Em palestra, Bill Nichols diz que tecnologia não deve ser a maior preocupação na hora de produzir um documentário

Por Giuliana A. Wolf

Esta semana, um dos mais referenciados estudiosos em cinema documentário esteve presente na Unicamp. Bill Nichols, professor da Universidade do Estado do São Francisco veio falar sobre documentários nesta terça e quarta-feira, 30 e 31 de outubro. Para ele, nos dias de hoje, a tecnologia já não deve ser a maior preocupação no momento da produção de um documentário. Com tantas possibilidades para capturar cenas cotidianas, até mesmo pelo celular, uma das principais coisas que alguém precisa ter para produzir um documentário é a vontade de ouvir e de deixar que as pessoas falem, que mostrem o que pensam. As perguntas, claro, são importantes e devem ser inteligentes para permitir esse intercâmbio. A questão da linguagem e o modo de abordar os temas foi recorrente em ambos os dias em que ele falou para o público acadêmico.

A palestra do dia 30, falou dos Mockumentaries e outros tipos de documentários irônicos. Os filmes irônicos, segundo ele, englobam os mockumentaries. Usando exemplos práticos e próximos do cotidiano de qualquer pessoa, ele explicou como eles funcionam: “Sabe quando você vê dois gatos brincando? Como os gatos brincam? Eles se jogam um por cima do outro, eles se mordem, mas você sabe que ainda é uma brincadeira. Ou seja, é fazendo essa “luta” que eles mostram que não estão brigando, mas sim brincando.” É como dizer que uma coisa não está acontecendo (briga), pela própria coisa (briga). Da mesma maneira, um mockumentary para não ser como um documentário, apropria-se de forma exagerada de características próprias do documentário.

O filme “No Lies”, produzido em 1973 por Mitchell Block, foi usado para demonstrar isso. Um rapaz usa uma câmera amadora para gravar sua amiga enquanto ela se arruma para sair. Após alguns minutos de perguntas, a moça conta que havia sido estuprada. O rapaz, sabendo disso, começa a fazer perguntas que a constrangem e que deixam transparecer sua descrença na história que está escutando. A cena toda dura cerca de 15 minutos e é gravada em uma câmera de mão. O clima inicial, de alguém que estava se arrumando para sair à noite, acabou por ser substituído pelo testemunho emocionado de como a violação havia acontecido e, além disso, mostrou como se sentia a mulher ao saber que nem ao menos seu amigo acreditava na sua versão dos fatos. Ao final, os nomes dos personagens aparecem, seguidos dos nomes dos atores, então, pode-se perceber que o filme, na realidade, não era um documentário, embora fizesse o uso dos códigos em geral ligados a ele, como depoimentos muito pessoais e gravações com poucos efeitos.

Nichols comentou ainda, que os filmes irônicos dependem muito do processo cognitivo do público, que precisa pensar no pacote todo, não somente no que está aparecendo na tela, pois, afinal, ironia vai além da linguagem e das imagens, está ligada diretamente com a cultura na qual o filme foi feito.  Motivo também pelo qual, esses filmes muitas vezes precisam ser assistidos duas vezes até que o espectador tenha a sensação de compreensão total.

Créditos: Giuliana A. Wolf
Bill Nichols durante palestra na Unicamp, 13/10/12

Já no dia 31, quarta-feira, a palestra tratou propriamente dos documentários e a forma de contá-los. Bill Nichols falou bastante de como os elementos que compõem a narrativa podem influência-la, como a trilha sonora, a faixa escolhida especificamente para uma cena, a luz, a edição da qualidade do som etc. Clássicos do início dos documentários foram citados logo ao início para que a trajetória pudesse ser iniciada, como Man With a Movie Camera e The City & Berlin, que foram usados para exemplificar como a tecnologia começou a alterar a vida da sociedade, tanto no aspecto do acúmulo de tarefas, quanto no aspecto da facilidade: fazer um filme, como estava sendo feito!

O Professor falou também sobre um dos pontos mais complexos de compor um documentário: fazer o o público acreditar que aquilo que foi gravado teria acontecido da mesma forma, ainda que não houvesse a câmera gravando tudo. Para atingir isso, ele enfatiza que a escolha do modo de gravação é muito importante. Como exemplo, ele cita a “edição direto na câmera”, que é quando não há cortes ou várias tomadas, tudo é gravado direto para dar mais sensação de continuidade. Cabe ao cinegrafista saber em que momento mudar a posição da câmera e para quem direcioná-la, no caso de uma discussão, por exemplo.

Dentre os documentários usados como exemplo, Nichols citou dois brasileiros, O Fim e o Princípio, de Eduardo Coutinho, e Avos. Além disso, usou o filme “People I Could Have Been and Maybe Am”, do holandês Borris Gerrets, para aproximar-se ainda mais do público. O documentário conta a história de Sandrine, uma brasileira que decidi ir à Londres em busca de um marido. A filmagem, no entanto, é feita a partir do celular de um dos homens com quem ela se encontra. O desenrolar do trecho mostrado, deixa claro que a visão  sob a qual o filme foi feita fez toda a diferença, pois conta muitas histórias ao mesmo tempo: o filho de Sandrine aparece, a brasileira marca outros encontros com outros homens enquanto na companhia deste que grava, além da própria cena entre os dois que já estava acontecendo.

Editado por Bruna Trindade

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