Distúrbios alimentares: o silêncio que pode matar

Por Caren Godoy e Izabela Eid

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Imagem ilustrativa Foto Reprodução Internet

Segundo levantamento realizado pela Secretária de Saúde, de janeiro até julho de 2012, foram registrados mais de 100 internações por casos de bulimia e anorexia no estado de São Paulo. Entre os casos registrados, as mulheres representavam a maioria dos pacientes hospitalizados.


Anorexia

“Foi uma decisão tomada numa tarde, que mudou minha vida para sempre. Eu quase me matei por causa dela”. Apesar de ter superado o distúrbio há cinco anos, a jovem T.L.S, que hoje tem 22 anos, e cursa Farmácia, ainda não tem condições de se identificar. Mas, concordou em compartilhar seus relatos sobre como a busca excessiva pelo “corpo ideal”, quase tirou sua vida. Ela tinha 14 anos quando começou a fazer dietas para perder peso. “Naquela época não tínhamos muito acesso à internet, era tudo bem mais difícil do que é hoje, e mesmo assim eu consegui ter acesso a algumas dicas de como ficar com o corpo perfeito”.

A estudante conta que nunca esteve acima do peso, mas que se sentia mal porque todas as garotas da sua classe já namoravam, por isso ela começou a se sentir pressionada e quis melhorar a aparência, aderindo a dietas que restringiam muito sua alimentação. A jovem conta que durante dois anos, emagreceu quase nove quilos, e que para conseguir disfarçar a falta de alimentação em casa, fazia as refeições no quarto e jogava toda a comida no vaso sanitário. Além disso, para ajudar a perder mais peso, todos os dias depois da escola, ela corria por horas no condomínio onde morava, subia e descia as escadas de casa por até 12 vezes seguidas, e tudo isso sem comer absolutamente nada. “Eu lembro que sentia muita dor no estômago, e quando ela ficava muita intensa, para amenizar eu comia um pedaço de queijo, e só”.

Depois de muita resistência e discussões com os pais, ela foi levada ao hospital, e lá ela foi diagnosticada com anorexia nervosa. “A sensação que eu tive em relação aos meus pais, foi de traição! Eu dizia que aquilo tudo era exagero. Eu me recusava a aceitar que estava doente e que precisava de ajuda. Eu chorei por dias e fiquei internada quase um mês no hospital”, contou. Quando saiu do hospital, contra sua vontade, começou a fazer acompanhamento com psicólogos e nutricionistas, mas só aceitou que estava doente quando começou a frequentar um grupo de apoio. Segundo ela, a sensação de saber que não estava sozinha foi reconfortante.

“Eu comecei a ouvir elogios das pessoas, e vi que as dietas estavam funcionando pra mim, mas depois de um tempo o emagrecimento começou a ficar mais lento, então eu decidi parar de comer totalmente”


Bulimia

Assim como T.L.S, que sofreu com a anorexia, a vendedora de roupas, J.B 21 anos, também não quis se identificar. Ela foi diagnosticada aos 19 anos com bulimia nervosa, mas sua história com a doença começou quando ela tinha 16 anos. Diferente do primeiro caso, a vendedora não se lembra como ou porque tudo começou. “Eu lembro da primeira tentativa de forçar o vômito, estava na casa de uma amiga, tínhamos comido muita pipoca doce, e eu me senti mal, daí fui no banheiro e coloquei o dedo na garganta, e a partir desse dia tudo começou”.

Porém, a segunda tentativa de vomitar foi bem mais difícil e dolorosa do que a primeira, por esse motivo ela passou a procurar ajuda na internet, e encontrou muito facilmente em blogs, dicas de como vomitar de forma mais fácil, sem fazer barulho, o que comer e o que não comer. “Nos blogs a anorexia era conhecida como Ana, e a bulimia elas chamavam de Mia, as descrições tratavam a Ana e a Mia como suas melhores amigas, e eu fazia tudo o que me mandavam fazer.”

