Como você decide o que deve ser compartilhado?

Por Alef Gabriel

O cotidiano é permeado por diversas emoções, desde o despertar até o final do dia, inclusive enquanto se acessa as redes sociais. Nessas horas você também está reagindo à várias emoções. O fato é que você não presta atenção em tudo que sente durante um dia inteiro. Um conjunto de estudos e pesquisas neurocientíficas foi divulgado recentemente e compilado em um tema atual: como nosso cérebro decide o que deve ser compartilhado nas redes sociais?

Você pode achar que existe uma emoção diferente para cada motivação, mas o estudo estabeleceu apenas 4 sentimentos como “pilares” das emoções.E eles são: felicidade, tristeza, medo/surpresa e raiva/nojo. É daí que partem os outros sentimentos (que podem ser dezenas se combinados de diferentes formas). Para exemplificar melhor, esta é a “Roda das Emoções” de Robert Plutchik que apresenta algumas camadas das mais conhecidas emoções:

Roda das emoções. (Crédito: Divulgação)
Roda das emoções. (Crédito: Divulgação)

Neste post vamos dar uma olhada em cada uma das quatro emoções (felicidade/tristeza/medo/raiva), como elas se formam no cérebro e de que maneira que elas podem influenciar na decisão de compartilhar nas redes sociais. Neste infográfico você pode encontrar os principais pontos abordados pelo estudo em que vamos nos aprofundar em seguida: (Clique para ampliar)

Resumo do estudo neurocientífico, principais pontos abordados. (Crédito: Alef Gabriel)

A felicidade impulsiona o compartilhamento

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10 principais emoções segundo o estudo que promovem os compartilhamentos em redes sociais. (Crédito: Alef Gabriel)

O psicanalista Donald Winnicott descobriu que nossa primeira ação emocional na vida é responder ao sorriso da nossa mãe com um outro. A alegria e a felicidade são fortes conectores em todos nós. O córtex pré-frontal esquerdo do cérebro é onde traços de felicidade como otimismo vivem. Winnicott estudando em bebês a situação do “sorriso social”, concluiu que a alegria aumenta quando ela é compartilhada. Quando as pessoas sorriem para o bebê, ele sorri de volta ou vice-versa, porque a felicidade é espelhada. Por isso a felicidade é o principal motor  que faz com que as pessoas compartilhem e suas emoções derivadas também ocupam os primeiros lugares neste ranking de emoções pesquisado por Fractl.

O Jonah Berger, professor de marketing da Wharton School da Pensilvânia, pesquisou o tema e concluiu que quanto mais positivo for o conteúdo maiores chances dele ser propagado (compartilhado) nas redes sociais. Abigail Posner, do Google, descreve esse desejo como uma “troca de energia”: “Quando vemos uma imagem que nos anima, e enviamos para os outros com o objetivo de dar-lhes um pouco de energia e efervescência. Além disso, cada imagem lembra-nos que estamos vivos, felizes e cheios de energia (mesmo que nem sempre nos sintamos assim). E quando nós ‘curtimos’ ou comentamos uma foto ou um vídeo enviado para nós, estamos enviando um presente de volta para o remetente”.

Em entrevista para o Digitais, a psicóloga Adriana Pereira, diz que muitas pessoas, por questões particulares como solidão, insegurança, entre outras, podem usar as redes sociais como um meio de negar seus sentimentos e dores e até mesmo fantasiar e atuar de acordo com o que deseja para sua realidade. Nós abordamos postagens e compartilhamentos ligados a insegurança e baixa estima aqui e aqui no Digitais.

Tristeza pode ajudar na compaixão e empatia

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Região onde se localiza a amígdala (área verde na ilustração). (Crédito: Divulgação)

Um estudo realizado por Paul Zak, PhD em neurociência pela Universidade da Pensilvânia, apontou que quando a felicidade e a tristeza são sentidas, áreas semelhantes do cérebro são ativadas e com isso a produção de neuroquímicos. Estes químicos são dois tipos de hormônios: cortisol, substância conhecida como o “hormônio do estresse” e oxitocina, um hormônio que promove conexão e empatia. Zak postula que a capacidade de oxitocina pode nos ajudar a criar compreensão e empatia também pode nos tornar mais generosos e confiantes. Em um estudo diferente, os participantes sob a influência da oxitocina deram mais dinheiro para caridade do que aqueles privados da influência da substância química. Veja a seguir o vídeo que explica a experiência:

Adriana comenta que “A empatia é a capacidade de uma pessoa se colocar no lugar de outra, de ver o mundo pelos olhos do outro. Poder olhar para o outro e se compadecer do seu sofrimento, muitas vezes colocando o próprio sofrimento de lado.”

