Restauro da Catedral Metropolitana de Campinas sofre com baixa arrecadação de recursos

Por Amanda Bruschi e Jaqueline Zanoveli

A reforma da Catedral Metropolitana de Campinas, importante construção histórica da cidade, completou recentemente 12 anos – mas ainda está longe de ser concluída. Após alguns anos parada por falta de captação de recursos, a obra foi retomada em 2014, e precisa contar com o esforço mútuo de diversos órgãos governamentais e civis para continuar o processo de restauro.

A Catedral Metropolitana, conhecida como a matriz nova, foi a segunda igreja da cidade. Concluída em 1883, a igreja demorou 76 anos pra ser erguida. No dia 8 de dezembro de 1883, dia de Nossa Senhora da Conceição, Campinas ganhava sua segunda igreja, já que a paróquia da Conceição, a primeira igreja da cidade, localizada na Freguesia de Nossa Senhora da Conceição das Campinas do Mato Grosso de Jundiaí, não conseguia comportar todos os fiéis.

Após mais de um século e pequenas reformas ao longo do tempo (veja no infográfico abaixo), nos anos 2000 a construção foi diagnosticada com infiltrações, espaçamento de revestimentos, entre outros problemas. “Na época, surgiu a oportunidade da realização de um convênio com a faculdade de Arquitetura e Urbanismo da PUC-Campinas, para que fossem apontadas diretrizes e intervenções no edifício”, conta o arquiteto Ricardo Leite, hoje responsável pela obra e na época aluno da faculdade.

A linha do tempo mostra que a história das reformas não é recente. (Infográfico: Amanda Bruschi)
A linha do tempo mostra que a história das reformas não é recente. (Infográfico: Amanda Bruschi)

 

Posteriormente, a Catedral foi incluída como objeto de estudos de um curso de especialização na área de Patrimônio Arquitetônico. Com um grupo interdisciplinar de arquitetos, engenheiros e artistas plásticos, iniciou-se um projeto para definir as necessidades da obra.

Como o edifício é tombado pelos órgãos municipal e estadual de preservação – Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Campinas (CONDEPACC) e o Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico Arqueológico, Artístico e Turístico (CONDEPHAAT) -, houve também um cuidado a mais na elaboração do projeto. “Como é um bem tombado e é importante pra sociedade, você não pode alterar as características porque ele serve como testemunha de uma época histórica” explica Leite. “Montamos o projeto de arquitetura, fizemos um projeto cultural também, para saber quanto iria custar.”

Em função do tamanho e da complexidade, o restauro foi dividido em 3 fases. A primeira etapa do projeto teve início em 2003, e priorizou a recuperação dos telhados e do forro da igreja. “Nós conseguimos arrecadar o dinheiro para essa etapa das obras e concluímos por volta de 2006 e 2007. Mas a catedral continuava com uma série de outros problemas”, relata o arquiteto.

A segunda etapa começou em 2005, e envolvia as quatro fachadas: a principal, que engloba desde o campanário da torre até as escadarias, e as fachadas laterais, das ruas 13 de Maio e Costa Aguiar. Com a dificuldade de captação de recursos, não foi possível sua continuidade. Já em 2009, o projeto foi reformulado e reapresentado.

Em 2012, o projeto foi aprovado pela lei Rouanet e ficou autorizado a captar R$ 7,1 milhões para as obras. Foi só em 2014 que as obras retomaram, já que foi alcançada a captação mínima, cerca de R$ 2,8 milhões, com patrocínio das empresas Itaú, Ticket, Alelo, Sodexo e FMC. Para o fim dessa segunda fase, ainda são necessários R$ 4,3 milhões.

