Os pontepretanos do lado de fora

Por Letícia Oliver

Neste domingo (17), nenhum ingresso foi vendido. Com os portões fechados, Ponte Preta e São Paulo se enfrentaram pela segunda rodada do Campeonato Brasileiro de 2015. Os olhos fixos na fachada do Majestoso pareciam trazer muitas memórias para o aposentado Antônio Moacir, de 62 anos. Solitário, ele se apoiava nas cercas colocadas para organizar as filas das bilheterias do Estádio Moisés Lucarelli, em Campinas. “É triste não estarmos lá dentro, mas o nosso coração está no estádio junto com os jogadores, independente de ter público ou não”, afirmou o “pontepretano desde criancinha”, como o próprio seu Antônio se define.

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Seu Antônio, 62 anos: o olhar atento ao Majestoso (Foto: Letícia Oliver)

A punição dada pela CBF veio após o incidente ocorrido em Joinville em novembro do ano passado, quando a torcida da Macaca se envolveu em uma confusão generalizada. O locutor do estádio catarinense teria provocado os visitantes ao final do jogo, como mostram as imagens divulgadas durante a transmissão. Na ocasião, a Ponte Preta perdeu por 3 a 1 para o time da casa, em partida válida pela 35ª rodada da Série B do Brasileirão.

“Hoje vai ser 2 a 0 para a Ponte”. Noventa minutos depois, Seu Antônio erraria o palpite, mas pode comemorar a vitória: os campineiros venceram pelo placar simples de 1 a 0, belo gol de Renato Cajá aos 13’ do primeiro tempo.

Antes disso, porém, um casal de pontepretanos que vestia uma camisa idêntica estacionou e desceu do carro – em dia de jogo ‘normal’, eles só conseguiriam aquela vaga ali, bem em frente ao estádio, se chegassem muitas horas antes do apito inicial do árbitro. Mas a praça estava vazia. Silêncio. Rodrigo Sena, de 25 anos, e Gabriela Andrade, de 27, são casados. Amor que se estende às arquibancadas e hoje, no caso, às imediações dele. “Aqui é o lugar que a gente se sente mais próximo da Ponte Preta. Mesmo sem poder entrar, de alguma forma a gente quer dar boas energias para o time para conseguir o resultado dentro de campo”, disse ele. “O pior é que uns fazem e todos pagam. Os torcedores que querem assistir aos jogos pagam pelos vândalos”, comentou Gabriela sobre a punição.

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Rodrigo e Gabriela: amor também pela Ponte Preta (Foto: Letícia Oliver)

Ainda antes do jogo e a poucos metros dali, um grupo uniformizado de preto e branco entoava cânticos de incentivo ao som da bateria, regado a churrasco e cerveja – é a sede da Torcida Jovem da Ponte, a TJP, principal organizada ligada ao clube. “A torcida da Ponte é muito apaixonada. Aonde quer que a Ponte jogue, a torcida está lá. Hoje não seria diferente. É estranho estar aqui na frente do estádio e não poder entrar, é muito triste”, declarou Chiquinho, presidente da TJP.

Aos 43 anos de idade, Chiquinho é membro da torcida há mais de vinte anos. Nos últimos quatro, assumiu a presidência do grupo. “Já vi muita coisa. Coisas boas, coisas ruins, mas isso faz parte do futebol. Acho que a punição foi injusta porque a culpa foi do locutor”, afirmou.

“Perde em arrecadação e em motivação. Num jogo grande como o de hoje, chutaria uns R$ 100 mil. Sem contar que os jogadores já deram declarações na imprensa dizendo que sentem falta do apoio da torcida. Achei a punição injusta, em termos. Aconteceu a briga, mas acho que deveria perder mando de campo. Para as próximas punições, a CBF deveria repensar”, opinou a torcedora Midian Lemos, de 23 anos, que não é da organizada. Além de não arrecadar, a Ponte teve um prejuízo de R$ 35.197,68, conforme anunciado pelo sistema de som do estádio.

O outro lado da torcida organizada

“A torcida organizada é muito marginalizada. Estamos tentando mudar essa imagem, é difícil, mas tenho certeza que vamos conseguir”. Com essa declaração, Chiquinho contou sobre os projetos sociais que a entidade promove no município. Na tarde deste sábado, a Torcida Jovem realizou uma ação social no Jd. Satélite Íris III, região Noroeste de Campinas. Membros da organizada estiveram na Casa de Maria de Nazaré, que atende crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social, e levaram comidas, doces e refrigerantes. O mascote oficial do clube e os laterais João Paulo e Jeferson também participaram do evento. “Foi uma festa maravilhosa”, concluiu o presidente.

TJP marca presença na Casa Maria de Nazaré: ação social para crianças carentes do Jd. Satélite Íris III, em Campinas (Foto: Divulgação)
TJP marca presença na Casa Maria de Nazaré: ação social para crianças carentes do Jd. Satélite Íris III, em Campinas (Foto: Divulgação)
Os laterais João Paulo (à esquerda) e Jeferson (à direita) e o Presidente da TJP, Chiquinho (ao centro) (Foto: Divulgação)
Os laterais João Paulo (à esquerda) e Jeferson (à direita) e o Presidente da TJP, Chiquinho (ao centro) (Foto: Divulgação)

Idosos, mulheres, crianças, casais e torcedores organizados. Perfis diferentes, opiniões divergentes, mas todos unidos num só ideal. Um ideal chamado Associação Atlética Ponte Preta. Um time centenário, sem nenhuma estrela para estampar no peito, mas com a capacidade de mover sua torcida para o Majestoso mesmo quando ela não pode entrar.

Editado por Isabella Pastore

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