Ecovilas formam comunidades sustentáveis pelo Brasil e atraem população

Por Karina Danielle e Marília Gabriela Simão

Água natural, árvores, hortas, cozinhas coletivas, casas sustentáveis e sem poluição, equilíbrio e meditação… não é preciso ir tão longe para viver em harmonia com a natureza. Este modo de vida é característico de quem escolhe viver nas chamadas Ecovilas. O Brasil possui cerca de 70 espalhadas pelo país – só no estado de São Paulo, existem duas a menos de 100 km da capital: a Ecovila Clareando, em Piracaia, e a Ecovila Santa Margarida, instalada em Campinas. A de Santa Margarida é a primeira ecovila urbana da América Latina, cujo projeto foi elaborado por Flávio Januário José, doutor pelo Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da EESC – USP São Carlos.

Foto: Marília Gabriela Simão
Foto: Marília Gabriela Simão

Ecovila é um conceito novo que nasceu no fim dos anos 80 e começo dos anos 90. Em 1998, esse estilo de vida sustentável foi nomeado oficialmente pela ONU como uma entre as 100 melhores práticas para o desenvolvimento sustentável. Há registros de alguns movimentos de 1930, porém, que já se caracterizavam pela união de pessoas que negavam a sociedade e os centros urbanos, pois consideravam o sistema falho. Januário explica que essas comunidades formadas não prosperavam por mais de uma geração, pois as pessoas envelheciam, os jovens saíam e os locais se tornavam cada vez mais um retiro. “As pessoas mais novas iam em busca de estudar, ir ao cinema, os interesses eram outros, e por isso uma vez que saiam, não mais voltavam. Além disso, a comunidade tinha a ideia de sustentabilidade sendo uma coisa autossuficiente, autossustentável, tinha sempre o auto na frente”, conta.

Somente depois de implantados conceitos ambientais a essas comunidades é que surgiu o termo ecovilaPara o arquiteto, no conceito mais contemporâneo de ecovila, não existe mais o “auto”; o conceito é errôneo, uma vez que se faz necessário ter trocas e relações externas para o sustento.

Um conceito em desenvolvimento

Ecovila é um conceito basicamente sustentável, fundamento em três pilares: as dimensões econômica, social e ambiental. O objetivo é buscar o equilíbrio entre elas, sem deixar que nenhuma se sobreponha, abordando a sustentabilidade em todo o sistema de planejamento, sempre pautado pelas ações comunitárias e pelo esforço coletivo. “Não se trata apenas do âmbito físico da ecovila; não é somente montar uma, coloca as pessoas e pronto. Depende das ações comunitárias e principalmente das relações que nela acontecem”, analisa Januário.

O arquiteto ainda acrescenta que hoje a questão econômica se sobressai sobre as dimensões social e ambiental. Por isso, é preciso buscar um equilíbrio baseado no conceito de sustentabilidade. “O que acontece é que uma vai sugando a outra, é uma força linear em que uma vai exaurindo a outra. Só que a hora que uma delas se acabar, as outras também se acabam, o que causa um colapso no sistema. E para que nenhuma se esgote, é preciso trabalhar no equilíbrio, e para isso o conceito de viver causando menor impacto no ambiente já está enraizado”, conclui.

Existem algumas organizações que lidam com ecovilas. A principal delas é a Global Ecovillage Network (GEN), uma organização central, consultora da ONU sobre assentamentos sustentáveis que promove reuniões anuais com pesquisadores, educadores e representantes de ecovilas do mundo inteiro. Hoje, são cerca de 15 mil cadastradas no órgão.

No Brasil, há 38 anos é realizado o Encontro Nacional das Comunidades Alternativas, difundo pela Associação Brasileira de Companhias Abertas (ABRASCA). O evento acontece em uma comunidade em potencial e reúne grupos, pessoas e organizações vinculadas às comunidades alternativas. O objetivo é que, durante uma semana, todos os participantes possam conhecer a vida em um outro grupo. “Lá se trocam informações, resultados e é feita divulgação de eventos. Além disso, há atividades de plantação e preparo de alimentos, sempre todos juntos”, conta Januário. “Essas comunidades se tornaram e estão se tornando ecovilas, porque além da preocupação ambiental, elas começaram a incorporar as dimensões econômica e social”, acrescenta.

Ecovilas urbanas x Ecovilas Rurais

Na essência, a ecovila nasceu para ser desenvolvida em espaço rural, para que haja mais contato com a natureza e se aplique os fundamentos sustentáveis básicos desse estilo de vida. Porém, existem também as ecovilas urbanas, que possuem o mesmo princípio mas estão dentro da cidade, o que pode tanto facilitar quanto dificultar o processo de instalação da infraestrutura necessária.

Segundo Flávio Januário, uma das diferenças encontradas entre os dois tipos é que a ecovila rural não demanda aprovação na prefeitura para os sistemas de infraestrutura, além de ter que ser pago somente o Imposto Sobre a Propriedade Territorial Rural (ITR). Já as ecovilas urbanas necessitam receber aprovação da prefeitura para a instalação, por conta da lei de Uso e Ocupação do Solo.

Outra característica é a do plantio. Para uma ecovila ser denominada rural, ela tem que necessariamente estar fora da área urbana e, principalmente, ter em seu espaço e cultura a plantação sustentável. Esse sistema também é chamado de permacultura.

