Com uso crescente entre as mulheres, coletor menstrual ainda não é regulamentado pela Anvisa

Por Bárbara Cardozo

Nunca na história desse país se falou tanto sobre coletor menstrual. Apesar do copinho de silicone existir desde a década de 30, ele só foi cair no gosto da mulherada recentemente – a única empresa que fabrica o produto íntimo no Brasil anuncia um crescimento de 938% nas vendas no último ano e a contratação do dobro de revendedores (pessoas físicas ou lojas). Porém, em meio a tanta propaganda positiva, surge um alerta: o coletor menstrual ainda não tem a venda regulamentada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Vai de copinho? Coletor menstrual pode não ser a melhor alternativa para todas as mulheres! (Arte: Camila Cardozo)
Vai de copinho? Coletor menstrual pode não ser a melhor alternativa para todas as mulheres! (Arte: Camila Cardozo)

Procurada pela equipe do Digitais, a Anvisa explicou que os coletores ainda não foram regulamentados por uma dificuldade em classificá-los como cosmético ou produto para a saúde. “Este produto se enquadra nas duas categorias, mas existem alguns impedimentos: a resolução que regulamenta os cosméticos trata apenas de produtos descartáveis – e o coletor menstrual pode ser lavado e reutilizado; já os produtos para a saúde são aqueles destinados à prevenção, tratamento, diagnóstico, reabilitação ou anticoncepção, e o coletor menstrual não se destina para nenhum desses fins”. Para explicar melhor os critérios adotados pelas duas categorias, a Anvisa exemplificou o diafragma

A Anvisa explicou, ainda, que a regulamentação dos coletores menstruais deve acontecer logo, pois será criado um Grupo de Trabalho para Categorização de Produtos, que vai ajudar a definir melhor a classificação de artigos que, como o copinho, não se enquadram nem como cosmético e nem como produto para a saúde. O órgão recomenda que os produtos só sejam comercializados depois de devidamente regulamentados.

Como funciona? 

O coletor menstrual é um copinho de silicone flexível com aproximadamente 4 centímetros de diâmetro. O modo de utilizá-lo é bem parecido com o do absorvente interno: deve ser introduzido na vagina para coletar (por isso, o nome) o sangue menstrual e, depois de um certo período de tempo, precisa ser retirado para que esse sangue coletado seja devidamente descartado e o produto higienizado com água e sabão para que a mulher possa continuar utilizando-o. Há controvérsias sobre o tempo de uso recomendado e, enquanto o site da fabricante nacional afirma que o copinho pode ser usado por até 12 horas, alguns profissionais da saúde recomendam que ele não permaneça dentro do canal vaginal sem ser higienizado por mais de 4 horas.

Hoje, a principal forma de adquirir um coletor é via internet – ou pelo site oficial da única empresa que fabrica o produto íntimo no Brasil ou pelos sites de uma das 30 empresas estrangeiras que comercializam o copinho e entregam no país – e pelas revendedoras autorizadas da fabricante nacional.

Desistência

A enfermeira Bela Sairon tinha interesse em usar o coletor menstrual para ir a praia e a academia, pois não se adapta bem ao absorvente interno. Ela pesquisou por um ano sobre o assunto, mas acabou desistindo de adotar esse método por não sentir segurança nas informações que encontrou. “Há muitos blogs falando sobre o assunto, mas muitos são pagos para fazer propagandas. Conversei com mulheres na internet que disseram ter usado e adorado, mas, por serem leigas, elas exaltavam muito a parte prática e desconheciam praticamente qualquer aspecto relacionado à saúde. Pesquisei em sites de artigos científicos e nada encontrei sobre coletores menstruais, e os colegas da área da saúde com quem conversei não tinham nem sequer ouvido falar nisso. Achei tudo muito estranho”.

Bela também desconfiou das contradições que existem a respeito do uso do coletor menstrual. “Li algumas reportagens que diziam que não é recomendável o uso para quem é alérgico ao látex, mas ele não é feito de silicone cirúrgico? Também havia profissionais entrevistados que não recomendavam para quem tem candidíase recorrente, mas o fabricante diz exatamente o contrário”.

Todos esses rumores inconclusivos e a falta de regulamentação da Anvisa fizeram com que Bela desistisse de adotar o coletor menstrual. “O fabricante alegou não ter aprovação da Anvisa por não ser classificado como um produto para a saúde. Ok, mas é só isso? Não há outra forma de regulamentação? Não há nada no Brasil que regulamente esse tipo de produto”, questiona.

