Profissionais alertam sobre problemas da venda de animais de raça

Por Mariana Dandara

É comum que pessoas que tutelam animais de raça os tenham adquirido por meio da compra. Porém, pouco se sabe sobre os problemas que podem estar ligados a venda deles. A médica veterinária Verônica Moraes alerta sobre os possíveis malefícios causados a saúde dos animais quando os mesmos são negligenciados por seus criadores.

De acordo com a veterinária, quando uma cadela não tem o intervalo entre seus cios respeitados, ela pode ter notórios problemas de saúde. “Um excesso de gestações pode gerar flacidez no útero, partos distócitos (quando a mãe não consegue “expulsar” o feto), torções uterinas, estresse da musculatura abdominal e uterina – o que torna o parto mais dolorido e desgastante – e eclampsia, que é a falta de cálcio na mãe. Além disso, vários outros tipos de problemas podem ocorrer. É preciso ter um descanso de dois a três ciclos entre uma gestação e outra para minimizar os efeitos”, afirma.

No caso dos cães machos usados para procriação, os efeitos são menores, mas também podem haver problemas. Um exemplo é a parafimose, quando o animal fica com o pênis exposto, podendo progredir para um caso de necrose, devido as feridas em uma região tão sensível, levando a amputação.

Há também casos em que é feito o cruzamento consanguíneo, ocorrido quando a mãe cruza com seu próprio filho e tem filhotes. De acordo Verônica Moraes, essa prática é perigosa, pois pode gerar anomalia e monstruosidade, sendo a primeira compatível com a vida e a segunda não. “Podemos ter cães com deficiências motoras, neurológicas, sistêmicas , e até cães que nascem incompletos, com falta de intestino, duas cabeças ou anencéfalos, que nesses casos, são classificados como monstruosidades, podendo nascer mortos ou morrer horas depois do nascimento”, completa.

A veterinária afirma ainda que existem doenças que são mais características de determinadas raças, como os bulldogs, pugs e outras que possuem nariz achatado e, devido a isso, possuem predisposição a problemas respiratórios. Cães de raça que possuem muito pelo ou muitas dobras podem, por sua vez, ter problemas de pele. Sendo assim, a veterinária completa dizendo que para ter a tutela de um cão de raça é necessário que a pessoa conheça suas particularidades, para que o animal não sofra no futuro.

Essa realidade, de acordo com a médica veterinária, não faz parte de casos raros. Ela diz que o número de criadores irresponsáveis é bem maior do que o de criadores responsáveis, e que já teve contato com animais usados para procriação em situação lamentável, citando exemplos de animais anêmicos, sem dentes, cegos, que davam voltas entre si quando eram soltos para andar – por medo da liberdade – e outros extremamente medrosos que fugiam do contato humano, devido aos maus tratos que recebiam quando estavam nos canis. “Alguns sobrevivem, outros desistem. É triste saber que as matrizes, como são chamadas as fêmeas caninas, são sugadas ao máximo e depois descartadas como um nada. Quanto mais popular a raça do animal, mais judiadas são as fêmeas e mais atrocidades acontecem”, conclui.

Adoção de animais

Flávio Lamas, vice-presidente do CMPDA e presidente da AAAC. Foto: Mariana Dandara
Flávio Lamas, vice-presidente do CMPDA e presidente da AAAC. Foto: Mariana Dandara

De acordo com o vice-presidente do Conselho Municipal de Proteção e Defesa dos Animais de Campinas e presidente da Associação Amigos dos Animais de Campinas, Flávio Lamas, há três motivos básicos pelos quais uma pessoa deve optar por adotar ao invés de comprar um animal. O primeiro é a exploração das matrizes, cio após cio, sem descanso, vistas como parideiras, usadas para gerar lucro a quem vende seus filhotes. Outro motivo é o número de animais abandonados pelas ruas das cidades – cerca de 15 mil em Campinas, segundo dados do IBGE – que sofrem passando fome, frio e muitas vezes sendo atropelados. O último motivo é considerado por Flávio como um conceito da causa animal, que nada mais é do que a ideia de que amigo não se compra, seja ele humano ou animal.

Lamas explica também que já esteve envolvido em diversos casos de resgate de animais de raça e que muitas vezes ele é convocado pelo judiciário para elaboração de laudos, como fez em um caso de cães usados para venda, em que atestou que os animais não poderiam permanecer com o proprietário que os negligenciou.

