Imposição religiosa na infância pode prejudicar desenvolvimento psicológico, afirmam especialistas

Por Ricardo Andrade

A transmissão de tradições religiosas para os descendentes é um hábito comum na sociedade. Entretanto, quando esse processo é feito de forma inadequada as crianças podem sofrer traumas emocionais e psicológicos. Em 1974 o escritor americano Stephen King lançou o livro “Carrie, A Estranha”. O best-seller, que ganhou sua terceira adaptação para o cinema em 2013, conta a história de uma jovem oprimida pelo fanatismo religioso da mãe e que por conta disso vive isolada e sendo humilhada na escola. O livro é uma obra fictícia, mas na vida real um comportamento impositor por parte dos pais também pode causar problemas de relacionamento nos filhos.

As capacidades de pensar criticamente e aceitar ideias e valores diferentes podem ser comprometidas pela imposição religiosa na infância. É o que afirma a pedagoga e orientadora educacional Thais Bozza. Na visão dela, a imposição de regras e pensamentos religiosos nas crianças pode fazer com que elas incorporem essa rigidez e autoritarismo como traços de suas personalidades. Segundo a pedagoga, a consequência dessa mudança na personalidade pode fazer com que as crianças se tornem inflexíveis e com uma mentalidade extremamente fechada. “A criança pode se tornar uma pessoa que não aceita diferenças ou questionamentos, pois passou a vida sofrendo imposições da família ou da instituição religiosa. Isso pode torna-la uma pessoa muito fechada em determinadas regras, incapaz de fazer um questionamento, uma reflexão própria ou aceitar algo que seja diferente dos seus valores”; analisa.

Thais Bozza complementa sua análise relatando uma experiência vivida em 2012, na escola em que trabalhava como orientadora educacional. A pedagoga conta que uma de suas alunas do 9º Ano do Ensino Fundamental sofria uma forte influência religiosa dos pais, que a faziam seguir rigidamente as suas doutrinas e monitoravam todas as atividades dela. O resultado dessa imposição era o isolamento da aluna em relação às outras crianças. “Ela não falava nada, ficava muda e não se relacionava com a turma. Os pais a proibiam de ver filmes ou vídeos que tivessem alguma cena de violência ou sugestiva ao sexo. Quando as aulas abordavam assuntos como sexualidade, namoro ou drogas ela tinha que sair da sala. Não dava pra saber o que ela achava de tudo isso, se sentia raiva por ser deslocada ou se sentia bem por estar seguindo sua religião, ela não comentava nada sobre isso”. De acordo com a pedagoga, essa imposição prejudicava o aprendizado da aluna, pois ela perdia a chance de aprender qualquer conteúdo que seus pais considerassem inapropriados.

A coerção religiosa por parte da família pode acabar levando as crianças a seguirem um caminho inverso. Foi o que aconteceu com o jovem de 21 anos e tecnólogo em construção naval, João Francisco Casale. Na infância, Casale teve que seguir as tradições católicas por influência da família, mesmo sem ter uma real noção do significado daqueles gestos. Com o passar do tempo, o jovem se tornou ateu e hoje afirma que as pessoas devem escolher sua religiosidade por conta própria. “Eu cresci em uma família católica e por isso fui coagido pelos meus pais a fazer catequese e crisma, isso tudo durou uns seis anos, na época eu não possuía uma opinião própria formada ainda. À medida que fui crescendo e amadurecendo passei a concordar cada vez menos com o que era me ensinado, foi quando entrei no Ensino Médio que decidi me tornar ateu. Acredito que a compreensão espiritual vem com o tempo e o amadurecimento. Se um dia eu tiver filhos, eu não irei impor religião nenhuma a eles, são eles que decidirão o que querem para vida deles”; afirma Casale.

Faça o que eu faço

Segundo a psicóloga infantil Nicole Donato, a imposição rígida de crenças por parte da família impede que a criança desenvolva uma personalidade sólida e independente, pois ao agirem dessa forma os pais fazem com que os filhos sejam apenas o que eles desejam. A psicóloga também afirma que para transmitir religiosidade à criança de forma saudável é preciso haver uma conformidade entre a postura dos pais e os ensinamentos religiosos que transmitem: “O grande problema hoje não é a imposição de uma religião, mas o fato de agirmos incongruentes às crenças das quais queremos que a criança também tenha. Os adultos têm a mania de subestimar a capacidade de raciocínio e síntese da criança, que automaticamente percebe que o pai ou a mãe não são ou não fazem aquilo que o obrigam, por exemplo. Quando a religião entra em conformidade com as atitudes, a criança tende a seguir aquilo livremente, pois tem no adulto um modelo a ser seguido”.

Na visão de Nicole Donato, quando a religião é passada naturalmente e sem uma relação de imposição ela pode contribuir muito para o desenvolvimento psicológico. “A espiritualidade e a religião caminham juntas e auxiliam o ser humano a encontrar um sentido para sua vida, e os distanciarão desse vazio existencial causado pela pouca tolerância à frustração”; conclui.

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(Arte: Ricardo Andrade)

Editado por Isabella Pastore

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