(Arte: Bárbara Cardozo)
(Arte: Bárbara Cardozo)

Contraindicações

O coletor menstrual é feito de silicone, material hipoalergênico e flexível, que não deve causar desconforto para as mulheres se utilizado corretamente. O Dr. Fábio Laginha, ginecologista e membro da Associação de Ginecologia e Obstetrícia de São Paulo, explica que o copinho pode ser tranquilamente usado por mulheres que tem conhecimento do próprio corpo. “Se a mulher sabe como localizar o colo do útero, se ela já colocou um diafragma antes de uma relação sexual, ela conseguirá tranquilamente colocar um coletor menstrual. Em outros países, ele é vendido em farmácias, supermercados, o uso é bem simples”, comentou.

Mas, Laginha alerta para alguns casos em que a mulher deve evitar o uso do coletor menstrual e buscar outra opção. “Mulheres no pós-parto, com algum tipo de infecção ou anomalia ginecológica, com um fluxo muito intenso, devem consultar o seu médico antes de adotar o coletor menstrual ou evita-lo”.

Outras condições também restringem o uso do produto, como, por exemplo, o uso do DIU, já que a combinação do fio com o copinho pode fazer com que o dispositivo se desloque e prejudicar o seu funcionamento correto. E é preciso ficar atenta também ao tamanho ideal do produto para o seu corpo, pois existem tamanhos diferentes de coletores menstruais – que variam dependendo da idade e da quantidade de filhos – e, caso a mulher opte por um tamanho maior do que o que ela deveria estar usando, o copinho pode empurrar a uretra e aumentar os riscos de infecção urinária.

Porém, Laginha deixa bem claro que o autoconhecimento é tanto a saída como um benefício alcançado por quem opta pelo uso do copinho. “Se a mulher tem autoconhecimento suficiente, ela logo percebe alguma alteração em seu corpo e interrompe o uso do coletor. Mas, se ela não tem, essa é uma boa forma de estimular as mulheres a conhecerem o funcionamento do próprio corpo”.

O ginecologista também recomenda que um profissional da saúde seja procurado caso exista alguma dúvida sobre como colocar o coletor. “Qualquer profissional da saúde pode orientar a mulher sobre como introduzir o coletor no canal vaginal, ela não precisa agendar uma consulta com um ginecologista. Caso ela tenha algum problema e não consiga retirar o produto por ter colocado errado, ela deve procurar imediatamente uma unidade de pronto atendimento”, diz.

As recomendações são de que o coletor seja dobrado antes de ser introduzido no canal vaginal. Caso seja inserido corretamente, ele se desdobra dentro da mulher e adere ao canal. Porém, se essa introdução for feita de maneira equivocada, a sucção criada para retirar o copinho não o deixa sair e pode machucar. A mulher não deve precisar forçar para que o coletor saia, por isso, se a retirada estiver muito complicada, é sinal de que está na hora de procurar um médico.

Sustentabilidade e economia

Existem dois aspectos positivos em relação ao coletor menstrual que não estão relacionados à saúde da mulher: o impacto dele no meio-ambiente e no bolso.

A primeira vista, o copinho parece caro. É preciso desembolsar R$ 79,90 (preço que consta no site oficial do fabricante nacional) para comprar apenas um coletor menstrual. Mas, se higienizado e armazenado corretamente, o coletor pode ser utilizado por cinco anos, e o valor desembolsado para comprar o copinho é equivalente a um ano de absorvente – ou seja, o mesmo valor é economizado por outros quatro anos.

Além de diminuir os gastos, o uso do coletor menstrual também diminui as agressões ao meio ambiente. Uma mulher descarta cerca de 9 mil absorventes durante o seu período fértil, sendo que um absorvente demora aproximadamente 450 anos para se decompor. Como o coletor menstrual pode ser utilizado por mais tempo antes de ser descartado, ele é uma alternativa mais sustentável.

(Arte: Bárbara Cardozo)
(Arte: Bárbara Cardozo)

Editado por Bárbara Pianca

1 comentário

  1. Apesar de ainda não ser regulamentado pela Anvisa, o coletor menstrual existe desde a década de 1930 e já é utilizado em massa em vários países, como bem disse o médico entrevistado. Também ainda não há nada comprovado, cientificamente, que o desabone.
    Já o desconforto dos absorventes internos e externos é muito grande… e todas sabemos a quantidade de químicas que vai em cada um deles, o que pode alterar nossa flora vaginal.
    Eu uso o coletor há meses e não tenho absolutamente NADA para reclamar. O conforto, a liberdade, a economia, a higiene que ele proporciona não tem preço!!!!! A gente realmente esquece que está menstruada!!!!
    Há alguns grupos de discussão na internet sobre coletores, como esse grupo, exclusivo para mulheres (para quem tiver interesse em conhecer mais): http://www.facebook.com/groups/inciclocoletormenstrual

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