Servidores públicos lutam por respeito e melhores condições de trabalho

Por Alan Duenha

Talvez muitos desconheçam, mas em 28 de Outubro é celebrado o Dia do Servidor Público. Feriado, portanto, para esta classe trabalhadora. Vários do estado de São Paulo, no entanto, estiveram e estão normalmente no batente pois tiveram a sua folga transferida para a sexta-feira, 30, orientada pelo governo de modo a emendar com o feriado de Finados, na próxima segunda-feira, 2 de Novembro.

Para os associados da AFPESP ( Associação dos Funcionários Públicos do Estado de São Paulo ), o presente será um show de Roberto Carlos neste sábado, na capital. Foram dois dias de inscrições para o evento, que tem número limitado de convites.

Mesmo sendo vistos por grande parte da sociedade brasileira como pessoas que levam uma “vida mansa”, é enorme e incessante a luta da categoria por melhorias em suas condições de trabalho, em suas remunerações e, consequentemente, pelo respeito alheio e dignidade. Prova disso é a frequente mobilização da Universidade Estadual de Campinas ( UNICAMP ) pela isonomia salarial com a Universidade de São Paulo (USP).

O compromisso do reitor Tadeu Jorge durante a campanha eleitoral e sua posse em 2013 foi de finalizar o processo de equiparação no segundo quadrimestre de 2015, mas até agora nem a primeira etapa foi concluída integralmente. A justificativa atual é a de que a “fonte secou”, graças à crise econômica vigente.

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Servidores públicos da prefeitura de Campinas travam vias durante passeata em Junho – Foto: G1

Em 2014, a greve dos servidores públicos das três principais universidades do estado ( USP, Unicamp e UNESP ) durou mais de 4 meses e virou piada em uma página regional do Facebook, logo em seu início. Da mesma forma, os funcionários da prefeitura de Campinas foram criticados e ironizados pela paralização de 4 meses atrás que, em determinados dias, resultou no bloqueio da Avenida  Anchieta e outras que circundam o Palácio dos Jequitibás.

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Página de humor ironiza período de paralização da Unicamp – Foto: Facebook

Quem já foi

Vinícius Domingos, 27 anos, era escriturário da Biblioteca Municipal de Promissão até Fevereiro deste ano. Decidiu se mudar para Lins, cidade maior, onde agora trabalha como recepcionista em um hospital particular. No emprego anterior, ele presenciou muitas situações de negligência do sistema. “Exceto eu e outro colega, todos lá foram contratados sem terem sequer prestado concurso ou prestaram sem um bom desempenho” – conta.

Ele conta também do não-comprometimento dos funcionários com os quais conviveu: “Arrumavam qualquer desculpa para se ausentar do local do serviço, falavam que tinham de ir ao banco, ao médico ou até mesmo conversar na rua com amigos. Outro exemplo era o “enganar o ponto” na hora do almoço. Alguns batiam corretamente o horário de saída e retorno sem se ausentar, e logo após saíam, sem hora pra voltar.”

Uma cena muito parecida com a relatada por Vinícius se tornou viral na internet este mês. A sra. Edinair Maria dos Santos foi flagrada batendo em consecutivos dias batendo o ponto na Assembléia de Goiás e deixando o ambiente na sequência. Após a exibição desta matéria na televisão, Edinair acabou sendo exonerada de seu cargo.

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Edinair é questionada sobre seu comprometimento com o trabalho e foge da repórter – Imagens: Twitter

Questionado sobre a imagem dos servidores públicos para com as outras pessoas, Vinícius, formado em História, argumenta que isso vem desde a formação do Brasil, onde leis e vantagens são alocadas ao cargo. “O principal deles é o fato de não se poder ser mandado embora. Não havendo um controle sobre produtividade, as pessoas tendem a se acomodar” – diz.

Ele falou também ao Digitais sobre a questão salarial: “Pelo pouco ou nada que meu cargo exigia de mim, eu ganhava muito além do que merecia. Chega uma hora, que o ‘não ser útil’ começa a te afetar. Nenhum dinheiro compensa ou traz a sensação de conquistar algo pelo seu empenho, pelo reconhecimento.

Quem quer ser

Tal pensamento não é o mesmo de Mateus Fernandes, 25 anos, atualmente analista de finanças júnior de uma empresa privada localizada em Jundiaí. A sua opinião é de que os salários são coerentes, principalmente no setor judiciário ou cargos policiais. “São eles que tem de manter a ordem e a máquina pública em funcionamento, então devem ser bem pagos mesmo. Uma ou outra remuneração injusta para determinados cargos existem também nas instituições particulares, não é privilégio do serviço público” – afirma.

Mateus presta concursos com frequência e já sabe qual é a carreira que pretende exercer em um futuro não tão distante:

Porém, ele é ciente das deficiências do serviço público no país e também admitiu que conhece um caso de contratação ilícita:

Quem é

Assistente de administração locada no call center da Sanasa há quase 3 anos, Cecília Gonini é uma entre os milhões de funcionários públicos que sofrem com o preconceito generalizado perante os servidores públicos. Ela contou sobre como seu trabalho é parecido com o de uma empresa privada e declarou sobre o seu sentimento ao ter de lidar com pensamentos ou atitudes desrespeitosas:

Para ela, há muitos trabalhadores de má índole e com a mesma postura também em cargos privados: “A diferença é que nas públicas tem todo um trâmite legal que torna difícil a demissão.”

De fato, a burocracia para a dispensa de um servidor público é muito maior. São corriqueiras as avaliações de desempenho nas instituições, mas mesmo em caso de baixo rendimento, o que geralmente acontece primeiro é a recolocação do indivíduo, a sua transferência para outro setor. Para ser demitido, a pessoa tem de se “esforçar” muito, no mal sentido. Este cenário é o principal alicerce do conceito da “vida mansa” acerca da categoria.

Será que um dia este conceito pode mudar? Apesar das adversidades que encara, Cecília crê que sim e falou sobre como este quadro poderia começar a se transformar:

Editado por Maria Clara Lourençon

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