Rachel de Queiroz é tema de palestra na PUC Campinas

Por Fabiana Oliveira

“É pilhéria. Uma garota assim fazer romance! Deve ser pseudônimo de sujeito barbado” disse Graciliano Ramos, na década de 30, depois de ler “O Quinze”, de Rachel de Queiroz, romance que retrata a seca do sertão nordestino e fora escrito quando ela mal tinha 20 anos. O livro e dados biográficos da escritora foram tema de uma palestra ontem (16/10), na PUC-Campinas, ministrada pela professora Cristina Betioli Ribeiro. Cerca de 85 pessoas prestigiaram o evento. Além da palestra, organizada pela Faculdade de Letras, o Grupo de Teatro da Universidade apresentou uma cena do texto “Maria, Beata do Egito”, sob a direção do professor Paulo Afonso Coelho.

Cerca de 85 pessoas estiveram presentes na palestra (Crédito: Fabiana Oliveira)
Cerca de 85 pessoas estiveram presentes na palestra (Crédito: Fabiana Oliveira)

Romances, textos para teatro, livros didáticos, infantis, em parceria, traduções, uma “nova narrativa” e a lembrança de uma história política ativa fazem parte do legado de Rachel de Queiroz. “Ela foi a primeira mulher eleita na Academia de Letras”, lembra a palestrante. “Só pra vocês terem uma ideia da representatividade dela em termos de premiação, de produção (…) ela foi delegada do Brasil na Comissão dos Direitos Humanos na ONU, isso em 1966. Foi membra do Conselho Federal de Cultura entre 1967 e 1989, um período de mais de 20 anos. De literatura, diversos prêmios, medalhas…até uma medalha do Itamaraty ela recebeu”.

A professora Cristina Betioli foi quem ministrou a palestra (Crédito: Fabiana Oliveira)
A palestra foi ministrada pela professora Cristina Betioli (Crédito: Fabiana Oliveira)

“O Quinze” tem uma boa história desde a produção: “O impressionante é que quando ela publicou ‘O Quinze’, ela era muito jovem, tinha apenas 20 anos, e foi ela que custeou os exemplares do livro. Ela imprimiu numa gráfica de Fortaleza, mil exemplares, e fez chegar nas mãos dos principais críticos de São Paulo e Rio. E qual foi a surpresa, a recepção desse livro foi absolutamente positiva”, contou Cristina.

“A Beata Maria do Egito” texto que deu origem a cena apresentada pelo Grupo Teatral da PUC-Campinas, conta a história das beatas de Juazeiro do Norte, no Ceará. A beata que ficou conhecida como “Maria do Egito” recruta pessoas para somar à rebelião de Padre Cícero, comportamento que afronta o latifundiário coronel Chico Lopes, que obriga o tenente João a prendê-la. Na trama, o tenente se sente atraído pela beata.

O Tenente João (Crédito: Fabiana Oliveira)
O Tenente João (Crédito: Fabiana Oliveira)

Ao introduzir a encenação de um trecho do texto, o professor Paulo Afonso lembrou os tempos de ditadura: “O que vocês vão ver aqui é um resultado do trabalho que fazemos durante um ano. Uma curiosidade é como montei esse espetáculo com uma companhia na década de 70, finalzinho da década de 70, esse espetáculo foi proibido, esse espetáculo não, esse trecho que vocês vão ver, foi proibido pela censura federal, eles não permitiram que eu fizesse essa cena aqui, só que eu corri o risco e apresentei. Dei sorte, porque aquela época era meio complicada”.

Professor Paulo Afonso Coelho (Crédito: Fabiana Oliveira)
Professor Paulo Afonso Coelho (Crédito: Fabiana Oliveira)

Biografia

Rachel de Queiroz nasceu em Fortaleza, no Ceará, em 1910. Foi fugindo da seca, tema do livro de estreia “O Quinze”, que em 1917 a família da escritora mudou-se para o Rio de Janeiro, embora não tenham permanecido em terras fluminenses por muitos anos. Foi de volta ao Ceará que Rachel, com 15 anos, formou-se professora. Depois de formada, Rachel se muda para a cidade de Quixadá e dedica-se à leitura. Por timidez, vergonha dos textos que escrevia, Rachel começa a escrever para o jornal “O Ceará” com o pseudônimo “Rita de Queluz”. Para além da contribuição regular com diversos periódicos, foi em 1930 que Rachel escreveu o primeiro romance: “O Quinze”. A escritora estava adoecida, com suspeita de tuberculose. “João Miguel”, “Caminhos de Pedra” e “As Três Marias” vieram na sequência. No meio tempo, foi tachada como “agitadora comunista”. Era, de fato, uma simpatizante do Partido Comunista.

Rachel chegou a ser convidada, pelo presidente Jânio Quadros, para ocupar o cargo de ministra da Educação, mas recusou: “Sou apenas jornalista e gostaria de continuar sendo apenas jornalista.”

Em 2000, quando completara 90 anos, a Academia Brasileira de Letras lançou a exposição “Viva Rachel”, em sua homenagem. Três anos depois, em 2003, a autora faleceu dormindo em sua rede.

 

Editado por Nathani Mota

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