Começa o Fórum “Construindo Vidas Despatologizadas”

Por Verônica Miranda

Na noite de ontem (15), foi realizada a abertura o fórum “Construindo Vidas Despatologizadas” na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com a presença de diversos professores da Universidade, incluindo Rosangela Villar, membro do Movimento Despatologiza, Rogério Giannini, presidente do Sindicato dos Psicólogos de São Paulo (SinPsi) e de Gustavo de Lima Bernardes Sales, Representante do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo (CRP).

O objetivo do fórum é propor que os comportamentos humanos sejam mais analisados antes de serem diagnosticados como doença, mas como personalidade do indivíduo ou sinais de sofrimento na vida pessoal, profissional ou acadêmica.

A Conferência de abertura foi feita pela deputada Maria do Rosário, que é pedagoga e  foi ministra da Secretaria dos Direitos Humanos da Presidência da República de janeiro de 2011 a abril de 2014.

Deputada Maria do Rosário Nunes faz conferencia de abertura do Fórum "Construindo Vidas Despatologizadas", na Unicamp, em Campinas. (Créditos: Verônica Miranda)
Deputada Maria do Rosário Nunes faz conferencia de abertura do Fórum “Construindo Vidas Despatologizadas”, na Unicamp, em Campinas. (Créditos: Verônica Miranda)

A deputada citou casos frequentes em que a patologia é aplicada. Por exemplo, crianças com dificuldades no rendimento escolar, tratamento de dependentes químicos, dos presidiários e também da homossexualidade. Em todos os casos, Rosário defendeu que é necessário um acompanhamento e uma análise de cada caso, não se precipitar em diagnosticar como doença.

Rosário afirmou que a medicalização acontece sem uma investigação a fundo e isso pode prejudicar o tratamento de algumas pessoas, como as que tem déficit de atenção ou hiperatividade. Para ela, esses comportamentos podem ser decorrentes de agressões físicas ou morais, que a criança esteja sofrendo ou até mesmo ser característica da personalidade desta criança.

Maria do Rosário explicou que a homossexualidade não pode ser interpretada como doença. Alguns projetos de Lei planejam classificar os homossexuais como doentes e o Movimento Despatologiza tem o objetivo de barrar esses projetos, uma vez que defendem como estilo de vida e não patologia.

A Coordenadora da Saúde da Criança e do Adolescente da Prefeitura de Campinas,  Tania Maria de Cassia Marcucci, explica que o aumento da medicalização ocorreu quando as escolas começaram a encaminhar para psiquiatras e até mesmo neurologistas, com a conclusão de que a criança é diferente das outras e não tem  concentração na sala de aula, que não atende aos padrões estabelecidos pela sociedade.

São frequentes os diagnóstico de dislexia, que é a dificuldade de leitura e a hiperatividade, que é a dificuldade de se manter concentrado. Porém, o uso destes medicamentos são feitos apenas durante o período de aula, nas férias ele é descartado. Foi percebido nesta abstinência que a criança desenvolvia o zombie like, que é o raciocínio mais lento, devido a ausência do medicamento.

Tania alerta que crianças que fazem o uso destes medicamentos são mais propícias à usarem substâncias psicoativas na fase adulta, ou seja drogas de grande efeito. Rotinas corriqueiras podem contribuir para que a criança desenvolva esses distúrbios, “Por exemplo, aquela criança que estuda de manhã faz aulas inglês e natação durante toda a semana, sem ter um tempo para brincar e ser criança, é o momento que não pode faltar”, diz Tania.

Acompanhe a recomendação da Dra. Tania Maria à estudantes que fazem uso de substâncias para melhor rendimento em vestibulares ou trabalhos de conclusão de curso na faculdade e no caso de dependentes químicos:

Rosangela Villar, membro do "Movimento Despatologiza", em fórum, na Unicamp, em Campinas. (Créditos Verônica Miranda)
Rosangela Villar, membro do “Movimento Despatologiza”, em fórum, na Unicamp, em Campinas. (Créditos Verônica Miranda)

O Movimento Despatologiza nasceu neste ano, com a mudança do nome de um grupo que já existia desde 2010, antes “Desmedicalização da Vida”. O nome foi mudado para melhor divulgação do movimento.

Rosangela Villar, membro do Movimento Despatologiza e que milita nessa área há 30 anos, explica o que o movimento é formado por profissionais de diferentes áreas da saúde e de educação e todos com experiência. Villar, explica o foco do movimento:

O Movimento em parceria com o Conselho Regional de Campinas realizam militância nos projetos de Lei e implantação de métodos que vão contra a patologização, seja na homossexualidade, saúde das crianças, a questão do humanização do parto normal.

Villar sugere as questões “Como tratar as pessoas que estão em sofrimento? É preciso internar? Ou então, a questão das drogas, é preciso colocar na comunidade terapêutica ou tenho que estar com o individuo em sociedade aprendendo a lidar coisas que estimulam a necessidade desse uso?”, como reflexão.

O despatologiza trabalha com a preocupação do menor dano físico possível, deste paciente, chamado de redução de danos, ou seja diminuir ao máximo a quantidade de medicamentos no tratamento, seja da criança ou do adulto dependente.

O evento também contou com a apresentação do Coral Zíper na Boca, confira o vídeo:

Lembrando que o fórum vai até o dia 17 de Outubro, confira a agenda:

15 de Outubro: 09h30 às 17h30

Conferência: “A quem se ensina? Quem aprende? A (in) visibilidade da infância no cotidiano escolar”

Mesa redonda: ”Quem avalia? Quem se (des) comporta? A (in) visibilidade da criança”

Mesa redonda: “Viver é preciso, controlar não é preciso”

16 de Outubro: 9h30 as 17h30

Conferência: “A genética na encruzilhada entre os direitos humanos e a medicalização”

Mesa redonda: “Desconstruindo álibis da violência contra crianças e adolescentes”

Mesa redonda: “Táticas de produção e sustentação do humano em nós: por uma rede de cuidados despatologizantes”

17 de Outubro: 9h30 as 12h45

Conferência: “El encuentro médico-paciente: entre acoger um sujeto sufriente y reparar una máquina descompuesta.”

Conferência: “La medicalización y el consumismo. Medicalización de la sociedad y desmedicalización del arte”.

Roda de Conversa: “Dialogo entre la praxis y la reflexion. Donde, como, quien.”

Editado por Nathani Mota

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