Financiamento das obras

Para a arrecadação e a retomada das obras, um esforço conjunto precisou ser realizado. A Associação Comercial e Industrial de Campinas (ACIC), tanto pelo seu ex-presidente e hoje deputado federal Guilherme Campos, e a atual presidente, Adriana Flosi, tem se esforçado para mobilizar e sensibilizar as empresas que possam contribuir para a conclusão da segunda fase. “A entidade sempre mantém um contato com as empresas, fazendo pedidos, colocando a importância e a oportunidade que as empresas teriam nessas obras de restauro. Eu vejo a Catedral Municipal de Campinas como um marco do Centro da cidade, um marco que pode ajudar em todo um processo de revitalização da região central”, afirma Campos.

Entre as dificuldades apontadas por quem tem se esforçado para encontrar patrocinadores está a concorrência com outros projetos nas capitais. “A Lei Rouanet é uma lei que é colocada para o Brasil inteiro. Nos grandes centros, capitais e centros turísticos, a visibilidade desse recurso é muito maior. Por isso, nós sempre pontuamos da importância da nossa cidade de Campinas e da representatividade da catedral nesse contexto. A dificuldade é a disputa que a cidade de Campinas tem que fazer com todos os outros projetos do Brasil inteiro”, explica o deputado.

Antoine Kolokathis, diretor da produtora cultural Direção Cultura, responsável pela inscrição do projeto na Lei de Incentivo, reforça a importância da obra para a cidade. “Campinas é uma das maiores cidades do Brasil, principalmente do ponto de vista econômico, e a gente precisa despertar interesse das empresas em investirem nesses recursos, principalmente nesses investimentos que são custo zero para a empresa, num projeto tão importante quanto esse numa região metropolitana do país”.

Para o arquiteto Ricardo Leite, falta interesse da sociedade em investir na preservação dos bens históricos. “Não há interesse estabelecido na sociedade brasileira da responsabilidade das empresas na preservação dos nossos bens culturais. Não custa nada para empresa, falta interesse mesmo.”

Segundo o arquiteto, em aproximadamente 40 dias os andaimes que hoje envolvem a fachada da Catedral estarão retirados e a fachada frontal totalmente restaurada e pintada. Para as outras fachadas, o projeto ainda aguarda recursos.

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Em 40 dias, os andaimes devem ser retirados da obra. (Foto: Amanda Bruschi)

Vizinhos

Localizada na praça José Bonifácio, a Catedral está no Centro e no coração da cidade Campinas. No entorno, há muita movimentação por conta do comércio: lojas, bancos e um posto policial fazem parte do cenário que compõe a Praça José Bonifácio. Embora a obra de restauração tenha uma grande proporção, quem trabalha na região diariamente relata que a reforça não traz grandes incômodos.

O vendedor Gabriel Oliveira, de 18 anos, afirma que as obras de restauração da Catedral não trazem nenhum transtorno. A vendedora Luciana Aparecida Souza, de 35 anos, também concorda que a reforma no prédio não trouxe nenhum prejuízo, e ressalta que a Catedral de fato precisava de mudanças. “O prédio estava muito feio, em mal estado de conservação. Essa reforma foi necessária, e inclusive parece que vão colocar grandes em volta dela para evitar a pichação. Acho muito bom, porque o povo não cuida” completa.

Já para o dono de uma banca em frente à Catedral, Daniel Cruz, de 62 anos, a obra também não gera incômodo, e, pelo contrário, ajudou a movimentar a venda de seus produtos. “Não me incomoda nem um pouco a construção, pelo contrário, estou vendendo mais ainda! Os funcionários da obra mesmos costumam passar aqui para pegar um jornal ou revista” conta.

O arquiteto responsável pela obra Ricardo Leite, conta o cuidado tomado pela equipe com as redondezas. “São obras super complicadas, a gente está trabalhando em um lugar que circulam cerca de 100 mil pessoas por dia. Por isso tem toda uma questão de logística da obra”, conclui.

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O dono da banca em frente a Catedral, Daniel Cruz, afirma que a obra fez aumentar as vendas (Foto: Amanda Bruschi)

Editado por Fernando Corilow

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