Cartão vermelho para fumo aromatizado e cigarros com sabor

Após o prazo de dois anos, contados a partir do mês de março, milhares de consumidores de cigarros aromatizados e usuários de narguilé passarão a não encontrar mais no mercado as essências e fumos com sabor que viraram moda há cerca de cindo anos no Brasil. Em decisão da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), publicada no dia 16 no Diário Oficial da União, sob a Resolução nº 14, de 15 de março de 2012, 40 marcas de cigarros com sabor deverão ser recolhidos em até 24 meses.

Para entender de que forma isso realmente afetará os usuários de narguilé, passei cerca de duas semanas analisando e conversando com um grupo de amigos, moradores de Hortolândia, que se reúnem todas as semanas, há cerca de cinco anos, para fumar as mais variadas essências.

Laranja, morango, salada de frutas, mentos, coca-cola, baunilha (mais difícil de encontrar no mercado – o grupo comemora ao comprar o fumo com esse sabor). A mangueira do narguilé, que passa de mão em mão na rodinha é vista como uma forma de socialização pelo grupo de amigos.

Para manter esse costume, ou vício, é preciso desembolsar cerca de R$4,00 por pacote de carvão e R$5,00 pela caixinha de essência, que apesar de conter imagens impactantes das doenças provocadas pelo fumo, em nada impressionam os usuários. Para tornar o “hobby” mais barato, três amigos revesam o narguilé a cada semana e se responsabilizam por comprar essências, carvão e papel alumínio.

Jéssica Caldeira
Na rodinha de amigos, Paulo Duarte experimenta mais um sabor de fumo para narguilé

Um dos usuários de narguilé, também fazia uso de cigarros, mas há três meses resolveu abandonar o vício. Ele declara que no início, o narguilé ajudou muito a se manter firme na decisão de abandonar o cigarro: “Já li e as pessoas já falaram comigo dos problemas do cigarro, mas com o narguilé eu não trago como fazia com o cigarro. Então sei que inalo um pouco, mas não faz tão mal quanto se eu tragasse”, justifica Paulo Duarte, 23 anos, analista de departamento pessoal.

De acordo com a Anvisa, cerca de 600 aditivos são usados para a fabricação do cigarro e das essências, o que corresponde a cerca de 10% da massa do produto final. Ainda segundo a Agência, “os aditivos são substâncias adicionadas intencionalmente nos produtos derivados do tabaco para mascarar o gosto ruim da nicotina, disfarçar o cheiro desagradável, reduzir a porção visível da fumaça e diminuir a irritabilidade da fumaça para os não fumantes”.

Um estudo desenvolvido pela Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz, publicado no dia 13 de março, analisou dados colhidos em entrevista com mais de 17 mil estudantes e constatou que 33,1% deles consideram importante a adição de sabor ao fumo. A preocupação da Anvisa ao tomar a decisão baseou-se em dados que revelam que os aromas incentivam o uso de cigarros e narguilés por adolescentes.

Segundo o Inca (Instituto Nacional do Câncer), 45% dos fumantes de 13 a 15 anos consomem cigarros com sabor. Em entrevista ao Portal da Saúde, Paula Johns, representante da organização não governamental Aliança de Controle do Tabagismo, aponta: “A maioria dos jovens, cerca de 60%, experimenta cigarros com sabor. O cravo e o mentol são os principais aditivos consumidos pelos jovens”.

fonte: Anvisa

Narguilé está entre os mais consumidos entre os derivados do tabaco

Estudo divulgado pela Secretaria da Saúde do estado de São Paulo e realizado pelo Cratod (Centro de Referência em Álcool, Tabaco e outras Drogas), através de entrevistas nas ruas da capital paulista, revela que cigarrilha, cachimbo, narguilé e cigarros com sabores estão entre os produtos fumígenos mais consumidos entre os fumantes.

Questionados sobre o fumo mais consumido pelos entrevistados no último ano, o narguilé foi a resposta de 28% das pessoas, aparecendo em primeiro lugar. Na sequência aparecem os cigarros de cravo e com sabores.

Outro dado levantado pela Secretaria foi em relação a porcentagem de fumantes que já experimentaram outros tipos de fumo, além do cigarro tradicional. Constatou-se que 61% dos deles já utilizaram outros produtos derivados do tabaco.

De acordo com a Secretaria de Saúde Estadual, a diretora do Cratod, Stela Martins Regina Martin, alerta que “qualquer forma de consumo do tabaco é muito prejudicial à saúde. Porém, se comparados com os cigarros tradicionais, os outros produtos citados na pesquisa apresentam teores muito mais altos de nicotina, alcatrão e monóxido de carbono. Isso significa que experimentar ou tentar substituir o cigarro por outro derivado do tabaco pode trazer riscos até mais graves a saúde.”

Para Paulo Duarte, o narguilé é uma forma de socialização que, apesar da nova legislação que impede a comercialização do fumo aromatizado, não deixará de ser praticada: “Sinceramente eu nem sabia dessa lei, mas como a gente sabe o país que a gente está, sempre vai encontrar em algum lugar. Tudo que é proibido você acha pra vender. Esse é o Brasil. Não vou sair fazendo estoque de essência. Não é algo que me preocupa”.

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