A escola de futebol no Campo dos Sonhos

Por Guilherme Mazieiro e Marcel Kassab

“Treinar futebol era um sonho meu, que agora estou passando para o próximo. Para a molecada. E também acabo afastando eles das drogas”. A frase é dita por Aldemir Siqueira, 43 anos, que não consegue esconder a satisfação quando fala sobre seu trabalho voluntário. Técnico de serviços gerais durante a semana, ele veste o uniforme e calça as chuteiras surradas para, aos sábados, dar aulas de futebol para cerca de 60 garotos que vivem no Campo Grande, região periférica de Campinas.

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Uniforme é bancado por Aldemir, à direita (foto: arquivo pessoal)

Natural de Iacanga (a 369 km de São Paulo), município que até 2010 tinha pouco mais de 10 mil habitantes, Aldemir tinha o mesmo sonho de quase todos os garotos que grudavam os ouvidos no rádio para escutar o que faziam Zico e Sócrates, seus maiores ídolos. Trabalhando no roçado desde pequeno, foi obrigado a descobrir o futebol sozinho.

”O lazer para as crianças que moram em regiões periféricas é extremamente importante. É sabido que elas passam por dificuldades em relação a outras crianças e adolescentes da mesma faixa etária mas que são de classes superiores. Muitas vezes, funciona como uma ”válvula de escape” para que elas não se aproximem do crime e violência, frequentes em comunidades pobres”, ressaltou o psicólogo João Carvalho.

A frustração de não conseguir se tornar jogador de futebol não o impediu de levar o mesmo sonho para as crianças do Jardim Rossin, bairro na região do Campo Grande. De segunda a sexta, percorre 25 quilômetros para trabalhar na Unicamp. Aos sábados, levanta às 6h para começar às 8h a aula para cerca de 60 crianças e adolescentes.

Uma das maiores glórias de Adê, como é conhecido no bairro, foi ganhar um campeonato sub-16 no Campo Grande em 2009. Dez jogos e dez vitórias. “Foi 100% de aproveitamento. Jogamos bonito”, ressaltou.

Sua esposa, Rosimere Siqueira, auxiliar de almoxarifado no Hospital de Clínicas da Unicamp, é uma das únicas pessoas que de alguma forma contribui para o trabalho voluntário. “Ela quem lava os uniformes, seca e passa para os meninos jogarem no final de semana”, contou. Desde o apito até a última camisa e as redes foram compradas com o dinheiro do seu salário de funcionário público. “Só de rede foram R$ 800”, destacou.

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Aldemir Siqueira gasta em média R$ 300 por mês para manutenção de equipamentos e limpeza dos uniformes (foto: Guilherme Mazieiro)

Reflexo da Infância

Morava na roça trabalhava desde criança. Vê nos meninos que treina uma vaga lembrança do que era quando pequeno. “Eu não tinha muita coisa e eles também não. Tento dar a oportunidade que eu não tinha”.

‘’Minhas irmãs não jogavam comigo e ficavam brincando com outras meninas. O que eu fazia era colocar tijolos no gramado, improvisar dois gols e sair driblando. E só valiam os gols que fossem de cobertura’’, relembra com saudosismo.

No meio da década de 1980 saiu de Iacanga após saber da oferta de emprego em Campinas, onde conseguiu se firmar até os dias de hoje. Além da vontade de se habituar e instalar em uma outra cidade, carregava a vontade de passar o futebol para quem, como ele, não teve condições de treinar e aprender. Tão pouco tentar.

‘’É uma satisfação para mim. Eu penso que é importante para eles uma atividade dessas. Alguns deles trabalham, e sábado é o único lazer”

O campo do Esport Club Rossin fica no bairro homônimo, no Campo Grande, em Campinas
O campo do Esport Club Rossin fica no bairro homônimo, no Campo Grande

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