Crespos e cacheados: respeito à identidade negra

Por Martha Raquel Rodrigues

“Dá movimento”, “É mais fácil de cuidar”, “Tá na moda”, essas são algumas das desculpas impostas pela sociedade para convencer as mulheres a alisarem os cabelos. Segundo o sociólogo Paulo Sanchez, vivemos um momento da história que a mídia está muito presente na vida dos jovens e crianças. “Cada vez mais cedo os procedimentos estéticos estão se fazendo presente na vida das crianças. Há 30 anos as meninas brincavam na rua com os cabelos presos para não atrapalhar na hora de chutar a bola, hoje é completamente diferente, hoje aos dez anos é comum que elas abusem do cabeleireiro e da maquiagem”, comenta Paulo. Para ele as garotas buscam inspirações nas coisas cotidianas (revistas, novelas, filmes, outdoors) e quando se fala em padrão de beleza a primeira coisa que vem em mente são os cabelos lisos.

Andressa Cruz é jornalista, e desde criança sentiu pressão por conta dos cabelos encaracolados. “Durante minha infância, a minha lembrança sobre meus cabelos é dolorida, literalmente. Lembro da minha mãe escovando eles e prendendo, e como doía quando ela puxava eles para traz”, comenta Andressa. Sem muita informação de como cuidar dos cachos, e incomodada com os comentários no colégio, Andressa primeiro aderiu aos relaxamentos logo aos 12 anos, e aos 15, a escova progressiva. Nessa mesma época surgiram as primeiras denuncias do uso indevido do formol, e na terceira aplicação a adolescente passou mal com o produto por causa de uma reação alérgica.

Andressa decidiu por conta própria buscar na internet alguma maneira de recuperar seus cachos, e foi quando descobriu o processo de transição capilar. A transição nada mais é do que extinguir todo e qualquer química que possa existir nos fios, e em acompanhamento fazer o cronograma capilar (método que une hidratação, nutrição, e reconstrução). A jornalista virou adepta ao Low Poo também, técnica de tratamento que exclui alguns componentes que fecham as escamas do cabelo impedindo que os tratamentos façam o efeito desejado (mais informações aqui).

Linha do tempo mostrando as fases do cabelo de Andressa (Crédito: Martha Raquel Rodrigues /Arquivo Pessoal)

 

Depois de mais de um ano e meio cuidando do cabelo com H, R, e N (hidratação, reconstrução e nutrição), ela também fez o BC (Big Chop), famoso corte radical para retirar toda a química que ainda restava nos fios. Hoje Andressa sente orgulho de seus cabelos e encoraja quem deseja reconquistar sua identidade.

Fabiana Oliveira é ativista na luta pelos direitos da mulheres, mas se engana quem pensa que alguém tão forte quanto ela não sofreu os preconceitos contra sua identidade. A estudante de jornalismo diz que já deixou de ir a um casamento porque não sabia como seria recebida, como deveria se vestir ou arrumar os cabelos.

fabiana

Carol Roque, também estudante de jornalismo, contou a equipe do Digitais que depois que passou pela transição capilar, teve sua vaidade e identidade aflorada. Ela explica que seu cabelo faz parte da sua vida e história e que não há motivos para mudar isso.

carol

Lucas Jerônimo cresceu em uma família engajada não só pelas lutas sociais, mas contra todo e qualquer tipo de preconceito. Ele sempre viveu numa realidade onde foi ensinado que não era errado ser negro ou ter os cabelos crespos, mas ainda assim se sentia pressionado pela sociedade a manter o cabelo raspado.

Jacqueline Fernandes entrou na Faculdade e utilizava a chapinha todos os dias para ir a aula. A estudante conta que não se reconhecia quando se via no espelho, e então decidiu fazer o BC para retirar toda a química do cabelo e recuperar seus cachos. Segundo ela, quando as irmãs mais novas querem fazer chapinha em seu cabelo, ela não nega, mas se sente estranha porque “aquilo não faz parte dela”.

JAC

 

Editado por Jacqueline Fernandes

8 comentários

  1. realmente muito boa a matéria , tenho alguma amigas negras que sofriam algum tipo de gozação mas hoje após alguns anos assumiram seus (como elas mesmas diziam seus pixains e são muito felizes parabéns pela matéria Martha Raquel

  2. adorei a materia! Tenho cabelo ondulado/levemente cacheado, e, mesmo assim, por muito tempo fui escrava de chapinha. Hoje em dia me aceito e acho meu cabelo lindo, assim como os crespos e cacheados no geral.

  3. Muito boa a matéria, no fundo todas nos sentimos iguais. Eu fiquei pasma quando descobri a transição eu comecei a ler os relatos das meninas, a maioria alisou porque sempre foi passado para gente que cabelo com volume é feio e esse foi o motivo pelo que eu alisei o meu. Nunca fui escrava da chapinha por não querer um cabelo extremamente liso, mas ainda sou refém da química para diminuir o volume do meu. Por mais que eu ache lindo cabelos cacheados e me sinta inspirada vendo matérias como essa, ainda está enraizado muito forte dentro de mim a luta contra o volume,

  4. Acho lindo cabelos cacheados, sua matéria mostra o que é a realidade, quem os tem resolvem alisar não por vontade própria, mas sim pela sociedade, moda, coisa imposta por alguém que nem sequer te conhece. Sempre tive o cabelo liso, era minguado, aquela coisa escorrida no meu rosto, sempre tentava fazer com que ele armasse, até permanente fiz com 11 anos de idade, hilário né? Hoje , depois de ter caído devido sessões de pulsoterapia, eles cresceram rebeldes, alisei por duas vezes, mas por preocupação com que os outro pensavam, agora não…não são cacheados, nem liso, são rebeldes com pequenos cachos que eu adoro…e não me importo com o que pensam ou digam, eu gosto assim e é o que importa. Parabéns pela matéria Martha.

  5. ótima matéria, curti muito vc ter entrevistado pessoas reais que já passaram pelo problema e contaram suas experiências. Parabéns pela matéria e como ex futura cacheada( ahahah), agradeço pelo destaque aos nossos cabelos! pq quanto mais gente se informa, mais querem voltar aos cachos, e ver mais cacheadas na rua da uma sensação de “Não estou so” ahahah

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