Pesquisadores de Campinas desenvolvem sensor eletrônico capaz de detectar combustíveis adulterados

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O sensor desenvolvido por Thierry Marcondes ficou entre os 10 melhores colocados no Desafio Intel 2013 (FOTO: Divulgação – Desafio Intel)

Por Ricardo Andrade

Os motoristas brasileiros estão sempre sujeitos ao risco de abastecer o carro com gasolina adulterada. Preços convidativos costumam ser a isca para essa armadilha que pode causar danos, muitas vezes irreversíveis, nos motores dos veículos. De acordo com dados da Agência Nacional do Petróleo (ANP), 31 postos de gasolina foram interditados no estado de São Paulo durante o ano de 2014 por venderem combustível batizado. Desse total de postos fechados pela ANP, três deles estão localizados em Campinas.

A situação é preocupante, mas se depender de um grupo de pesquisadores de Campinas os condutores poderão ficar mais tranquilos em breve. A equipe formada por três engenheiros e um designer de produtos criou um sensor óptico capaz de verificar instantaneamente se o combustível é batizado. A ideia e o projeto surgiram ainda na universidade (Unicamp), mas a equipe continuou o trabalho e almeja inseri-lo no mercado automotivo. Quando o aparelho estiver disponível, poderá ser instalado em todos os carros e utilizado por qualquer motorista.

O engenheiro mecânico Thierry Marcondes é um dos integrantes da equipe, com apenas 27 anos de idade o jovem pesquisador vem se destacando no desenvolvimento de tecnologias óptico eletrônicas. Marcondes explica que o sistema lança feixes luminosos sobre o combustível e através dos índices de refração gerados consegue avaliar a composição do líquido.

“O meu produto analisa a gasolina por meio do sistema óptico eletrônico que verifica a composição dos solutos e dos solventes. Com isso, eu posso tirar algumas informações através do índice de refração, como densidade e composição. Assim ele se torna um medidor da qualidade da gasolina, podendo verificar se a mesma está batizada ou não e se está fora de padrão”, descreve o engenheiro.

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Arte: Ricardo Andrade

Marcondes também destaca as possibilidades que o mercado brasileiro pode oferecer para seu produto. Segundo ele, as constantes misturas de combustíveis geradas nos tanques de carros Flex também podem gerar uma demanda para o sensor óptico: “O fato de usarmos o sistema de carros flex, e com isso causar frequentes misturas entre diferentes combustíveis no tanque, exige um controle sobre a composição do combustível para melhorar a eficiência energética do carro e para evitar qualquer tipo de fraude. Então eu vejo que meu produto possui esses dois valores e isso tem gerado reconhecimento”, avalia.

Desenvolvimento

O projeto começou em maio de 2012, quando o grupo se inscreveu no Desafio Unicamp daquele ano, que seria uma competição universitária de pesquisa. A equipe desenvolveu o sistema para competir no desafio e conseguiu vencê-lo, faturando assim um prêmio de R$ 12 mil, que foi dividido igualmente entre os integrantes. Thierry Marcondes e o seu companheiro de equipe Wellington Souza, formado em Engenharia Elétrica, decidiram investir sua parte da premiação no desenvolvimento do projeto.

Os pesquisadores agora estão em busca de investidores para o projeto. Negociações com grandes empresas do setor automotivo estão em andamento e a expectativa da equipe é que o sensor possa estar disponível no mercado em breve.

Competição no exterior

Em 2013, o projeto ficou em terceiro lugar na etapa latino americana do Desafio Intel, uma importante competição que reúne pesquisadores de diferentes países. Com o resultado, a equipe de Thierry Marcondes se classificou para a final, realizada nos Estados Unidos, no estado da Califórnia. O sistema disputou o prêmio com outros trinta projetos e conseguiu ficar na oitava colocação.

O prêmio não veio, mas a experiência serviu de aprendizado para os integrantes. É o que garante o físico e ex-integrante da equipe, Welder Alvez, que participou da competição ainda como membro do grupo de pesquisadores. “Foi uma experiência riquíssima poder trocar informações, conhecer outras culturas e tecnologias. A maioria dos participantes era jovem e nos demos muito bem lá. Não ganhamos, mas esse não era o maior objetivo”, avalia o físico.

Confira mais detalhes sobre a viagem narrados pelo físico Welder Alvez:

Confira uma entrevista com Thierry Marcondes e conheça mais detalhes do sistema:

Como foi feita a divisão de trabalho no projeto?