Medos nos fazem desesperados para nos agarrar em algo
Embora aqueles que sejam propensos à ansiedade, ao medo e à depressão também apresentem uma maior proporção de atividade no córtex pré-frontal direito, a emoção do medo é majoritariamente controlada por uma pequena estrutura em forma de amêndoa no cérebro chamada amígdala (área verde na ilustração).

A amígdala nos ajuda a determinar o significado de qualquer evento assustador e decide como nós respondemos a ele (luta ou fuga). Mas o medo também pode causar uma outra resposta que poderia ser interessante para o marketing em particular: O desespero e a necessidade de confiar, de ter algo ou alguém perto para se “agarrar” e ter como companhia. Assim como existem pessoas que só gostam de assistir filmes de terror em grupos de amigos, porque sentem a necessidade de compartilhar esse medo. A teoria diz que, quando estamos com medo, temos a necessidade de compartilhar a experiência com outros. E se ninguém está por perto, até mesmo uma “marca não-humana” vai cumprir esse papel. O medo pode estimular as pessoas a denunciar o maior apego a uma marca, segundo um estudo publicado no Journal of Consumer Research.

A psicóloga Adriana, comenta sobre o medo, “Saber que não sou a única pessoa a única sentir medo, me autoriza a senti-lo. Talvez por isso os grupos de apoio e até mesmo as comunidades nas redes sociais sejam ambientes de grande expressão de sentimentos. Saber que outros sentem e passam pelo que passo é confortante, mas não deve servir de conformismo, como se alguém sente eu também tenho o direito de sentir.”

Raiva pode gerar teimosia virtual

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Localização do hipotálamo no cérebro humano. (Crédito: Divulgação)

O hipotálamo é responsável pela raiva, junto com uma série de outras necessidades de nível básico como a fome, a sede, a resposta à dor e a satisfação sexual.

E enquanto a raiva pode levar a outras emoções como agressão, ela também pode criar uma curiosa forma de teimosia online, como um recente estudo da Universidade de Wisconsin constatou. Em uma experiência, onde havia um grupo de universitários dividido em duas partes ,e foi dado a eles um texto polêmico sobre uma nova tecnologia, e eles deveriam opinar sobre. Para uma parte do grupo o texto veio com comentários educados na área de comentários e para o segundo grupo comentários mais rudes e agressivos. Quem não tinha opinião formada ao ter contato com essa agressividade quase que instantaneamente resolveu opinar e debater. Já o segundo grupo, dos comentários educados quem não tinha opinião sobre o assunto, continuou sem opinar e quem era contra se manifestou educadamente.

Segundo a profissional de psicologia Adriana, “Algumas vezes a raiva funciona como um impulso para tomar decisões que não seriam tomadas em outras situações. Pode ainda ser associada a necessidade de ser ouvido e entendido em sua desejos. O comportamento pode ser diferente em várias situações. Por exemplo, pode ocorrer de alguém se afastar da situação ou pessoa que gera raiva ou entrar em conflito com o objetivo de sentir compreendido.”

Procuramos a opinião de um usuário assíduo das redes sociais, Daniel Souza, estudante de análise e desenvolvimento de sistemas pela FATEC. Ele conta que acessa diariamente várias de suas redes sociais e comenta que publicava muitos posts por dia motivados pela emoção e pelo que estava sentindo no momento ou no dia, porém hoje em dia ele tem se policiado na quantidade e no conteúdo dos seus posts que variavam entre artigos universitários de política, psicologia e tecnologia. Daniel completa dizendo “As publicações que eu faço, como os livros que carrego (não necessariamente os que leio) são como as roupas, servem pra mostrar um pouco da minha personalidade e atrair pessoas que são parecidas.”

E você compartilha nas suas redes de acordo com o que está sentindo no momento ou você pensa antes de compartilhar algo? Deixe aqui seu comentário.

Editado por Fabiana Oliveira

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