“Não somos contra animais de raça”

Flávio Lamas diz que é contra os criadores que exploram os animais, não contra os bichos propriamente. Ele afirma que incentiva a adoção de animais sem raça definida, porque “quem gosta de verdade, não gosta de raça. Se ele é preto, branco e preto, não interessa, o carinho é o mesmo”, conclui. O seu objetivo é de que não haja venda nenhuma, mas que enquanto isso não é possível, é preciso controlar os tipos de venda para eliminar os criadores de fundo de quintal, que negligenciam cães e gatos. Sua meta futura é reduzir o número de criadores de animais para então extinguir a venda dos mesmos, e afirma que a própria sociedade, ao passo que se conscientiza, vai evoluir para essa extinção.

Cadela a espera de um novo tutor em uma feira de adoção. Foto: Mariana Dandara
Cadela a espera de um novo tutor em uma feira de adoção. Foto: Mariana Dandara

Lamas afirma também que devido a essa conscientização que a sociedade vem desenvolvendo, o preconceito com vira-latas está sendo extinto. “É muito mais charmoso hoje você sair com um vira-lata do que com um cão de raça. Virou moda adotar. O carinho que antigamente não tinha, hoje tem”, completa. Sendo assim, o processo hoje está sendo inverso. De acordo com ele, atualmente são raros os pet shops que vendem animais, já que agora eles optam por disponibilizar o local para feiras de adoção.

Resgate de animais

A presidente e fundadora do grupo de proteção animal Operação Resgate, Marjorie Rodrigues, resgatou recentemente oito cães de raça vítimas de maus-tratos em um bairro de Campinas. Eram 6 spitz alemão e 2 lhasa apso, todos usados como reprodutores. De acordo com ela, os animais estavam sujos por fezes, com alergias na pele, pulgas, otites, e as fêmeas tinham infecção no útero e um delas possuía pedras na bexiga, enquanto os machos tinham infecções e ínguas perto dos testículos e todos estavam com inflamação na gengiva e sem dentes. Ela afirma também que os animais tinham fobia da luz do sol e eram muito assustados a ponto de urinarem de medo com o contato humano.

Cadela da raça lhasa apsu, usada para procriação e vítima de maus-tratos, no momento do resgate. Foto: Marjorie Rodrigues
Cadela da raça lhasa apso, usada para procriação e vítima de maus-tratos, no momento do resgate. Foto: Marjorie Rodrigues

De acordo com Marjorie, foi feito um termo circunstanciado no qual foi determinado que o proprietário dos animais pague 3 cestas básicas para uma instituição de caridade de Campinas, com valor estipulado pelo juiz. Enquanto isso, os animais permanecem sob a tutela de Marjorie, em local seguro.

Marjorie afirma que os cães usados para procriação são vistos pelos criadores como máquinas de fazer filhotes e se diz contra essa prática a qual ela caracteriza como exploração. Ela diz ainda que esses animais vivem em pequenas gaiolas, que não sabem brincar, desconhecem o que é carinho humano e vivem doentes, além de serem extremamente medrosos devido a forma como são tratados e e muitas vezes viverem em condições precárias de higiene. “Não sou a favor dessa exploração. Existem muitos animais abandonados nas ruas precisando de uma família responsável, e não é a raça que vai dizer se vai te dar mais amor ou não. As pessoas precisam ser conscientes e optar pela adoção responsável em vez de contribuir com essa exploração”, afirma.

Caso real

O planejador de qualidade, Rogério Terra, 38 anos, comprou um filhote de cachorro da raça boxer. O animal, quando foi vendido, aparentava ser saudável, mas um mês após ser comprado, morreu devido a má formação genética.

Quando efetuou a compra do animal, o fez em um sítio, por meio de um rapaz que tinha uma cadela da raça boxer e que havia dado cria. Com a morte do filhote, Rogério recebeu o dinheiro de volta e comprou outro boxer, dessa vez de uma criadora certificada pelo Kennel Club de Campinas, mas o cão também tinha problemas de saúde. “No segundo caso o meu cachorro morreu com 4 anos, devido a epilepsia”, completa.

Editado por Izabela Eid

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s