalhos informais e o artesanato.

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As crianças se divertem na quadra improvisada (Foto: Laura Baiè)

Colares com sementes coloridas são expostos nas grades que beiram parte da estrada e cercam o território. Os indígenas ficam sentados em frente a seus barracões e, quase que de maneira espiritual, esculpem com o coração os pedaços de madeira clara, que levemente tomam forma, até virarem estatuetas de corujas.

artesanato
Animais esculpidos em madeira (Foto: Laura Baiè)

Quase escondida em meio à mata, a casa de reza, construída inteira com troncos de árvores, possui duas janelas e uma grande porta, por onde entram feixes de luz. Existe uma lâmpada, mas que se demonstra insuficiente para iluminar o lugar, um dos mais arejados da aldeia. Tudo ali é sagrado- os instrumentos musicais são afinados de maneira não convencional e as reuniões acontecem com todos os moradores depois que o sol finaliza seu espetáculo. A tradição que corre pelo sangue dos que habitam a Tekoa Pyau, também transparece nos batismos, realizados duas vezes ao ano, e no petanguá, o tradicional cachimbo, passado da boca dos anciões para o gosto dos mais jovens.

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Menino fumando o Petanguá (Foto: Laura Baiè)

 

Na aldeia, há uma pequena unidade de saúde que permanece sempre de portas abertas. Ainda sim, os Guaranis recorrem muito ao pajé e às ervas medicinais, mas às vezes é necessário usar dos remédios industriais, que estão em falta.

Apesar de todas as tradições, é nítido o desafio crescente de manter a cultura. Na aldeia é possível encontrar moicanos a la Neymar, televisões de tela plana, funk, cordões de prata, “roupas de marca” e a paixão pelo futebol estampada nas camisas de clubes.

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A tecnologia contrasta com as tradições (Foto: Laura Baiè)

Desafio também é combater o preconceito. “Somos taxados pela vizinhança como desocupados. Alguns falam que temos ligação com o tráfico de drogas, outros com prostituição e pedofilia. Todas as acusações são falsas. Só queremos tocar a vida, ganhar nosso sustento honestamente e lutar pela terra, que é nosso direito”, comenta Sônia.

Os Guarani Mbyá da Terra do Jaraguá reivindicam um território de 532 hectares. Em 2013, após um estudo antropológico que levou anos para ser concluído, a Funai reconheceu a terra como área de ocupação indígena. Desde então, começou um processo de reintegração de posse, movido pelo ex-prefeito de São Bernardo do Campo, Antônio Tito Costa. Ele alegava que o terreno fazia parte de sua herança. Depois da resistência de todo o povo indígena, em maio de 2015, o pedido foi negado. Porém, os Guaranis ainda aguardam a demarcação das terras para poder cessar os principais problemas de uma aldeia localizada na beira da cidade grande. Não existe espaço para plantar, seus riachos estão poluídos com esgoto, não há o contato com a terra. “Estamos perdendo nossa cultura por falta de espaço. Precisamos mudar isso”, finaliza Sônia Barbosa, com um ar esperançoso de que onde há sofrimento, há luta e a consciência tranquila de que nunca deixou de defender o que é seu por direito: a terra.

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Sônia Barbosa, uma das lideranças da aldeia (Foto: Laura Baiè)

Editado por Mateus Souza

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