Desde o começo do projeto continuamos em quatro pessoas, mudaram apenas alguns integrantes. Os membros responsáveis pelas estratégias comerciais, de desenvolvimento de produto e tecnologia se mantiveram os mesmos. Anteriormente eu era o responsável pela área comercial, prospecção, contato e validação do mercado. O Wellington cuidava da parte de desenvolvimento tecnológico e de desenvolvimento, tivemos sempre outros dois para dar apoio na parte de prospecção e outro na parte de desenvolvimento. Atualmente contamos também com um Designer de Produto e com a Carolina, que nos ajuda na área de marketing, financeira e de propriedade intelectual.

Como o equipamento pode ser instalado nos veículos? Esse processo teria qual custo?

O sistema ainda não está finalizado, mas a ideia é que ele seja instalado no bocal do tanque de combustível. Para isso é necessário substituir o bocal tradicional, sendo assim precisamos de uma parceria com o fabricante do tanque para que ele já possa ser instalado e funcionar automaticamente. Como o sistema ainda está em desenvolvimento não tenho noção de custo.

Sua equipe também desenvolveu um sensor voltado para a indústria. Quais as diferenças e semelhanças dele em relação ao utilizado nos carros?

Nosso sensor industrial é um medidor de açúcar em linha e em tempo real, que visa melhorar o processo fermentativo. O sistema óptico eletrônico é o mesmo utilizado no sensor de combustível, a única coisa que muda é o software, a maneira como analisamos e computamos os dados e a interface com o usuário. Além disso, a versão para a indústria exige muito mais elementos, ela precisa de fontes para manter-se regulado e um processador melhor. Por isso, um sistema acaba sendo muito mais caro que o outro, mas o método de funcionamento é o mesmo.

Os testes de qualidade podem ser feitos em outros tipos de combustíveis?

Sim. Temos alguns outros desafios a serem superados e coisas que precisam ser desenvolvidas, mas meu sistema óptico eletrônico mede o soluto no solvente. Isso significa que se eu quiser saber a quantidade de açúcar na água, eu consigo verificar. Também é possível saber outras coisas, como quantidade de minério na água, a quantidade de mistura dos refrigerantes, entre outros. O meu desafio é, por exemplo, com relação ao diesel. O diesel possui enxofre e eu consigo medir sua quantidade, mas esse valor presente não se comporta de uma forma tão linear, é uma função complexa. Por isso, para meu sistema se tornaria complicado realizar essas análises, mas mesmo assim é possível fazê-las.

Sua equipe ainda planeja promover evoluções no projeto ou o consideram finalizado?

No mundo empresarial e do empreendedorismo nenhum projeto é finalizado. A menos que a tecnologia ou o produto morram. Você sempre tem possibilidade de evolução e melhorias. Por isso, o projeto não está finalizado. Ainda estamos trabalhando no verificador de combustíveis e também no sensor industrial de quantidade de açúcar no melaço. Podemos melhorar os projetos desenvolvendo-os para análises no diesel e no refrigerante, melhorando a sensibilidade de suas análises, fazendo uma redução de custos, entre outros avanços. Existem muitas variáveis que podem ser melhoradas.

O projeto concorreu a um prêmio de inovação promovido pela Intel nos Estados Unidos. Como foi a experiência de disputar uma premiação no exterior?

Foi uma experiência muito bacana. Principalmente pelo fato do meu sonho e do restante da equipe era conhecer o famoso Vale do Silício, a terra dos empreendedores e onde surgiram as grandes empresas que conhecemos hoje. Então em termos de experiência pessoal foi fantástico, aprendemos bastante, vimos que os grandes empreendedores são de carne e osso como nós. Porém, fiquei um pouco decepcionado por não chegar ao lugar almejado e conseguir captar os recursos que precisávamos para finalizar o projeto. Infelizmente não conseguimos isso.

Alguma empresa ou instituto público manifestou interesse no projeto? Qual sua expectativa para o projeto no futuro?

Houve interesse de algumas empresas, principalmente das grandes e que atuam na área de combustíveis. Entretanto, por se tratarem de empresas multinacionais a negociação é um pouco mais complicada, devido aos processos burocráticos e as limitações no desenvolvimento brasileiro.

Editado por Isabella Pastore

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