Praticantes de skate driblam poucas opções de pistas em Campinas

Jose Guilherme Silveira

A cena do skate em Campinas está desamparada, segundo frequentadores da Praça das Águas, um dos locais para a prática do esporte na cidade. O skatista amador Rodrigo Alves tentou fundar uma nova associação para representar o esporte no município, mas não obteve sucesso. Além de enfrentar a falta de apoio do poder público, o skatista acredita que a desunião e o desinteresse político dos praticantes do esporte foi o que esvaziou o movimento.

Campinas possui duas pistas semiprofissionais e incontáveis pistas amadoras, algumas públicas, outras em condomínios fechados, além de locais em que os atletas se encontram para praticar o skateboarding. Mas o que se vê nesses locais são o abandono e a falta de estrutura e segurança.

Apesar de ser uma metrópole, Campinas nunca incentivou os esportes urbanos e o skate é uma dessas vítimas. Até meados dos anos 80 e 90 o que se viam eram skatistas que conheciam a marcenaria, que acabavam fazendo os halfs e mini-ramps, rampas utilizadas para o esporte, de madeira. “A galera era mais empolgada na época e gostava de pôr a mão na massa”, afirma Eder Botelho, importante personagem do skate campineiro, proprietário de duas lojas especializadas na região.

Segundo ele, o que os skatistas têm hoje é muita vontade de andar e pouco a oferecer para a formação de uma cena consolidada. “A estrutura que a cidade tem, ou tenta ter, hoje em dia é fruto do nosso trabalho no passado”, afirma Eder, que tem 46 anos, quase 30 deles dedicados ao esporte.

ASC

A Associação Amigos do Skate foi fundada em 2004. Entre as reivindicações estava a construção de pistas de skate. Segundo Mario Soldeira, o Marinho, que já foi presidente da ASC, muitas vezes as autoridades entenderam que uma mini ramp fosse uma pista de skate profissional, e Campinas ficou cheia delas. “O ideal é que a associação participe da elaboração da planta da pista de skate, em todos os detalhes, inclusive com memorial descritivo dos materiais a serem usados”.

Quando a associação estava bem, formou alianças políticas e em agosto de 2007, quando Eder e Marinho eram os diretores, conseguiram o banks da Lagoa do Taquaral. “O pedido era de uma pista de street. Mas o valor que foi disponibilizado na época não dava para fazer uma pista de street como a cidade de Campinas merecia, por isso a decisão foi de fazer algo bem feito. No caso optamos pela construção de um banks de qualidade.”

A qualidade da pista, que custou cerca de R$ 80 mil aos cofres públicos, é indiscutível. Apesar da sujeira e da necessidade de pequenas reformas no piso, a pista é bem grande, tem cerca de 35 metros quadrados, 1,80 metro de profundidade e ladrilhos na lateral, além de ser iluminada. “Gosto muito de andar aqui. A pista é muito boa, muito lisa. O problema é a poeira que vem da parte de terra que fica no acesso a ela”, é o que diz Marcos de Assis, de 16 anos. Ele é um dos 20 jovens que se reúnem aos sábados no fim da tarde no banks do Taquaral, com direito a música, DJ e plateia.

Outro local muito utilizado é a pista que fica no Parque Linear do Capivari. A pista tem dois mini halfs e alguns obstáculos de street. O local já foi utilizado no ano passado para uma competição que aconteceu durante a Virada Esportiva, em julho. “A pista é muito boa. É uma alternativa para os jovens da região fugirem do crime e das drogas”, afirma Jair Monteiro, um dos frequentadores do local.

Hoje, o local mais frequentado pelos skatistas é a Praça das Águas. O local fica entre as avenidas Abolição e Saudade, próximo à região central de Campinas. A praça foi inaugurada pelo poder público há oito anos, quando havia diversos chafarizes. Com o tempo os skatistas começaram a dominar o local, que era muito plano e com piso bem liso. Hoje, no local, há mais de dez obstáculos, todos construídos pelos próprios skatistas. Há rampas, corrimãos, trilhos, bancos, tudo feito artesanalmente pelos frequentadores e também com o apoio de uma loja de artigos esportivos que fica de frente pra praça.

