Projeto visa dar auxílio psicológico a acumuladores de animais

Por Mariana Dandara

Um levantamento recente feito pelo Departamento de Proteção e Bem-Estar Animal, o DPBEA, apontou que existem 140 acumuladores de animais na cidade de Campinas. Assim como há compulsões em que as pessoas mantém um alto número de objetos, por exemplo, há também aqueles que acumulam dezenas de animais.

Diretor do DPBEA, Paulo Anselmo, em pronunciamento durante reunião. Foto: Mariana Dandara
Diretor do DPBEA, Paulo Anselmo, em pronunciamento durante reunião. Foto: Mariana Dandara

O diretor do DPBEA, Paulo Anselmo, afirma que atualmente o departamento tem acompanhado diretamente 14 casos de acumuladores. “Temos conversado e estreitado o canal de comunicação, convencido a pessoa a castrar os animais. A gente vai na casa da pessoa, buscamos, castramos e devolvemos. E a gente tem trabalhado estimulando-os a doar esses animais. Sem custo nenhum para a pessoa”, afirma.

Ele diz ainda que o objetivo é de, futuramente, tratar as pessoas – com a ajuda de psicólogos – que sofrem dessa compulsão, que segundo ele tem o nome de ‘Síndrome de Noé. “Ao invés de entrar com uma visão punitiva, que a gente percebeu que não funciona, a gente quer abrir um canal de comunicação e tentar resolver esses problemas aos poucos e num futuro próximo tratar as pessoas”, completa.

Anselmo conta que o que se vê na literatura é que o tratamento dessas pessoas é complexo, envolvendo grupos de pessoas com o mesmo problema e havendo a necessidade de uma certa insistência dos profissionais, já que há resistência e desconfiança por parte dos acumuladores.

Para Paulo Anselmo, o projeto é de grande importância devido ao alto número de acumuladores. Além disso, ele afirma que em muitos casos os animais sofrem maus-tratos. Isso se deve ao fato de que nem sempre as pessoas conseguem arcar com os gastos dos animais, deixando-os em condições ruins, vivendo em locais pequenos, onde adoecem.

Entretanto, o projeto ainda não tem data definida para começar. “Estamos em busca de uma participação da Secretaria de Saúde. Hoje a saúde mental em Campinas está se reorganizando, portanto não temos previsão para o início do projeto. E então iremos continuar resgatando e doando os animais enquanto não for possível tratar a pessoa e a acompanhando para que ela não resgate novos animais”, explica.

Repassando a experiência

A ONG Adotar Campinas, em parceria com uma psicóloga, presta auxílio a uma acumuladora há cerca de um ano. O caso está servindo como referência para a criação do projeto pelo Departamento de Proteção e Bem-Estar Animal.

De acordo com a presidente da ONG, Lúcia Helena Pereira, a acumuladora que está recebendo ajuda, e que teve sua identidade preservada por questões éticas, possui cerca de 50 gatos e 40 cães. Ela afirma ainda que devido a desconfiança da mulher, motivada pelo medo de que todos seus animais fossem retirados abruptamente dela, o trabalho tem sido feitos aos poucos. “Achamos melhor criar um vínculo com ela para que ela tivesse confiança na gente, para gente poder começar entrar na casa dela e entrar como amigos”, conta.

Lúcia afirma ainda que de todos os animais, 23 cães e 30 gatos já foram castrados, sendo estes os que são levados para as feiras de adoção regularmente. No entanto, quem escolhe qual animal poderá ser doado é a tutora deles, para que assim ela não se sinta pressionada. “O legal que a gente percebe é que ela conseguiu entender que não é só ela que sabe amar, que sabe cuidar e que a condição dos animais dela pode ser melhor e por isso passou a doá-los e parou de resgatar novos animais”, completa.

A psicóloga, Rosana Ocampos e a presidente da ONG Adotar Campinas, Lúcia Helena. Foto: Mariana Dandara
A psicóloga, Rosana Ocampos e a presidente da ONG Adotar Campinas, Lúcia Helena. Foto: Mariana Dandara

A psicóloga Rosana Ocampos, responsável pelo tratamento psicológico dado a acumuladora, afirma que as pessoas que possuem esse distúrbio de comportamento acreditam que estão fazendo o melhor pelo animal, mesmo que isso não seja compatível com a realidade.

Ela conta que os acumuladores são “pessoas comuns, que trabalham, tem uma vida social e que muitas vezes não deixam o problema transparecer. Abrem mão de roupas, de se cuidar, dos cuidados com a casa, tudo em nome dos animais.”

Rosana diz que, durante o tratamento, utiliza a mesma abordagem usada com pessoas que sofrem qualquer tipo de compulsão. “O que faço é criar primeiro um vínculo com a pessoa. O que me favorece é que além de psicóloga, sou uma protetora de animais, então converso com ela e entendo a sensação de mal estar ao saber o que acontece com os animais”, afirma. Ela diz ainda que o perfil dessas pessoas é semelhante: pessoas ansiosas e com tendência a depressão. Segundo Rosana, a causa da compulsão pode vir de algum trauma ou perda violenta pela qual a pessoa passou ou até mesmo de genética com tendência a doença.

De acordo com Rosana, o projeto é importante não só por prestar auxílio aos animais, mas também para desmistificar a ideia de que quem protege animais não está preocupado com o ser humano. Ela conta que antigamente não havia uma preocupação com os animais, e que isso fazia com que eles ficassem desamparados. Por esse motivo, os que se identificavam com a causa, passaram a ajudar, mas que isso não impede o auxílio aos humanos. “Vamos olhar para os dois lados: do animal, que precisa ser socorrido, e do humano, que está pedindo socorro, conscientemente ou não”, diz.

Caso real

O auxiliar veterinário, Cleber Barbosa, de 27 anos, tutela 16 cães e 12 gatos. Ele afirma que não recebe ajuda financeira de ninguém, se responsabilizando sozinho pelos 28 animais, alguns disponíveis para adoção, outros que ele mesmo adotou. Ele conta que resgata animais há cerca de 10 anos, mas que atualmente tem negado pedidos de ajuda por entender que já atingiu seu limite.

Cleber não se considera um acumulador e diz que o trabalho que faz é de protetor, pois quem acumula não para de resgatar, não tem condições de cuidar e se nega a doar e afirma que ele não age assim. No entanto, diz que o número de animais que possui é alto, algo que traz prejuízos para sua vida. “Atrapalha a convivência com a família, gerando muitas discussões. As vezes não posso receber visitas, ou não posso sair porque não posso deixá-los sozinhos. Deixo de viver minha vida para ajudar os animais”, conta.

Editado por Maria Clara Lourençon

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