As adversidades de uma energia sustentável

Por Raíssa Bazzo

A crise hídrica vem afetando, diariamente, a população do país. Porém, a falta de água faz com que tenhamos impactos bem maiores do que simplesmente não poder consumi-lá. Um exemplo disso é a energia que, com a escassez de água, só aumenta seu valor, já que, a produção primária de energia, no Brasil, é feita através de usinas hidrelétricas.

Bandeja de cana de açúcar, onde as mudas chegam ao produtor para serem plantadas. (Foto: Raíssa Bazzo)
Bandeja de cana de açúcar, onde as mudas chegam ao produtor para serem plantadas. (Foto: Raíssa Bazzo)

Tudo poderia ser diferente se as usinas conseguissem produzir energia feita a partir do bagaço da cana de açúcar. Para isso, torna-se necessário incentivo fiscal e investimentos tecnológicos que, em grande maioria, é feita pelos próprios produtores, de forma privada. Algo que deveria partir do governo, já que a causa é de interesse público e sustentável.

Felipe Marques, supervisor de planejamento financeiro da usina Cana Verde, explica a produção através da queima do bagaço da cana em caldeiras de alta pressão. “O bagaço queimado a alta temperatura produz vapor que movimenta uma turbina, que movimenta o gerador, e assim é produzida a energia”, descreve ele.

O processo de produção de energia pelo bagaço já é originário há tempos nas usinas, o que vem sido modificado é a percepção das usinas no investimento de equipamentos aperfeiçoados a fim de produzir energia excedente e ter capacidade de venda para o mercado. É como diz o estudante de agronomia Caique Bertoni, “eu já conhecia o processo desde que entrei na faculdade, mas com o estouro nos preços das contas de luz e aperfeiçoamento de produtores, o assunto passou a ser mais debatido nas aulas.”

O país necessita de fontes alternativas de energia que complementem o sistema hidrelétrico e, a energia gerada a partir da cana de açúcar atinge o ápice de produção nos meses de maior seca, entre abril e novembro, estando concentrada em grandes centros de consumo. Ou seja, produz-se bioenergia quando e onde precisa.

“É importante ressaltar que toda usina produz energia, mas é uma minoria que produz energia para consumo interno e para venda,” afirma o supervisor. Dessa forma, ele explica que os projetos de cogeração de energia (produção simultânea de energia térmica e mecânica a partir de um único combustível, sendo transformada em energia elétrica através de um alternador) que estão em destaque são projetos onde a usina produz energia para consumo interno, gerando excedente que pode ser comercializado. A exemplo disso, a CPFL, que compra energia de várias usinas.

O potencial de crescimento desta fonte de energia é promissor, porém se faz necessário investir na modernização de equipamentos. Segundo Felipe, o único incentivo que o setor contava era o financiamento do BNDS (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), que até ano passado possuía linhas de financiamento pra esse tipo de investimento. Entretanto, com os ajustes fiscais, o banco cortou benefícios dessas linhas, aumentou a taxa de juros e diminuiu o percentual de financiamento. O único incentivo era a linha do BNDS.

Ele afirma ainda que, além de não haver nenhum apoio, o governo dificulta os investimentos à medida que começou a atuar no mercado de energia e definir preços do mercado. “Quando o governo da Dilma resolveu cortar o preço da energia e diminuir o valor da conta, e comemorou com isso, o governo estava atrapalhando com baixos preços para remunerar os negócios”, refuta. Foi devido à grande demanda e pouca oferta de energia que houve o estouro de energia no ano de 2014.

O investimento governamental é tão precário que, muitos pequenos produtores de cana de açúcar não dispõem de condições para produzir energia. É o caso de Edson Berger, proprietário de fazenda no interior de São Paulo, “eu não tenho escala suficiente que justifique o investimento, que deve ser privado. Isso só é viável para usinas que tem grande escala de produção.” Para ele, sua plantação é destinada, única e exclusivamente, para produção de açúcar e álcool.

O supervisor de planejamento explica melhor: “a viabilidade do negócio é dependente de dois fatores; preço e investimento por capacidade de geração de energia e venda pro sistema.” Segundo ele, no cenário atual, em que o mercado tem alta demanda e pouca oferta, o comércio passa a ser atrativo, porém com o mercado de energia altamente regulado pelo governo, qualquer alteração na política de preço da energia pode prejudicar a viabilidade do mesmo.

A energia elétrica é produzida 100% pelo bagaço, mas atualmente, além do bagaço, existem várias usinas coletando, também, a palha que fica no campo após a colheita mecanizada, podendo ser queimada e gerar ainda mais energia.

Biomassa no combustível

A biomassa para o combustível é mais inovador do que a energia. Atualmente, centros de pesquisa e empresas investem no aperfeiçoamento dessa nova tecnologia a fim de tornar mais viável a níveis comerciais de produção. É a partir da ação de micro-organismos e bactérias que quebram a célula do bagaço (celulose) em componentes menores (açúcares). A partir disso, é passado por um processo de fermentação e assim, é produzido o álcool.

Entretanto, trata-se de uma tecnologia pouca desenvolvida e ainda questionada por sua viabilidade. O mercado atual de etanol é regulado pelo governo e, na medida em que o governo regula o preço da gasolina, ele impede o aumento da produção de álcool e são poucas as usinas que estão dispostas a fazer tamanho investimento.

Editado por Beatriz Bressam

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