Histórias escritas por fãs ganham o público brasileiro

Por Ana Carolina Pertille

Você já pensou em ter a possibilidade de mudar o desfecho do personagem daquele livro que você tanto gosta? Ou então colocá-lo em situações nunca antes imaginadas? Quem sabe talvez encontrar um novo amor para ele… Tudo isso e diversas outras coisas podem ser encontradas nas fanfictions.

O termo fanfiction – ou apenas fanfic – significa em tradução literal “ficção de fã”, ou seja, uma história criada por um fã. Trata-se de contos, romances ou pequenas narrativas que não fazem parte do enredo oficial de livros, séries, novelas, filmes, mangás, entre outros, podendo envolver até mesmo integrantes de bandas. As fanfics aparecem como uma “continuidade” ou uma “outra versão” daquilo que já existe, impulsionado pela curiosidade de saber o que acontece depois da conclusão de uma história.

Não se sabe ao certo quando as fanfics surgiram, mas há vários anos elas vêm reunindo pessoas com os mesmos interesses e ídolos.

Quando tinha apenas 12 anos, Walkiria Pompeo – fã assumida de Harry Potter – não sabia se a saga do bruxo já havia sido encerrada. Com a ajuda da internet, ela pesquisou e o que encontrou não fazia parte do enredo original. “Encontrei uma fanfic Severo Snape e Hermione Granger e fiquei sem entender. Procurei o significado do termo e descobri que eram histórias feitas por fãs”, conta. “Foi no Orkut que eu comecei ler diversas histórias, fui descobrindo termos próprios das fanfics e criei também um senso crítico”.

Após muita leitura, Walkiria Pompeo resolveu se arriscar na escrita. Sua primeira história retratava o universo de Harry Potter e era composta por três partes. Ela conta ter demorado cerca de um ano para escrevê-la e que conseguiu uma quantidade razoável de leitores. “Com o tempo fui me interessando por outras coisas e escrevia sobre elas, como Percy Jackson, Glee, e recentemente comecei a escrever sobre novelas brasileiras”, conta.

Walkiria Pompeo, hoje com 21 anos, tem contato com as fanfics desde os 12 anos (Foto: Ana Carolina Pertille)
Walkiria Pompeo, hoje com 21 anos, tem contato com as fanfics desde os 12 (Foto: Ana Carolina Pertille)

A cada dia que passa, novas histórias surgem e as visualizações em sites que disponibilizam esse tipo de conteúdo também aumentam, sendo que qualquer um pode ter suas histórias publicadas neles. O status localizado na página inicial do Fanfic Obssession marca 32 milhões 259 mil e 673 de visitas e o FanFic Addiction registra 3 milhões 586 mil e 987. Alguns outros sites que disponibilizam fanfics são: Social Spirit, Fanfiction.com.br, Fanfics.com.br e o Floreios e Borrões (este destinado apenas a histórias relacionadas a Harry Potter).

Existem dois tipos de fanfics: com personagens fixos ou interativos. Os personagens fixos possuem sempre as mesmas características e nome que o escritor da fanfic definiu. Mas existem também as que são interativas. Nesse tipo de história, cabe ao leitor escolher o nome dos personagens e características como cor dos olhos e cabelos. Dessa forma, o leitor pode tornar-se parte da história como personagem.

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As caixas de diálogos, como são chamadas, são utilizadas para inserir as respostas das perguntas, e dessa maneira, as respostas vão para a história (Foto: Reprodução)

Da tela para o papel

O sonho de muitos escritores de fanfics é um dia ter sua obra em suas mãos, impressa, encadernada e na prateleira de uma livraria. Pode parecer impossível, mas não é.

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A autora Babi Dewet, de 28 anos, já possui três livros publicados e vários projetos para o futuro (Foto: Arquivo Pessoal)

Foi o caso de Babi Dewet, de 28 anos, autora da trilogia “Sábado a Noite”.  “Eu recebia milhares de mensagens, comentários e e-mails de leitores que imprimiam a fanfic para ler e aí pensei que deveria fazer um livro com essa história, assim ninguém precisaria do computador para lê-la”, conta.

