Na ‘contramão’ do pop, DJ’s trazem estilos alternativos às pistas de dança

Por Fernando Corilow

Para quem está antenado na música pop atual, especialmente a estrangeira, é comum relacionar os disk-jockeys (ou DJ’s) com a música eletrônica. Mas diferente dessa tendência musical tão conhecida no mundo inteiro, ultimamente alguns DJ’s vêm investindo numa sonoridade bastante diferente, e que busca trazer ainda mais a música brasileira às pistas de dança, com estilos como a MPB e o samba. E os próprios profissionais que apostam nesse estilo alternativo à música pop das massas garantem que este é um movimento que vem crescendo nos últimos anos.

Desde a época das discotecas, nos anos 70, e do surgimento da música eletrônica, nos anos 80, os DJ’s vêm animando festas eventos com suas batidas e mixagens de sons, baseando seus repertórios, principalmente, nos grandes astros da música pop. Mas um grupo de DJ’s vêm buscando dar uma cara mais brasileira às pistas de dança – e menos ligada ao movimento pop. Fazem parte destes DJ’s, por exemplo, o DJ Cláudio Costa, que têm mais de quarenta anos de carreira e já tocou com grandes nomes da música do país, como Tim Maia; e Lucas Barata, o DJ Barata, um soteropolitano que cresceu ouvindo “muita música brasileira”, chegou em 2001 a São Paulo, envolveu-se com o radialismo livre e hoje já possui pouco mais de dez anos de carreira como disk-jockey.

Para o DJ Barata, esses estilos 'alternativos' são, na verdade, "as artérias principais de locomoção dos meus afetos, são meu lado A". (Foto: Davi Moraes | Divulgação)
Para o DJ Barata, esses estilos ‘alternativos’ são, na verdade, “as artérias principais de locomoção dos meus afetos, são meu lado A”. (Foto: Davi Moraes | Divulgação)

Barata explica que o estilo que propõe é como que uma “alternativa às músicas que dominam os meios de comunicação” – no repertório do DJ, por exemplo, estão gêneros como samba, bossa nova, jazz e soul. O DJ conta que vê a discotecagem como “uma poderosa ferramenta de expressão artística e política”. O repertório e o trabalho desses DJ’s, portanto, funcionam até como um manifesto de uma “cadeia consistente de contra-fluxo” no cenário musical, como explica Barata.

Cláudio Costa, que desde a infância tocava em festas familiares, teve suas principais influências no jazz e nas grandes orquestras. Ele conta que seu público “curte muito a música brasileira dos anos 60, 70 e da Jovem Guarda”, e relata que percebe uma mudança importante neste cenário musical nos últimos anos.

No repertório desses DJ's, estão estilos como samba, MPB, jazz, soul e muita música brasileira (Foto: Fernando Corilow)
No repertório desses DJ’s, estão estilos como samba, MPB, jazz, soul e muita música brasileira (Foto: Fernando Corilow)

Na formação musical destes DJ’s, existe muita gente que dedica seu trabalho ao incentivo da música brasileira e de estilos alternativos à música de massa. Um desses profissionais é o Discotecário Nilson, que possui uma banca que vende vinis de gêneros como rock, samba, MPB e bossa nova no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp há mais ou menos 20 anos. ‘Nilsão’, como é conhecido, é considerado um “professor” para muitos DJ’s que investem nesse estilo. Ele conta que chegou a ensinar algumas técnicas e colaborou com a construção do repertório desses profissionais. Nilsão, que não se considera um DJ, mas que gosta de “fazer uma discotecagem se possível, sem muita firula”, reconhece que foi importante para o começo da carreira destes profissionais.

Crescimento

Uma reportagem do Digitais, publicada em março deste ano, mostrou que a procura por cursos de DJ em Campinas cresceu mais de 200% nos últimos oito anos. Barata explica que muito desse crescimento se deve à Internet. A internet gerou “canais de comunicação mais horizontais, e isto permitiu que quem rezava fora da cartilha do poder e da mídia de massa se articulasse melhor”, afirma. Para ele, por conta desse novo cenário, abriu-se mais espaço para os DJ’s que exploram estas sonoridades alternativas à música pop.

Público

Todas essas mudanças abriram mais espaço, também, para o crescimento do público. É o caso da estudante de Arquitetura e Urbanismo Gabriela Barea, que começou a frequentar eventos com essa sonoridade alternativa há quatro anos, quando entrou na faculdade. “Apaixonada por música brasileira”, ela conta que o que torna diferente o trabalho desses DJ’s “é a emoção com que fazem isso. A identidade brasileira, o orgulho da nossa cultura. Isso é muito forte, e transparece na hora de tocar”, revela. Gabriela também explica que o clima desses eventos também é um atrativo ao público, pois “é um ambiente mais tranquilo. As pessoas vão parar curtir, sem faltar com respeito a ninguém.”

Barata classifica seu público como um “público que se interessa por música e corre atrás dela, o que acaba, naturalmente, o fazendo mais bem informado musicalmente também.” O DJ finaliza com um alerta sobre essa nova onda musical: “Hoje, temos uma nova cena de música autoral interessantíssima no Brasil, e o expediente está só começando. É bom eles se segurarem que vamos pra cima deles!”

Editado por Ricardo Magatti

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