Crack causa efeitos devastadores em pelo menos sete áreas do organismo

Por Larissa Dias

Do cachimbo improvisado até o cérebro, a fumaça mais perigosa no mundo das drogas causa impactos destruidores no organismo, abrindo a porta para doenças gravíssimas.

O crack é uma mistura barata da pasta-base de cocaína com bicarbonato de sódio e água. Depois de aquecido a mais de 100ºC e passado por um processo de decantação, as substâncias líquidas e sólidas são separadas. E é no resfriamento desta parte sólida que surge a pedra de crack, super concentrada com os princípios ativos da cocaína. Como não existe nenhum tipo de controle, há quem produza o crack com outras substâncias tóxicas, como o cimento, ácido sulfúrico, acetona e até soda cáustica, assim, a droga fica bem mais econômica.

Cachimbo improvisado para o fumo do crack

Esta droga chega ao cérebro de oito a doze segundos e provoca a sensação de intensa euforia e autoconfiança por até dez minutos. O sentimento se assemelha com vários orgasmos e é tão forte que faz com que a pessoa queira fumar outra vez e o mais rápido possível. É fumando uma pedra após a outra, simplesmente pelo prazer da sensação, que o vício chega sem nem ser convidado. Então, o crack se torna uma necessidade, não mais um prazer.

Para Nelson Hossri, especialista em Dependência Química pela Unifesp e idealizador do movimento “Sou feliz sem drogas”, o crack é a droga mais perigosa. “Costumo dizer que a pior droga que existe é aquela que você não consegue largar e o torna dependente. Mas o crack é devastador, pelo fato do seu efeito ser rápido, a chance de vício é maior, fora os efeitos colaterais que são violentos”, conta.

A dependência pode causar doenças pulmonares e cardíacas, sintomas digestivos e alterações na produção e captação de neurotransmissores. O organismo começa a funcionar em função da droga, então, a pessoa não dorme e não come, por isso tantos usuários emagrecem rapidamente. No pulmão a fumaça gera lesão que causa disfunções, ainda mais por causa da falta de nutrientes de alimentos. O dependente fica vulnerável a doenças como pneumonia e tuberculose, além de tosse, falta de ar e dores no peito.

Com a sensação de euforia, causada pelo crack, há um crescimento de adrenalina no corpo, aumentando, assim, a frequência cardíaca e a pressão arterial. Os problemas que podem ser causados são os cardiovasculares, como o infarto ou o derrame. A droga também pode levar à degeneração irreversível dos músculos esqueléticos, ou seja, a rabsomiólise, quando um músculo esquelético se quebra por causa da lesão no tecido. Isso pode acontecer por causa da alta temperatura da fumaça, que queima o tecido da laringe, traqueia e brônquios.

Já no sistema neurológico, o crack altera o humor por causa dos danos no cérebro e das perdas de função dos neurônios. O viciado fica com deficiência de memória, atenção e concentração e pode levá-los a fazer escolhas imediatas, sem avaliar as consequências para o futuro. Alguns dependentes desenvolvem sintomas psiquiátricos, psicóticos e ansiosos, como a depressão, o delírio ou os ataques de pânico.

Conheça os sinais que um dependente de crack tem:

O Brasil concentra o maior número de usuários de crack do mundo. O preço da pedra varia de R$0,50 até R$10,00, dependendo do quão puro é do tamanho dela. “O principal perfil dos usuários de crack eram as pessoas menos favorecidas, como as classes C, D e E. Hoje a situação mudou e atinge de forma excessiva todas as classes, inclusive os mais favorecidos (classes A e B)”, explica Nelson.

Não só prejuízos pessoais, como também prejuízos a terceiros pode causar a dependência do crack. A droga se torna a vida do usuário, então, ele deixa de sentir prazer em outros aspectos da vida, como por exemplo, o convívio com amigos e parentes. Além de colocar em risco a própria saúde, coloca também a segurança de pessoas próximas.

Irene da Silva Teixeira, 66, pode ser considerada mais uma heroína nas histórias do mundo do crack. Ela sofre há cinco anos com o filho que é viciado na droga. “Ele não consegue parar. Sai de casa quatro vezes por dia para comprar a pedra e depois volta e fuma dentro de casa”, conta.

O filho de Irene, Claudemir da Silva Teixeira, 40, já foi até preso por conta do vício. “Me prometeram cinquenta reais para ajudar a roubar umas barras de ferro de uma construção, mas a polícia chegou e fiquei cinco meses na cadeia”, explica ele.

O vício toma conta de cada atitude do dependente, o fazendo agir com agressividade e, muitas vezes, por impulso. A relação dele com a família é delicada, e dona Irene sempre tenta amenizar a situação. “Eu sei que ele quer parar, mas não consegue porque é muito difícil… Então, às vezes até dou dinheiro pra ele comprar porque senão ele rouba, vende as coisas…”, desabafa a mãe.

De acordo com o especialista em dependência química, Nelson Hossri, é possível vencer o crack e o dependente se tornar limpo, porém o difícil é que é uma doença física, mental e progressiva e precisa principalmente de cuidados especiais. “Não é fácil se livrar da dependência em um país onde não oferece tratamento gratuito e nem padrão de tratamento. As chances de um dependente com maior poder econômico são maiores, pois existem clínicas especializadas particulares, como é o caso de artistas e jogadores de futebol”, explica.

Pessoas com menos poder econômico chegam a situações de rua, sofrem preconceito e ainda roubam para sustentar o vício. Mas o fator essencial para ser limpo é ter consciência. “Independente de qualquer classe social, o primeiro passo é o mesmo: querer parar, ter a consciência de que é dependente químico, que é impotente perante a droga”, conclui Hossri.

Editado por Juliana Duarte

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