A pretensão da autora nunca foi publicar direto com uma editora, por isso junto com amigos que entendiam de editoração e revisão, em 2010 lançou a primeira versão de Sábado a Noite”, totalmente independente. Em 2011 o livro ganhou o prêmio Codex de Ouro na categoria Voto Popular e foi relançado em 2012 pela editora Évora com o selo Generale. Em 2013 foi lançado o segundo livro da trilogia, intitulado Sábado à Noite II – Dos bailes para a Fama e em 2014 o último livro, Sábado à Noite III – Com Amor e Música.

“O fato da fanfic de Sábado a Noite ser conhecida na internet ajudou muito na divulgação, e muitos leitores puderam mostrar pra família e pros amigos aquela história que gostavam tanto de ler na internet, e assim consegui mais leitores”, declara Babi. “Mas o caminho não é fácil, eu não dormi e acordei famosa. Até hoje ainda estou buscando meu espaço, indo a eventos, aumentando o público leitor e conhecendo muita gente nova.”, finaliza.

SABADO A NOITE
Após lançar a primeira versão de forma independente, a trilogia Sábado a Noite foi lançada por uma editora (Arte: Ana Carolina Pertille | Fotos: Divulgação)

Para os planos futuros, Babi disse que lançará um livro de contos neste ano com mais três autoras do público juvenil e que está estudando a proposta de iniciar um novo livro solo.

O caso mais famoso de fanfic é o da trilogia 50 tons de Cinza, escrito por E.L. James. Quando ainda era uma fanfic inspirada na saga Crepúsculo, tinha o título Master of the Universe. A trilogia soma mais de 40 milhões de cópias vendidas em 37 países.

Confira abaixo fanfics nacionais que viraram livros:

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Os livros podem ser encontrados em lojas físicas e virtuais, tanto de lojas como nas editoras (Infográfico: Ana Carolina Pertille | Fotos: Divulgação)

Incentivo à leitura e escrita

O site fanfiction.com.br  define que “fanfiction é a forma mais fantástica de manter uma história viva”. Além de reunir pessoas com os mesmos gostos e interesses, a fanfic pode influenciar no estimulo da leitura e da escrita.

“Quando você passa a ler uma fanfic, automaticamente te faz querer escrever também. E com isso, você tem que buscar aprender e ampliar o seu vocabulário, aumentando assim sua capacidade de interpretação de textos e melhorando significativamente sua leitura” disse a leitora Paula Maia, de 14 anos.

Ela diz também acreditar que as fanfics podem atrair aqueles que não apreciam tanto a leitura. “Se uma pessoa que gosta de um filme, por exemplo, e descobre que existe uma história com um desfecho que era o realmente gostaria de ter visto, ela pode querer ler aquilo”. Paula confessa que antes das fanfics não tinha nenhum hábito de leitura, mas se encantou tantos pelas histórias que conhecia e se empolgou cada vez mais.

Porém, Babi alerta para um ponto importante: muitas vezes as fanfics não passam por um processo de edição, podendo conter erros gramaticais, de coerência e até mesmo de veracidade. “A maioria não tem uma boa revisão e edição, já os livros estão prontos para adequar ao gosto do leitor”, declara. Mas a autora acredita que toda plataforma de literatura é válida e se a história for boa, vale a pena ser lida.

Termos próprios

É bem provável encontrar palavras não muito conhecidas no primeiro contato com as fanfics. Isso acontece porque existem alguns termos próprios para caracterizar certas coisas. Conheça abaixo alguns deles.

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O uso dos termos próprios é bem comum entre os escritores e leitores das fanfics (Infográfico: Ana Carolina Pertille)

Futuro

E será que algum dia as fanfics irão acabar? Babi Dewet diz duvidar.

Cada vez mais nós nos tornamos fã de algo, seja série, filme, banda. Faz parte do ser humano, principalmente do jovem, dar asas a sua imaginação e criar diferentes enredos e histórias para aquilo que já existe ou está para existir. As fanfics são ótimos treinos para quem pensa em ser escritor e até para analisar o público-alvo consumidor, além de estabelecer laços entre pessoas que gostam das mesmas coisas, do mesmo fandom. Conheci muitos amigos por causa de fóruns e fanfics, pessoas que não seriam importantes para mim se eu não tivesse tido a oportunidade de compartilhar histórias sobre algo que também é a paixão delas.”

Plágio

Por utilizar personagens e cenários que são da autoria de outra pessoa, uma questão pode surgir: será que as fanfics podem ser consideradas como plágio? Confira no áudio abaixo.

Editado por Vinícius Bognone

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