Caso Cachoeira levanta discussões sobre a mídia em Dia Nacional da Liberdade de Imprensa

Diana Siquelero

Nesta quinta-feira, 7 de junho, comemora-se no Brasil o Dia da Liberdade de Imprensa. A data, no entanto, contrasta com uma realidade em que veículos jornalísticos têm mais complicado que esclarecido a população perante um fato que, desde que surgiu, não saiu mais da mídia: o escândalo da suposta organização criminosa comandada por Carlinhos Cachoeira.

Cachoeira é acusado de comandar um esquema de exploração de jogo ilegal e de corromper agentes públicos, dentre outros crimes. Os resultados dessa investigação revelaram que muitos parlamentares estão envolvidos, de alguma forma, com os supostos crimes do bicheiro, em especial o senador Demóstenes Torres. Para entender melhor o caso, acesse esta linha do tempo.

Temas políticos não são mesmo fáceis de acompanhar e, mais ainda, entender, mas os veículos de informação – que teriam que auxiliar a população nessa hora – partiram para ataques uns contra os outros. É o caso da revista Carta Capital, Veja e organizações Globo, que têm deixado o leitor e espectador “sem saber em que acreditar”. Essa é a opinião da estudante de direito Lutimila Alves que, sempre que pode, acompanha ao vivo as sessões da CPMI que foi instaurada para investigar a fundo o caso. “Como o Mino Carta disse em um editorial, os ‘desinformantes’ estão nos deixando confusos. Eu procuro entender o caso, mas a cada semana – e a cada veículo – vejo algo que desmente o que já foi dito antes e, possivelmente, conta novas mentiras. O contraventor deixou de ser o foco das matérias, que se tornaram uma coisa quase que metalinguística – só falam sobre outras reportagens”, diz a estudante, que considera tudo isso um desrespeito à população.

Capa da revista Carta Capital com uma falsa capa da revista Veja

Censura e democracia
O professor de Teoria da Opinião Pública, da faculdade de Jornalismo da PUC-Campinas, Wagner Geribello, garante que a sociedade só tem a perder com a submissão do jornalismo das emissoras aos interesses das empresas que o banca, uma vez que não existe proteção legal que regularize a imprensa no país. A Lei de Imprensa – vestígio da ditadura militar brasileira – foi revogada em 2009. “Nossa legislação é muito frágil quanto a isso, principalmente por conta do temor de que qualquer medida para regular a imprensa vire clamor de censura”, explica. Com isso, para a preocupação do professor, surge uma sociedade menos democrática no sentido de participar dos assuntos de seu interesse. “Pensar que democracia é o direito de uma vez, em períodos em períodos, votar é muito superficial. A democracia vai muito além disso. É participar do cotidiano, interferir na educação, saúde, trânsito, violência…e acho que a mídia, por diferentes razões, nega esse diálogo muitas vezes”.

Essa censura, que é o contrário direto de liberdade de imprensa, pode ser feita de três diferentes maneiras, segundo o jornalista Fábio Serapião: a empresa censura, o Estado censura ou o Estado – via empresa – censura. “Na terceira, a mais problemática e danosa, compactuar com a censura é admitir o uso do povo, e do que é tirado do povo, contra si mesmo. Não compactuar, denunciar e, de todas as formas, tornar público esse conluio é dever de todo jornalista que preze pela liberdade de imprensa”, completa.
Para Serapião, que colocou na programação do SBT uma reportagem exclusiva com o jornalista que acusa o governador Marconi Perillo de estar ligado a Carlinhos Cachoeira, os jornalistas não devem deixar de fazer o que lhes compete a profissão por medo. “Lembremos que a censura se trata de problema jurídico, portanto, a nós, jornalistas, não compete discuti-la antes da execução do nosso trabalho. Digo isso por ter encontrado nas redações um tipo de censura que acreditava não existir: uma autocensura. Apuração, produção, edição, enfim, trabalho feito, aí sim, em caso de não publicação, começa o problema”, afirma o jornalista.

Internet
“Quando fico confusa, vou procurar em blogs esclarecimento para tudo que vi nos grandes veículos”, conta Lutimila Alves. A estudante de Direito afirma recorrer à “imprensa informal” por saber que lá os autores podem contar o que sabem sem esconder opiniões ou submetê-las a interesses maiores que o de manter a população informada. “Ainda assim fico atenta, pois essa liberdade toda da internet também nos deixa propensos a textos extremamente parciais, que defendem muito um ou outro lado”, completa.
O professor Wagner Geribello, que se diz em fase de transição em relação à internet, acredita na possibilidade de esse tipo de mídia permitir algo positivo. “Sobre isso, vou do pessimista ao otimista, ainda estou inseguro sobre isso, mas cada vez mais eu vejo a chance de algo que até hoje não tivemos na sociedade: o diálogo entre as partes enquanto públicos, sem o intermédio do ‘jornalista atravessador’”.
No vídeo abaixo, Geribello diz se Liberdade de Imprensa existe ou não hoje no Brasil e dá dicas de como o jornalista pode se comportar diante de uma censura por parte da empresa em que trabalha.

O Digitais quer saber

E vocês acreditam na liberdade de imprensa? Veem na internet uma saída para as diferentes formas de censura existentes hoje? O Digitais quer saber sua opinião, comente!

Editado por Raphael Gnipper

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