Elo Ambiental propõe projeto de preservação da Bacia do Rio Capivari

Além de preservar, o projeto da Oscip visa melhorar a captação da água para o consumo

Carolina Tornich

“Moro aqui há vinte anos e nunca pesquei nada nesse rio, nem chego perto”, afirma Helena Tannert, que mora às margens do Capivari, no Distrito Industrial de Vinhedo. O marido de Helena, Luís Claudio Tannert, sempre morou nesse sítio e conta que sua família costumava pescar e comer os peixes do rio. Em 1974, até 1980, conta ele, ainda nadava, brincava com os irmãos. Colocava barreiras no rio por onde a água passava, para formar pequenas piscinas. Chegava até a construir “barquinhos”.

Hoje, a bacia do Capivari vive o drama da poluição. A Oscip Elo Ambiental se sensibilizou com o fato quando, em visita a uma escola, ouviu das crianças que o nome do Capivari era “rio fedido”, o que mostrou como a relação delas com o rio hoje é diferente de quando Tannert era criança. “Isso denota uma falta de cultura ambiental, de conhecimento e uma falta de respeito ao cidadão e ao rio”, afirma Vittorio Zottino, presidente da Elo Ambiental.

A preocupação se transformou em um projeto que pretende ajudar na recuperação da Bacia do Capivari, na melhoria da captação e da qualidade da água para consumo.  “Nós temos um problema muito sério aqui na região. Para melhorar a captação, precisamos recuperar os mananciais e o seu entorno. E isso vai de encontro aos interesses da especulação imobiliária”, explica o presidente da Oscip, que ainda ressalva que o Código Florestal é, muitas vezes, condizente com essa especulação. O projeto tem três etapas. A primeira é fazer um diagnóstico profundo da situação.

DIAGNOSTICAR PARA TRATAR

Gráfico disponível em http://www.cetesb.sp.gov.br
 Gráfico disponível em www.cetesb.sp.gov.br
Gráfico disponível em http://www.cetesb.sp.gov.br

 Avaliações feitas ao longo de 2012 pela CETESB (Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental) indicam que quatro de sete pontos analisados ao longo do rio tiveram a qualidade da água classificada como ruim ou péssima. Uma avaliação solicitada pela Oscip Elo Ambiental ao Laboratório de Análises Bioágua usou duas amostras: uma direto da torneira, água pronta para uso público em Louveira, e outra proveniente do Córrego Sapezal.

Na primeira amostra, a água já tratada apresentou coloração marrom e nível de turbidez (falta de transparência da água) inadequados para o uso humano. “A análise realizada indica que a água está com uma quantidade de manganês, um metal pesado, elevada. Se ingerido em excesso, o manganês pode gerar doenças como o mal de Parkinson”, explica Denis Costa, da Elo Ambiental . Na amostra de água tratada de Louveira, a concentração de manganês estava cinco vezes e meia maior (0,56ml/L) do que o máximo permitido (0,1ml/L), sem falar em óleos e outros ingredientes.

A amostra de água do Córrego Sapezal apresentou também problemas sérios. Denis explica que a avaliação mostrou DBO (Demanda Bioquímica de Oxigênio) e DQO (Demanda Química de Oxigênio) elevadas. Isso significa que a água está tão poluída, a ponto de ter uma demanda de oxigênio maior para a remoção (oxidação) de compostos, sobretudo orgânicos. A análise indicou uma demanda de 140 ml de oxigênio por litro, 28 vezes maior que o que se espera.