Cerca de 50 pessoas se encontram no local aos sábados e domingos à tarde. Um dos skatistas é Lukas Batistel, que além de praticar o skateboarding, ainda filma e tira fotos, por puro hobbie. “Como já trabalho com foto e vídeo, curto produzir algumas coisas pra incentivar as pessoas a frequentarem a Praça e colaborar de alguma forma com a cena do skate na cidade”, afirma.

O webdesigner Guilherme Rubezan levou os filhos para conhecer a praça no último fim de semana. Ele reclama da má divulgação e da infraestrutura

http://soundcloud.com/jg138947/sonora-guilherme

Dificuldades

Hoje, a ASC está em um momento delicado. “Com o esvaziamento das reuniões e assembleias, optamos por não dar andamento à Associação”, afirma Mário Soldeira, que passou a bola para outros skatistas. “Percebo que os jovens de hoje desacreditam muito da política e por isso não têm interesse na participação. Não percebem que esta pode ser uma solução democrática pelos nossos direitos”. Segundo ele, o andamento dos projetos pode se dar por meio de comitês, mas não há nenhum formado no momento.

Rodrigo Alves considera que a criação de uma nova associação era uma alternativa aos trabalhos da ASC. “A ASC era muito elitista e não realizava projetos para a cidade toda, somente nas partes nobres”, diz. Rodrigo é morador da região do Ouro Verde e acredita que a desunião é um problema da região central da cidade. “Nesta região o pessoal é muito cada um na sua. Aqui onde moro o pessoal é mais unido, a intenção era fazer uma associação com sócios de verdade e não somente uma diretoria e meia dúzia de conselheiros”, critica.

Segundo a Secretaria de Esportes de Campinas, atualmente não há nenhum projeto voltado para o skate na cidade.

Indaiatuba

A cerca de 30 quilômetros de Campinas, em Indaiatuba, uma cidade de cerca de 200 mil habitantes, está uma das melhores pistas de skate da região. Localizada dentro do Parque Ecológico de Indaiatuba há um espaço de aproximadamente mil metros quadrados, inaugurado em 2004. O local conta com um half de quatro metros de altura e dez de extensão e uma grande pista de street, com diversos obstáculos como corrimãos, bancos, rampas pequenas e uma variedade de subidas e descidas.

No ano passado foi realizada a primeira reforma do skate park, para recuperação do piso e de alguns obstáculos que estavam “machucados”, por causa do excesso de uso. O custo da obra, paga pela própria receita municipal, foi de aproximadamente R$ 170 mil, mais da metade do valor que a pista custou aos cofres da cidade (R$ 300 mil). As obras duraram dois meses.

SkatePark de Indaiatuba

A obra foi muito comemorada pela ASKIN (Associação dos Skatistas de Indaiatuba), existente desde agosto de 1988. Segundo o presidente Fernando Wolk, o Cebola, o projeto da reforma foi uma reivindicação dos próprios skatistas e a intenção era de dar ainda mais visibilidade para a cidade na cena do skate. “Antes do início da reforma realizamos um campeonato regional, para concluir estes primeiros anos de sucesso”, diz. A intenção é, em breve, receber uma das etapas do campeonato paulista de skate.

A associação de Indaiatuba é a maior do interior de São Paulo, com 315 associados. É também uma das mais antigas. Cebola diz que começou com bastantes pregos e madeira. “Durante muito tempo tivemos que nos virar para conseguir se divertir. Os amigos se juntavam, pegavam Madeirit de obras, comprávamos alguns pregos e montávamos rampas, e até um half que ficou montado até 2002 no Parque Ecológico”, lembra o praticante, que anda de sakte desde 1991.

Editada por Bruno Moreira

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