Confira algumas curiosidades das ecovilas:

As ecovilas ainda estão em desenvolvimento por todo o mundo, mas são tendência de estilo de vida (Infográfico: Marília Gabriela Simão)
As ecovilas ainda estão em desenvolvimento por todo o mundo, mas são tendência de estilo de vida (Infográfico: Marília Gabriela Simão)

Ecovila São Luiz

Januário está desenvolvendo, junto com seu coletivo, uma ecovila rural em Campinas, no bairro Tijuco das Telhas. Intitulada Ecovila São Luiz, ela ocupa uma área de 43 mil m² e já possui uma parte da infraestrutura em construção. “Lá, nós já temos cabeamento de energia subterrânea; recentemente começamos a plantar árvores e estamos fazendo uma sede toda de bambu com telhado reciclado de tubo de pasta de dente. Além disso, já estamos plantando mandioca para o futuro consumo dos moradores”, conta o arquiteto.

Confira fotos do local:

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Eco Vila Santa Margarida

A Eco Vila Santa Margarida nasceu da pesquisa intitulada “Diretrizes Para o Desenvolvimento de Ecovilas Urbanas” de Flávio Januário, realizada para conclusão de seu doutorado na USP. Por meio de estudo, o local escolhido pelo arquiteto para criar a primeira ecovila urbana da América Latina foi a sede da fazenda que deu origem ao Bairro Guará, a Chácara Santa Margarida, ocupando uma área de 86 mil m².

O projeto foi iniciado em 2011, quando 42 famílias de amigos e conhecidos de Flávio se juntaram para iniciar a Ecovila em Barão Geraldo, tendo como referência modelos de ecovilas já realizados e reconhecidos mundialmente. Hoje, porém, moram apenas quatro famílias, pois o projeto ainda está só parcialmente aprovado pela prefeitura de Campinas. A capacidade máxima é de 50 famílias.

Obedecendo à busca do equilíbrio dos três pilares das dimensões da sustentabilidade, foram criadas três organizações que ajudam a desenvolver a Ecovila. Para a dimensão econômica, foi criada a Cajueira Administradora de Bens Ltda, que age para os associados de acordo com para os propósitos da ecovila. Para a parte social, criou-se a Associação de Moradores e Proprietários da Ecovila Santa Margarida (AMP) e, para a dimensão ecológica, existe o Instituto Flor do Anhumas, que serve para dialogar, levar informações para o grupo e também para pessoas de fora.

Hoje, a infraestrutura conta com um antigo casarão que foi restaurado, o qual funciona como sede da ecovila; algumas casas; inícios de plantações; cisterna para coleta de água da chuva; banheiro coletivo e sistema de tratamento de esgoto.

Lá, todas as árvores da área receberam registro e foram catalogadas para minimizar o impacto quando fosse realizado o traçado das vias de trânsito. Além disso, uma decisão comum dos futuros moradores é que tanto calçadas como a construção das casas deverão ser feitas de acordo com as regras de sustentabilidade.

Segundo Januário, para o projeto ser totalmente concebido, ainda falta, além do documento de aprovação da prefeitura, a instalação de boa parte da estrutura. “Precisamos fazer arruamento, colocar energia, porque a que tem hoje é pouca. A energia é a mesma que era usada para o casarão. Então precisamos trocar transformadores, fiação, fazer sistema de drenagem, abastecimento de água, entre outras coisas”, afirma o arquiteto.

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A sustentabilidade e o futuro

Sustentabilidade é um conceito relativamente novo, universalmente teve sua definição aceita no ano de 1987 na Comissão de Brundtland . Segundo Flávio, cabe ao jovens de hoje, ajudarem no futuro do planeta. “É mais claro pros jovens do que do que pra quem nasceu antes dos anos 90,  a gente consegue colaborar com ações e planejar nesse sentido sustentável, com esse conceito já enraizado na gente”, completa.

Gabrielle Mazetti de 21 anos, é aluna de jornalismo da PUC-Campinas e já foi a duas ecovilas. “Eu conheci as ecovilas porque sempre me interessei por assuntos ligados ao meio ambiente, pesquisei sobre o assunto e descobri que tinham pessoas construindo e vivendo de forma sustentável”. A estudante ainda acrescenta que quando foi às ecovilas não usou o celular e aprendeu a fazer economia de água e alimentos. “Você reutiliza água para tudo. No mesmo balde de água você rega a planta e toma banho”, conta a universitária.

Guilherme Ferreira de Araújo, dentista formado pela USP,  de 45 anos, tem planos para viver na Ecovila Rural São Luiz, em Campinas. Ele conta que seu filho está no Canadá e se separou da mulher, e sempre teve vontade de viver de uma forma mais sustentável: “Antes de ser dentista, pensei em ser arquiteto ou agrônomo para me inserir nesta área. Agora vou me mudar. Estamos trabalhando bastante para conseguirmos montar toda a infraestrutura e colocar minha casa lá”, relata.

Guilherme será um dos primeiros moradores da Ecovila São Luiz (Foto: Karina Danielle)
Guilherme será um dos primeiros moradores da Ecovila São Luiz (Foto: Karina Danielle)

Editado por Fernando Corilow

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