Mulher e mídia são temas de documentário exibido em praça de Campinas

Por Fabiana Oliveira

“Só no espelho da minha casa é que eu me vejo”, disse a mulher negra, solteira e adulta, personagem do documentário “Imagem Mulher”, exibido na Praça do Sucão, em Campinas, nessa quinta-feira (18/09). A exibição da produção de Maristela Bizarro foi parte da Semana do Audiovisual de Campinas (SEDA), que está sendo realizada pela quarta vez na cidade e vai até o domingo (21/09). Confira a programação aqui.

SEDA leva documentário para praça (Crédito: Fabiana Oliveira)
SEDA leva documentário para praça (Crédito: Fabiana Oliveira)

A personagem, como tantas outras, não está no comercial de margarina, de creme dental ou nos filmes de romance. Ela não se identifica com a protagonista da novela e já não se enxergava nas bonecas da infância: nenhuma era negra. Sua história é parte da reflexão proposta pelo documentário de aproximadamente 60 minutos: de que forma a mídia e a idealização da mulher contribuem para a manutenção da estrutura patriarcal que violenta psicologicamente e fisicamente mulheres de todas as idades?

Embora a resposta não esteja pronta, a psicóloga e membra do Observatório da Mulher, Rachel Moreno, participou da atividade e contribuiu para essa reflexão. “A mídia faz duas coisas: naturaliza a violência, de tanto ver a gente acaba se acostumando e tolerando um pouco mais. A segunda coisa que a mídia faz é que se há uma pessoa importante envolvida num episódio, como o caso do goleiro Bruno ou como no caso lá em São Bernardo quando o rapazinho sequestrou a ex-namorada e ficou com ela presa, querendo que ela voltasse, até que finalmente matou ela, então nesses casos, a mídia torna aquilo um espetáculo. Vai pro ar mais tempo do que a novela das nove”, explicou Rachel.

Depois da exibição, debate (Crédito: Fabiana Oliveira)
Depois da exibição, debate (Crédito: Fabiana Oliveira)

Para ela, a mídia tem um papel tão importante na construção da igualdade de gênero e desnaturalização da violência quanto a educação e, por isso, carece de regras: “a mídia não pode estimular e reproduzir a violência física, patrimonial, simbólica, psicológica”, o que já é lei em países como Argentina e Espanha.

Ela conta que, certa vez, uma amiga educadora foi questionada por um aluno se ela não apanhava do marido. Após a resposta negativa, ela devolveu a pergunta ás crianças. Quis saber se as mães eram violentadas pelos esposos. Todos levantaram as mãos, respondendo um lamentável sim. Cenário onde claramente se enxerga a necessidade de desconstruir ideias e estereótipos.

Estereótipos que são vendidos diariamente através das propagandas, das revistas e telinha. “Se você reproduz o preconceito, você alimenta isso. A cena do programa da Rede Globo (Zorra Total, quadro Valéria e Janete, encena um metrô), no sábado a noite, onde ela diz ‘ele tá me encoxando’ e a outra responde ‘aproveita boba’, naturaliza esse comportamento. É o fim da picada”, disse a psicóloga.

As espectadoras e os espectadores se identificaram com o que viram e ouviram. Uma lembrou-se da mãe, avó, tias, todas vítimas da violência cotidiana. Outra pensou em si mesma e reconheceu sua dor. Uma terceira se disse abraçada. Entre todas as falas, denominadores comuns: os desafios da não culpabilizar a mulher e da desnaturalização do papel social – secundário, obediente, fútil, vitimista, frágil, puritano, plastificado – atribuído ao gênero.

A íntegra do documentário está disponível aqui.

 

Editado por Ana Luiza Sesti

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