Expectativas dos professores influenciam a performance dos alunos, afirma estudo

Michelle Lopes

Por Michelle Lopes

As expectativas demonstradas por um professor sobre os alunos interferem em seus desempenhos, aponta pesquisa divulgada neste mês pela Universidade da Virginia, nos Estados Unidos. O trabalho do pesquisador Robert Pianta, reitor da Escola de Educação Curry, da mesma universidade, propõe ainda uma mudança de comportamento dos docentes em sala, para que os preconceitos não prejudiquem o grupo.

Com base nos resultados da parte inicial da pesquisa realizada em 1964 pelo professor de Harvad, Robert Rosenthal, que provou a interferência da capacidade acadêmica dos estudantes através das crenças dos professores, realizou-se neste ano um segundo experimento. Desta vez, grupos docentes foram analisados durante as aulas, nas quais os pesquisadores puderam identificar pequenos comportamentos que transmitem expectativas – boas ou ruins.

Michelle Lopes

A pesquisa de Pianta defende, assim, o treinamento dos professores, para que consigam ocultar suas crenças. “É muito difícil o professor não demonstrar afetividade, que é de alguma forma visível. No entanto, não se pode criar grupos por empatia. Ele deve saber separar a parte afetiva da parte cognitiva: o conteúdo que é pedido e como ele é avaliado na relação com o aluno. É preciso ter uma relação afetiva com todo o grupo”, aponta a psicopedagoga Rita Vital Ferreira.

Essa variação comportamental é perceptível, inclusive, para os próprios alunos. Alguns, como Murillo Jorge, estudante universitário, notam ao longo de sua vida acadêmica diferentes tratamentos recebidos dos professores e não concordam com as diferenciações. “O correto seria que o tratamento fosse igual para todos. O professor tem o direito de ser uma pessoa rígida ou mais flexível, mas deve ser assim com todos os alunos, sem distinções”, acredita.

Complementando os dados divulgados, a pesquisa também apresenta uma série de maneiras pelas quais o professor pode desestimular determinados alunos, como sorrir menos para eles, mostrar impaciência e até mesmo não considerar coerentes suas dúvidas. O pesquisador afirma que diversos experimentos foram realizados para buscar a solução, de forma que o profissional da educação pudesse conter os sinais destrutivos. Na análise, alguns professores foram motivados a mudar as opiniões sobre os alunos, chegando a crer no bom potencial de todos, enquanto outros foram treinados para ocultar os sinais de suas crenças. Resultado: 12% dos docentes do primeiro grupo obtiveram sucesso, em oposição ao dobro de êxito do segundo, que conseguiu melhorar seu relacionamento com os alunos, apenas treinando seu comportamento.

No entanto, o método proposto é questionável no meio educacional. “Treinamento não é eficaz, mas preparo emocional, sim. Treino não leva ninguém a nada, é apenas repetição. O docente tem que ser levado a uma mudança de consciência, pois a atitude muda a partir disso”, defende a psicopedagoga.

(Confira mais algumas opiniões sobre o sistema educacional e dicas para os profissionais de educação na entrevista com Rita Vital Ferreira:)


Propostas

Robert Pianta direciona algumas sugestões aos professores que têm a intenção de mudar o comportamento prejudicial aos alunos. (Confira no quadro abaixo). Atitudes como ouvir mais as sugestões e necessidades dos estudantes, experimentar alternativas e não encarar as dificuldades apresentadas apenas como uma falta de capacidade de entendimento dos alunos, mas como um feedback negativo para o método empregado, são sempre válidas no processo educacional.

Para Rita Vital, a pesquisa americana mostra a importância da busca pelo equilíbrio nas relações entre docentes e alunos e o quanto o desempenho escolar está ligado a afetividade no processo. “Não existe processo acadêmico positivo sem empatia. Falta, tanto para o ensino superior como para o ensino médio, esse olhar do educador: um olhar a mais. Tudo está em torno do olhar”, conclui.

O estudante Murillo Jorge também considera que a afetividade é importante para o sucesso acadêmico. “É mais fácil se interessar por uma matéria que tenha um docente acessível. Estreitar a relação entre conteúdo e relacionamento com o professor colabora para que tanto ele como nós, alunos, tenhamos benefícios. Com isso, o aluno se sente mais confortável para interagir, questionar e expor suas dificuldades”.


Michelle Lopes

Editado por: Giovana Seabra

3 comentários

  1. Quando comecei a dar aula notei bastante isso. Se você se coloca num patamar equivalente ao aluno para dar a aula, ele vai te respeitar bem mais. É importante desmistificar essa idéia de que o professor ensina e o aluno aprende. Na verdade é uma grande troca de experiências, com a diferença que o professor tem mais experiências a proporcionar à turma.

    Afinal alunos e professores são pessoas comuns e gentileza e trato é bom em qualquer situação…

  2. Faz muito sentido, uma vez que não são raros os casos nos quais os alunos dizem gostar de certas matérias somente por seus professores, uma vez que foram capazes de criar uma empatia.

  3. Essa pesquisa nos oferece uma informação consistente: mostra o peso do aspecto afetivo nas relações entre professor e aluno. Todavia, acho importante ressaltar aqui que vivemos numa época em que – devido à desagregação da família – as crianças chegam na escola já com sérias dificuldades afetivas, coisa que repercute no desempenho em sala de aula. Muitas vezes o professor é chamado a suprir lacunas nessa área, coisa que dificulta o processo de aprendizado.

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