Projeto “Mãos Que Cantam” traduz músicas para língua de Libras

Por Bárbara Cintra

O projeto “Mãos Que Cantam” surgiu em 2014 quando Marcelo Guti decidiu traduzir para a Língua Brasileira de Sinais (Libra) músicas conhecidas do público. Após o sucesso de visualizações, o jovem criou o projeto incentivando outras pessoas a utilizar a música como uma forma de se comunicar através dessa língua. Hoje seu canal no YouTube possui 218.000 de visualizações.

Desde pequeno, Marcelo percebeu que suas mãos tinham uma utilidade muito grande para ele. Era com elas que ele conseguia indicar para sua mãe quando o leite estava muito quente. Também as usava para explicar para seu pai qual brinquedo preferiria ganhar no Natal. Suas mãos, ele notou, eram meios de comunicação muito eficientes, mais do que sua voz, que saía com alguma dificuldade. E eram também um meio de saber o que seu pai e sua mãe queriam dizer, quando, por exemplo, batiam de leve nos seus dedos para alertar para o garfo fora do prato.

Marcelo e suas mãos cresceram assim, um completando o outro. As mãos de Marcelo sempre mais espertas e comunicativas que as das outras pessoas. Até que um dia, Marcelo descobriu que suas mãos podiam ir mais além. Ensinaram a Marcelo que suas mãos poderiam se tornar cantoras, levando música para as pessoas.

11039752_841329119265984_736393312_n
Marcelo Guti em apresentação em uma escola (Foto: Arquivo Pessoal)

 

“Iniciei na Libras em 2008. Comecei como voluntário na igreja, e como sempre fui do mundo artístico/musical e também eclético, comecei a gravar vídeos de musicas em Libras e postar no YouTube, sem pretensão nenhuma”, conta Marcelo. Em 2013 ele fez aulas de teatro para aprimorar as expressões faciais e corporais, fundamentais para a comunicação com o público de Libras.

“Comecei a fazer vários estilos de musicas que eu gostava, e ao fazer Lepo Lepo e Beijinho no Ombro tive uma surpresa, causei um boom na Comunidade Surda de todo país pois nunca teve funk ou axé em Libras! Até então tinham preconceito cultural a respeito desses ritmos”.  O vídeo mais visualizado até agora foi o “Beijinho no Ombro”, com mais de 35 mil visualizações.

Marcelo nunca imaginou que sua iniciativa fosse dar certo, até que em abril do ano passado, ele foi convidado para participar da Reatech – Feira Internacional de Tecnologias para Deficientes, na Expo Imigrantes. O sucesso foi tanto que no Facebook criaram um Fã Clube para ele, o “ Fã Clube Marcelets” que hoje contam 1500 membros. Foi desse retorno da comunidade surda que nasceu o projeto “Mãos Que Cantam” onde ele traduz musicas de todos os estilos. Escute o relato de Marcelo no player abaixo.

Rodrigo Andrade, ex-aluno da PUC-Campinas e portador de necessidades especiais auditiva, conta que nunca ouviu falar do projeto, mas que acha a iniciativa muito importante “É fundamental que quem seja portador de necessidades especiais auditivas tenham essa liberdade de escolher um ritmo musical preferido e, mais do que isso, que sejam inclusos em várias áreas da sociedade, não apenas na música.”

11050955_841329115932651_1451248151_n
Aluna tira foto de Marcelo Guti durante apresentação (Foto: Arquivo Pessoal)

A Libra tem estrutura própria, gramática e é uma língua como qualquer outro idioma. Foi oficializada no Brasil em 24 de abril de 2002, reconhecida como a Segunda Língua Oficial do País pela Lei Federal n. 10.436. A profissão de Tradutor-Intérprete foi reconhecida em 2010. Hoje, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil tem mais de 10 milhões de surdos, e só São Paulo são mais de 200 mil.

“Às vezes as pessoas perguntam ‘Como música para quem não ouve?’ A Libras é totalmente visual, então eles curtem muito. Gostam também da música em sua totalidade. Já desfilei com surdos em escola de samba, eles sentem a vibração do som na pele, e conseguem acompanhar o ritmo por essa sensibilidade. Existem baladas e DJs surdos no mundo todo, conheço e frequento todos os eventos. Anualmente tem a Sencity que é realizada em São Paulo, e tem uma plataforma no chão que vibra conforme a música, e nos palco há a presença de intérpretes para traduzirem as musicas. Tem DJs deficientes visuais, e o Signmark que é um surdo finlandês que canta em língua de sinais e vem sempre para participar do evento”, relata Marcelo.

 

Editado por Ana Carolina Pertille

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s