Jovens cursam licenciatura mas criticam a educação

Por Juliana Gimenes

Neste dia 15 de outubro, data em que se comemora o dia dos professores no Brasil, o Digitais conversou com universitários e recém formados de diversas áreas que possuem a modalidade de licenciatura em seus currículos a fim de compreender quais as perspectivas e experiências destes jovens que, apesar de conhecerem as dificuldades do sistema educacional brasileiro, ainda se dedicam à tarefa de transmitir conhecimento.

O Ministério da Educação vem incentivando a formação de professores através de ações como o Programa de Consolidação das Licenciaturas (Prodocência), que oferece apoio financeiro a projetos pedagógicos inovadores que contribuam para melhorar os cursos de formação de professores da educação básica, e o Plano Nacional de Formação de Professores da Educação Básica (Parfor), desenvolvido em parceria com instituições de educação superior e secretarias de Educação dos estados e municípios, que estimula as licenciaturas.

Apesar disso, o cenário não é dos melhores. Os dados do Censo da Educação Superior mostram que, em 2013, os formandos em licenciaturas foram 201.353. O número vem caindo desde 2011, quando foram registrados 238.107 concluintes no grau acadêmico, resultado de preocupações por parte dos jovens em relação a precarização do sistema de ensino público, a baixa remuneração da categoria e ainda aos métodos convencionais de ensino que não acompanham as evoluções sociais.

Mariana Gandini, graduanda em Ciências Biológicas pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), entrou na universidade já com o objetivo de se tornar professora, mas afirma que essa escolha é a de poucos. “A todos é oferecido o bacharelado e a licenciatura. Ser bacharel é objetivo da grande maioria e cursar a licenciatura para se ter uma segunda opção é o que a maioria faz. Aqueles que entram na graduação pra ser professor de Biologia, são minoria”, conta.

Mariana informa que o departamento de educação de sua faculdade é muito forte, com professores que são referência nas áreas em que atuam, entretanto, o incentivo para que mais alunos sigam a carreira de professor do ensino básico é mínima, o que acaba por afetar sua visão sobre a profissão.

Porém, a professora vê uma situação diferente nas escolas do governo do Estado de São Paulo, onde não há investimentos para a formação. “Houve disciplinas da licenciatura que demoraram 2 meses para começar pois não se podia contratar professor. Certas vezes professores titulares tentaram agilizar estágios, fazer reuniões com os alunos sem receber, tudo para não prejudicar o andamento dessas disciplinas. Neste ano houve corte de bolsas e os projetos mais prejudicados foram os voltados à cultura e educação. Diante disso, não tem como não mudar as perspectivas em relação à carreira que escolhi”, lamenta.

Hoje professora eventual no estado, Mariana conta que a escola se tornou um “depósito de crianças”, com salas superlotadas e professores mal remunerados, mas salienta ainda que há uma formação humanística necessária para o ensino que a Universidade não fornece.

Mariana fez estágios em colégios particulares e públicos e afirma que os professores exigem algo de nós enquanto seres humanos, por isso ela tem críticas para além da sala de aula. “Para mim, o local mais cruel da escola é a sala dos professores. Professor não está lá só pra ensinar o conteúdo que estudou na graduação. Professor também passa valores, forma cidadãos e cidadãs. Como professores com opiniões homofóbicas, racistas, elitistas e moralistas vão contribuir positivamente para a formação de um indivíduo? Claro que não estou generalizando, mas isso não deixa de ser uma das preocupações em relação à carreira”, lamenta, mas sem perder as esperanças. “Quando numa aula caótica, no meio de 40 alunos, você consegue ensinar algo e ouvir uma palavra de carinho vindo deles, dá um calorzinho no peito.”

Daniel Piovezan, licenciado  em Letras pela PUC Campinas, entrou na faculdade vislumbrando trabalhar com tradução, mas durante a sua graduação cogitou a hipótese de dar aula. “Ainda acho interessante mas, pessoalmente, não quero lidar com a estrutura do sistema educacional. Por exemplo, acho a ‘obrigatoriedade’ um problema. Há escolas em que não é obrigatório estudar e, mesmo assim, os meninos estudam e vão muito bem, melhor ainda do que quem é obrigado”, conta.

Assim como Daniel, Ricardo Marques, que está em seu último semestre também do curso de Letras, mas pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), também questiona o cenário da educação. “Cheguei a prestar concurso para professor do ensino básico mas não sei se assumirei se passar efetivamente. Acredito que ser professor deve ser bem gratificante, porém, no Brasil, é um trabalho ainda muito desvalorizado”, explica.

Na Unicamp, o curso de Letras, tanto noturno quanto diurno, possui a licenciatura como modalidade obrigatória. Já na PUC Campinas, o aluno que se forma em Letras pode optar entre a licenciatura e o bacharelado, podendo cursar os dois. Como forma de incentivo, aquele que opta por cursar a licenciatura (em qualquer curso que ofereça esta modalidade) recebe um desconto de 25% na mensalidade.

Para Paulo Rodrigues, que está no seu primeiro ano de Letras cursando ambas as modalidades, sair da faculdade licenciado é um privilégio. “Com as disciplinas focadas em educação, sociedade e cidadania, se constrói uma bagagem que te faz apto a ensinar jovens que, através de bons professores, são capazes de despertar muita coisa boa”, acredita. “O incentivo que a PUC oferece  me inspira a retribuir isso de alguma forma. O mercado precisa de bons professores e isso é mais uma forma de fazer valer a pena”, complementa, otimista em relação a profissão.

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(Crédito: Juliana Gimenes)

Editado por Priscilla Geremias

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