Dejetos sendo descartados no Capivari, na região do Distrito Industrial de Vinhedo
Dejetos sendo descartados no Capivari, na região do Distrito Industrial de Vinhedo

A segunda etapa do projeto são as ações que visam mitigar os problemas diagnosticados. A ideia é colocar em prática o que Zottino chama de “ação Lego”. A ação consiste em trabalhar no rio por regiões. Avaliar, por exemplo: se ele nasce em Jundiaí, como ele chega a Louveira? De Louveira, como chega em Vinhedo? E assim por diante.  Atualmente, o município posterior a Louveira no curso do rio Capivari, Vinhedo, faz um esforço muito grande para tratar a água que capta, dadas as deficiências no tratamento do esgoto da cidade que o antecede. Em Vinhedo, a água usada para consumo não apresenta problemas, senão por vezes o excesso de cloro, usado com fim bactericida.

Outro problema ambiental, apesar de todo o esforço da cidade em tratar o esgoto, são os condomínios que ainda não têm rede. “Há muitos que ainda utilizam o sistema de fossa”, afirma Cilene Alves, técnica da ETE Capivari, no Distrito Industrial de Vinhedo.

CONSCIENTIZAR PARA PREVENIR

A terceira etapa proposta pela  Elo Ambiental é a educação da sociedade civil. “Talvez as ações educacionais sejam as mais importantes, junto às escolas, à população ribeirinha e geral, para que a população assuma sua responsabilidade em relação à preservação dos recursos naturais”, afirma Vittorio Zottino. “A gente começa a notar que não há uma ação integrada.  A Elo tem refletido bastante sobre isso, que é cultivar a vegetação típica da região, e se preocupar com a população de aves, peixes e outros animais, pois tudo é parte de um sistema”, completa.

Paulo Manzani, biológo e pesquisador da Unicamp, conta que, quando foi a trabalho de campo em 2011, na região do rio Capivari, próximo a Monte Mor, encontrou trechos de mata muito curtos (com uma espessura média de 10 metros a partir da margem do rio), escassa em muitas áreas, e águas de coloração avermelhada. “Os peixes buscavam ar fora da água, e continuavam nadando”, diz. O biólogo lançou no ano passado um livro junto à TetraPak e outros pesquisadores. “Monte Mor: a vida às margens do Capivari” faz um levantamento detalhado da fauna encontrada na mata ciliar.

O biólogo Paulo Manzani, mostrando a área pesquisada para levantamento da fauna
O biólogo Paulo Manzani, mostrando a área pesquisada para levantamento da fauna

O livro traz fotos de 1913, da Comissão Geográfica e Geológica do Estado de São Paulo, quando a pesca era prática frequente. Conta também que Monte Mor era o lugar de confecção de canoas para as monções dos sertanistas entre os séculos XVIII e XIX. A mata, no início do século, era bastante opulenta.

Hoje, felizmente, ainda há biodiversidade nos trechos estudados pelos pesquisadores. Ainda se vê jequitibás e jatobás, árvores típicas desta mata, a presença de jaguatiricas e suçuaranas, raposas e outros mamíferos menores, uma infinidade de espécies de aves e anfíbios, e até um sapo que a literatura, até então, só havia localizado na Bahia, Rio de Janeiro, Espírito Santo e Minas Gerais, o Leptodacylus thomei. Para Paulo Manzani, essa é uma indicação de que “o rio ainda está vivo, há salvação”.

Denis Costa explica que um rio muito poluído as bactérias se proliferam, que removem o oxigênio da água do rio para processar toda a matéria orgânica que está na água, até o momento em que não houver mais oxigênio. Os peixes morrem, e assim também se tornam matéria orgânica para ser decomposta. Os microrganismos aeróbicos, com a falta de oxigênio também morrem, restando somente os anaeróbicos, que produzem ácidos em ciclos, diminuindo o pH da água e piorando os odores.  “Esse é um círculo vicioso. Em algumas situações, a poluição é irreversível”, explica ele. Para a Elo Ambiental, é esse tipo de informação que deve ser passado às pessoas, para que pensem nas consequências para a bacia nos próximos trinta anos. O maior problema para a Oscip ainda é a demora na execução do projeto. Enquanto ele é discutido, mais e mais áreas são expropriadas para atender a outros interesses.

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