J.B conta que no começo as mudanças que sentiu no seu corpo a agradaram, mas depois os problemas começaram a aparecer, e ela se assustou. “Vieram os problemas de pele, cabelo e unha. A minha pele descamava, era tudo muito sensível, eu sentia dor nos dentes, nas unhas e não conseguia prender nem pentear o cabelo porque a dor que eu sentia na raiz do meu cabelo, me fazia chorar, o meu intestino também parou de funcionar depois de um tempo”. Segundo ela, além da Ana e Mia, o silencio era um dos poucos amigos que sobraram, por causa da doença ela se afastou de todos os amigos e conhecidos, ela magoou seus pais e se recusava a aceitar ajuda.

“Eu não falava disso com ninguém e nem permitia que as pessoas tocassem nesse assunto comigo. Eu afastei todo mundo que se importava, porque eu me sentia a dona da verdade. Como você sai do fundo do poço sem ninguém pra te puxar de lá?”


Acompanhamento Nutricional

Segundo a nutricionista Mariana Savian, a importância do acompanhamento nutricional é melhorar as condições físicas e o estado geral do paciente que, muitas vezes, encontra-se debilitado. O nutricionista irá montar um plano individual de tratamento, realizar educação nutricional e ensinará o paciente a: não observar apenas as calorias dos alimentos, mas sim o que o compõe; modificar seu comportamento alimentar e auxiliar o aumento do peso. “Não existe um tratamento específico para os transtornos alimentares. Existem terapias medicamentosas, cognitivo-comportamental e nutricional que devem ser trabalhadas na tentativa de evitar os períodos de restrição calórica (anorexia) e cessar a ingestão alimentar excessiva seguida de purgação (bulimia)”, conta Mariana.

Sempre será feita uma abordagem individual, pois cada paciente apresenta um quadro diferenciado do outro, e o acompanhamento nutricional será determinado por cada nutricionista, dependendo do caso do paciente, podendo ser semanal, quinzenal ou até mesmo mensal. A nutricionista ainda conta que os primeiros sintomas desses transtornos são o distúrbio da imagem corporal, medo mórbido de engordar ou desejo exagerado de emagrecer, ou irregularidade menstrual.

Entenda no áudio da nutricionista como os familiares e amigos podem ajudar os pacientes durante o tratamento:


Acompanhamento Médico

O Grupo de Assistência em Transtornos Alimentares do Hospital das Clínicas da FMRP – USP diz que para que o tratamento psicológico de seus pacientes tenha efeito é necessário que algumas tarefas sejam desempenhadas pelo psiquiatra ou que o psiquiatra certifique-se de que sejam providenciadas para o paciente com o transtorno da alimentação, como por exemplo:

O desenvolvimento de uma boa relação entre médico e paciente. Para isso, a compreensão pelo psiquiatra das emoções e dos temores do paciente, frente às recomendações para mudança das atitudes alimentares, auxilia na construção da confiança e no respeito entre ambos.

A cooperação com outros profissionais envolvidos o atendimento, no sentido de se integrar diferentes pontos de vista sobre o paciente, para melhor evolução do tratamento.

Avaliação e acompanhamento de sintomas e comportamentos do transtorno da alimentação.

Acompanhamento da condição médica do paciente, pela troca de informações com médico nutrólogo sobre as alterações clínicas, por exemplo, decorrentes da desnutrição, dos vômitos induzidos, do uso de diuréticos e laxantes, que poderiam influenciar no comportamento do paciente e na condução do tratamento.

Avaliação de transtornos psiquiátricos que possam ocorrer em paralelo ao transtorno alimentar; como depressão, ansiedade, uso inadequado e medicações e outras drogas. Nessa avaliação o psiquiatra também determina o nível de segurança do paciente e a necessidade de eventual internação hospitalar, pela análise de risco suicida, de comportamentos agressivos e outras atitudes que possam colocar em risco sua integridade física e social.

Orientação familiar, pelo esclarecimento sobre os comportamentos do paciente, no objetivo de aumentar a compreensão sobre o transtorno alimentar, além da orientação de condutas que possam facilitar o desenvolvimento do paciente e sua melhor aceitação do tratamento.


Fonte: Caren Godoy

Atualmente, as duas entrevistadas seguem em acompanhamento com nutricionista e psicólogo, mas ambas se sentem melhor tanto em relação à aparência quanto com a saúde.

Editado por Izabela Reame

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