Dívidas e superlotação impedem ONGs de resgatar animais

Por Mariana Dandara

Ao acompanhar a rotina das ONGs de Campinas e cidades da região que se dedicam a resgatar animais abandonados, seja pessoalmente, indo até aos abrigos, ou até pelas redes sociais, é comum termos acesso a relatos dos voluntários afirmando que não há condições de continuar resgatando mais animais. Seja pela superlotação no abrigo ou por contas altas nas clínicas veterinárias, as associações estipulam limites para que não percam o controle da situação, colocando em risco a qualidade de vida dos animais que tutelam.

Snoopy, cão da ONG Amor de Bicho que espera por um lar há 2 anos. Foto: Instagram Amor de Bicho Campinas
Snoopy, cão da ONG ‘Amor de Bicho’ que espera por um lar há dois anos. Foto: Instagram Amor de Bicho Campinas

É o caso da ‘Amor de Bicho’, ONG que atualmente mantém 50 cães, divididos entre o abrigo da associação e os lares temporários oferecidos por voluntários. “Resolvemos que até conseguirmos doar um bom número de animais, não podemos mais resgatar”, afirma a presidente da ONG, Carol Pimenta.

Ela conta que o abandono tem aumentado e que com a crise econômica que o país enfrenta, as doações diminuíram, dificultando ainda mais o trabalho exercido por ela e pelos demais voluntários.

Carol explica que a sociedade formulou um conceito errado a respeito das ONGs, colocando-as como as responsáveis por todos os animais de rua, em uma tentativa de obrigá-las a fazer sucessivos resgates. “A obrigação é do dono, ele que tem que zelar pelo animal durante toda a sua vida. O animal tem que fazer parte das mudanças na vida de seu dono. Vai se mudar? Leve. Está desempregado? Dá um jeito”, completa.

A ONG ‘Focinho Abandonado’, cuida atualmente de 4 cães, mas já chegou a tutelar 30 animais, sendo que sempre que o número máximo é atingido, a ONG volta a fazer resgates apenas quando o ciclo se encerra, isso é, quando todos são doados. Sendo assim motivos para não ultrapassar o número atual de resgatados, são os gastos que os cachorros geram e também a decisão de não pegar outros animais enquanto os atuais resgatados não encontrarem um lar. “Estamos com esses 4 cães que são super difíceis de doar. Então a gente não vai pegar mais nenhum outro. Porque na hora que você pega, por exemplo, um filhote, o adotante já não quer o que tem mais que seis meses. Então hoje estamos incentivando a doação desses cães que estão conosco”, afirma uma das fundadoras da ONG, Renata Negrão.

Renata diz que mesmo as vezes não atingindo o número máximo de resgatados, a ONG é obrigada a não fazer novos resgates devido a casos especiais que geram custos muito altos. “Encerramos uma conta para começar outra. Já teve casos em que gastamos 10 mil reais com o animal. Então a gente prefere ir aos poucos, conseguindo dinheiro para cuidar dos animais e ir doando para que a ‘Focinho Abandonado’ não vire um depósito de cachorros”, diz.

Cão em feira de adoção da ONG Focinho Abandonado. Foto: Mariana Dandara
Cão em feira de adoção da ONG ‘Focinho Abandonado’. Foto: Mariana Dandara

Assim como muitas outras associações, a ‘Focinho Abandonado’ não possui abrigo para os animais, que são mantidos em lares temporários. De acordo com Renata, para poder receber um cachorro em sua casa, a pessoa deve morar em Campinas e passar por uma entrevista. A ONG se responsabiliza por todos os gastos do animal – cama, comida, remédio, veterinário – de forma que a pessoa deve apenas hospedar o animal e levá-lo ao veterinário em alguma situação de urgência. O fato de não ter abrigo faz com que o número de resgates tenha que ser reduzido, afinal, para que um animal possa ser resgatado, a ONG precisa entrar em contato com os voluntários para saber se eles podem oferecer lar temporário novamente.

Com o aumento do abandono, a integrante da ‘Focinho Abandonado’ diz que o número de solicitações de resgate é muito grande, e em sua maior parte, negados pela ONG, por não ter condições de atender a todos. “Nós recebemos todo dia de 15 a 30 pedidos de resgate de animais. Estamos enxugando água de gelo”, diz.

Conscientização

É unânime entre as ONGs a ideia de que a população precisa se conscientizar quanto ao abandono de animais. Carol afirma que as pessoas precisam entender que um animal é uma vida, não um par de sapatos, que pode ser deixado de lado.

Renata, da ‘Focinho Abandonado’, compara a chegada de um animal na família com a de uma pessoa e diz que o adotante tem que entender que aquele cachorro irá durar pelo menos 20 anos e que ele deve fazer parte dos planos de quem o adotou. “Porque tem pessoas que mudam para um apartamento e dizem que o cachorro não vai. Como que ele não vai?”, contesta.

De acordo com Renata, uma proposta para diminuir o número de animais nas ruas é a identificação deles por meio de microchips, tanto em animais comprados, quanto nos adotados. “Se você encontra um cachorro na rua, passa o leitor, aparece o CPF da pessoa, e você vai saber que ele foi abandonado por aquela pessoa ou fugiu de casa. Isso vai permitir que a polícia local comece a prender ou ao menos multar essas pessoas que abandonam, porque abandonar animal é crime”, explica.

Fazendo sua parte

Sabendo das limitações que as ONGs possuem, a ideia que elas tem repassado é a de que cada pessoa pode fazer sua parte e ajudar um animal que esteja próximo a ela. “Se as pessoas começarem a resgatar esses animais, colocar dentro de casa, castrar e cuidar, já ajudaria muito. E as ONGs estão super disponíveis em ajudar essas pessoas a encontrar um lar para o animal”, afirma Renata.

“Nos revolta muito que as pessoas passem essa responsabilidade toda para a ONG, cada um deve fazer sua parte. Todos podem salvar um animal. Estamos a disposição para ajudar, mas não empurre essa responsabilidade para ONGs e protetores, pois não estamos dando conta”, diz Carol.

Editado por Maria Clara Lourençon

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